
Dos dias 12 a 21 de Novembro, Recife teve a oportunidade de assistir mais de 100 filmes, entre curtas e longas metragens, através da terceira edição do Janela Internacional de Cinema do Recife. E obviamente que o Café Com Cigarro estava presente para acompanhar a programação elaborada pelo jornalista e cineasta Kleber Mendonça Filho. Vamos aos filmes:
SERGEI LOZNITSA

O Janela Internacional de Cinema do Recife é um festival que divide os seus filmes por sessões, criando um laço temático ou estético entre eles, buscando uma similaridade e fazendo o espectador se conectar com esse conceito. Esse ano, o festival criou uma sessão especialmente para um cineasta, o bielorrusso Sergei Loznitsa. Foram três médias metragens e dois longas. Em A FÁBRICA (Fabrika, 2004), ele cria uma estrutura documental nos mostrando um processo de industrialização de uma fábrica, mas em nenhum momento nos faz conectarmos com os personagens, a ligação é apenas ao processo industrial. O filme é dividido em capítulos e vai aos poucos nos mostrando o que os trabalhadores produzem. A utilização da imagem estática é uma característica vista em todos os outros filmes. A composição do som é impecável, é ele que nos ajuda a conectarmos com as imagens, é um trabalho em conjunto que funciona muito bem. Em RETRATO (Portret, 2002), Sergei mostra pessoas marcadas pela vida, em lugares não revelados, mostrando as diversas faces do que sobrou da URSS. Aqui o som é puramente o vento, nos dando a sensação de frio e solidão. As imagens estáticas novamente fazem parte da sua estrutura narrativa, vira uma aliada para se contar uma história. É como se fossem piscar de olhos. Já em A PARADA (Polustanok, 2000), o mesmo é realizado com pessoas dormindo em uma estação ferroviária e o som dos roncos ecoa pela sala de cinema. Sergei cria uma atmosfera misteriosa com os seus filmes, fazendo nos perguntar durante toda a projeção o que é isso que estamos vendo e como nos sentimos com essa experiência.


E ele nos responde com seu longa BLOQUEIO (Blokada, 2006). Quando entrou para o Instituto Russo de Cinematografia em Moscou, ele encontrou 6 horas de material filmado, sem som, dos desgastantes e angustiantes dias do cerco germânico a São Petersburgo na II Guerra Mundial. Decidiu então condensar essas imagens tão fortes e criar esse documento histórico. Escolhendo acertadamente por não utilizar nem trilha sonora e nem narração, o trabalho ardiloso se deu basicamente pela montagem e pela recriação dos sons em tela. Um trabalho exemplar e significativo para que a história tenha sua força dramática alcançada. Em “Bloqueio”, a história da guerra é contada pelos olhos das pessoas que passeiam pelas ruas brancas de neve, mas inundadas de corpos mortos pela fome e frio. A angústia e a tristeza, sem falar da desesperança, são os sentimentos que me permearam durante toda a projeção.
Tive o prazer de tomar um café e fumar um cigarro com o cineasta Sergei Loznitsa após a exibição dos seus filmes, e obviamente fazer algumas perguntas.


Rick Monteiro – Assistindo a seus filmes, imediatamente me lembrei da estética do cineasta sueco Roy Andersson, especialmente do filme “Mundo de Glória”, em que o cineasta determina que a imagem estática é o recurso que melhor identifica o espectador com os personagens.
Sergei Loznitsa – Ah, Andersson, sim sim! Ele não está errado, essa concepção que nós compartilhamos, a imagem estática, é uma das formas que permite que o espectador preste atenção aos mínimos detalhes: no cenário, nos personagens, na imagem como um todo e no meu caso especificamente, o som. Mas utilizo outras linguagens narrativas, como em filmes de ficção. O exemplo é o MINHA ALEGRIA (Shastye Moe,2010).
RM – O trabalho de recriação de som em Bloqueio é simplesmente fantástico, todos os detalhes são recriados com muito cuidado, mas em um momento quando vemos claramente uma senhora e uma criança chorando por causa da morte do marido, você escolheu por não recriar o som do choro, do desespero. Por que?
SL - Porque o silêncio às vezes é muito mais gritante. É aqui que a imagem se torna muito mais forte.
RM – Seus filmes são lançados em DVD?
SL – Sim sim! Temos uma distribuidora alemã. Mas acho que aqui no Brasil, não.
RM – É por que eu achei um link dos seus filmes para fazer o dowload? Você se importa? (Risos)
SL - Não, de forma nenhum. (Risos) Eu quero que as pessoas assistam aos filmes.
SEMANA DA CRÍTICA


