Assisti a um filme ontem que me surpreendeu. Arrebatou-me de jeito. E tenho quase certeza que o ano terminará sem que isso aconteça novamente. E o mais impressionante é que o filme é protagonizado por ninguém menos que Jean-Claude Van Damme. Sem dúvida alguma uma das figuras mais marcantes e presentes na minha infância. ”O Grande Dragão Branco”, “Kickboxer – O Desafio do Dragão”, “O Alvo”, “TimeCop – O Guardião do Tempo”, “Morte Súbita”, são alguns dos exemplos que fizeram parte da vida de qualquer garoto no final dos anos 80, e durante boa parte da década de 90. Ele realmente era demais! Mas eu, como todo garoto, cresci, e deixei para trás um mundo descompromissado e repleto de inocência. Ao passar por essa fase, tudo aquilo que se deixa para trás é esquecido.

Jean-Claude Van Damme fazia parte desse mundo que foi deixado para trás. E sinceramente, senti saudades. Saudades dos tempos em que acordava às 5 da manhã e via filmes antes de ir para escola. Filmes que hoje acho ridículos. E sei que não deveria, porque tenho certeza que cumpriram os seus devidos papéis. E junto com a bagagem, e a capacidade analítica adquirida com o tempo, vem às vezes a chatice. Algo que tento ao máximo não me contaminar. Gosto de cinema e pronto. E Van Damme é isso: Cinema. Na maioria das vezes, um cinema bem ruim. Mas o que o difere de outros tão ruins ou mesmo piores que não recebem o mesmo estigma? Vai saber… o engraçado é que Jean Claude Van Damme (sim, aquele mesmo de filmes de lutas. Você não está lendo errado) é um ator ultrapassado, decadente, que tenta ganhar a vida encarnando os mesmos personagens em histórias pra lá de clichês. Até ontem, era exatamente o que achava. Mas tudo mudou depois de ver o belíssimo filme JCVD (JCVD, 2008). Sim, as iniciais do lutador/ator nascido na Bélgica.

O filme inicia-se com Van Damme fazendo o que faz de melhor: meter porrada em quem aparece pela frente. Através de um plano seqüência, o filme já demonstra de imediato que todo o preconceito tem que ser deixado de lado, e que algo diferente estava para acontecer. Depois de toda pancadaria, escutamos um “corta!” e percebemos que tudo não passava de uma filmagem. Em seguida, Van Damme, exausto, exclama: “não funcionou, não funcionou… é muito difícil pra mim fazer tudo em uma só tomada. Porra, vocês sabem, eu tenho 47 anos”. É através dessa simples fala que se encontra toda a beleza do filme. Durante 90 minutos ficamos encantados com tamanha honestidade que o ator descarrega sobre os nossos colos. A coragem de se expor ao fracasso e a decadência chega a ser louvável. Por um momento me senti culpado por tanta dor e sofrimento. Já que fiz parte do enorme grupo que o deixou para trás.

JCVD é um filme que brinca com a ficção e a realidade, passeando pela linha limítrofe que as separa. Esse sem dúvida é o ponto mais alto da película. A verdade aparece aos poucos, às vezes através de diferentes pontos de vista. Assim como a vida. E é exatamente por isso que o filme funciona tão bem. Jean Claude Van Damme manifesta seus sentimentos de decepção que tem por si. Conta as suas mágoas e os seus erros com extrema honestidade. E deixa claro que gostaria ter feito tudo diferente. Mas nem sempre sabemos onde tem verdade, e onde tem interpretação. E é por essa dubiedade que posso dizer sem medo: Que atuação! Jean Claude Van Damme não apenas interpretou o papel da sua vida, como fez da sua vida o seu grande papel.
