A ESTRADA DA NOITE (La Route la Nuit, 2007) é um filme interessante apenas pela sua estética, em momentos assemelha-se a uma história em quadrinhos francesa noir, e em outros apenas uma exposição fotográfica contando uma história. É um filme sobre a dor, mas em nenhum momento se conhece essa dor, deixando tudo muito vazio e sem conectividade. A personagem diz “Eu perdi você, eu esqueci você. São suas memórias que fizeram eu me esquecer”. O que na verdade acontece, é que ao final, o filme é que é difícil de lembrar. MULHER NÃO PAGA (C’est Gratuit Pour Les Filles, 2009) conta a história da ingenuidade e desesperança de uma juventude, no caso em questão a francesa suburbana. Tenta demonstrar que os ainda adolescentes estão cada vez mais recebendo responsabilidades de adultos e com isso ultrapassam etapas e fazem péssimas escolhas. Uma tentativa fracassada de ser um filme dos Irmãos Dardenne. Pensei inúmeras vezes em Rosetta, mas que por infelicidade dos seus realizadores isso apenas demonstra a fragilidade da sua história. COMPORTA (L’ecluse, 2006) é um filme indecifrável, mas por escolha própria. É apático do início ao fim. Tentando criar uma atmosfera enigmática, misteriosa, o filme nada mais é do que a arrogância em forma de imagens. A CÓPIA DE CORALIE (La Copie de Coralie, 2008) é um filme que tenta ser agradável, mas consegue ser apenas constrangedor. Ideias são jogadas na tela, todas elas pela metade. De início a excentricidade dos personagens cativa até que se começa uma declamação musical, um tipo de repente em francês, e assim o filme se torna uma opereta, tentando ser poético e romântico, mas a única coisa que consegue ser é constrangedor.
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TAD’S NEST (Tad’s Nest, 2009) é uma explosão visual das mais interessantes, uma animação poética que nos encanta pela sua temática folclórica e pela sua agressividade narrativa. Um floreio único no cinema de animação. CHYNTHIA AINDA TEM AS CHAVES (Chynthia Todavia Tiene Las Llaves, 2010) se conecta imediatamente com o espectador. Utilizando uma narrativa confessional onde a atriz Maria Villar narra suas angústias por causa de um fim de relacionamento diretamente com o público. Determinando de imediato a personalidade do seu personagem, o cineasta argentino Gonzalo Tobal cria uma pessoa perdida pelas suas ideias e concepções, mas nunca demonstrando a consciência de sua fragilidade. Um filme que teve seu texto claramente criado e recriado durante todo o seu processo de feitura e que mostra um intimismo digno do cinema argentino. FRENCH COURVOISIER (French Courvoisier, 2009) nos mostra um grupo de amigos sentados em uma mesa discutindo temas diversos intercalando com as lembranças de seu amigo que recentemente se suicidara. A dinâmica entre eles deixa o filme extremamente natural nos dando a sensação de credibilidade do discurso e dos sentimentos. Um filme que trata sobre a morte e suas consequências, mas de uma forma leve e prazerosa. APENAS PARA FINS CULTURAIS (For Cultural Purposes Only, 2009) foi sem dúvida um dos curtas mais interessantes do festival. Utilizando uma narrativa inventiva onde busca a recriação de filmes perdidos pelo tempo através de desenhos feitos a mão. Demonstra a importância do cinema e da imagem para a história de um país. As linguagens são diversificadas, mas a mensagem é congruente: a necessidade da lembrança cravada nas imagens em movimento do cinema.