
Um adolescente imagina que tem 23 anos, tem todas as mulheres que quer e disputa a garota dos sonhos em partidas de videogame contra seus sete ex-namorados. Em uma frase, esta é a generalização do gibi Scott Pilgrim e, como toda generalização, traz imprecisões, claro. Mas esta é a minha conclusão, outros podem ler e nem enxergar assim. Ambiguidades à parte, um fato deve ser unânime: a história é leve e fácil de deglutir… isso é ruim?! Em geral é.
No começo eu estava quase tocando fogo nesse gibi, mas resolvi ter um pouco de paciência e ler até o fim. Sabe, tudo é meio fácil e bobinho mesmo, mas o que salva a história é a condução irônica dada pelo autor, o canadense Bryan Lee O’Maley. O capítulo 1, por exemplo, chama-se “A preciosa vidinha de Scott Pilgrim” e depois temos “Scott Pilgrim contra o mundo”. É perceptível o tom sarcástico destes títulos. Se o autor ironiza a condução da novela gráfica, por que nós vamos levar a sério? Entramos na brincadeira também e tentamos nos divertir.

Sempre que leio um gibi, fico a pensar no tempo que o autor gastou em cada página. Costumo ficar apreciando cada detalhe da arte. Neste gibi, desenhado à la mangá, percebi um cuidado especial do O’Maley no figurino de seus personagens. O SPFW perde feio para o requinte modernoso do guarda-roupa. Exagerado, eu? Olha, os jovens desse gibi se vestem muito, muito bem! E tem mais, não são como o Donald, sempre com o mesmo uniforme de marinheiro para todo o sempre. Os personagens trocam de roupa o tempo todo, desfilando sempre um modelito mais elegante que o outro. E tem mais, cortam e tingem seus cabelos, mudando de cara ao longo da história. Tudo isso dá um charme realista à traminha, é inegável.
Mas não pense que o realismo desses fatores somado às locações reais da cidade de Toronto é uma constante. A história é sempre invadida por elementos super fantásticos e mesmo inverossímeis frente ao realismo antes apresentado. É como zapear um controle remoto, saindo de um universo que tem lá sua complexidade e indo para outro, tipo só-porrada, sem pé nem cabeça, assim… total Mario Bros. Inicialmente isso causa um certo estranhamento ao leitor, mas com o tempo aprendemos a achar um jeito de aceitar os absurdos.
Uma observação devo fazer a respeito desse primeiro volume: o que tem o figurino de muito bem elaborado, tem os cenários feitos-de-qualquer-jeito-pra-
acabar-logo. Bah, nem é tão ruim assim, mas acaba se contrastando pelo cuidado que o desenho dos personagens parece ter.
O autor tem 32 anos e é canadense, apesar do estilo mangá de seu gibi. Scott Pilgrim acabou de chegar ao Brasil, através da Quadrinhos na Cia, mas lá fora a série já está acabando no volume 6, neste mês de julho. Aqui será editado em apenas 3 grossos volumes de quase 400 páginas cada.



No rastro de sucesso da HQ vem aí um longa metragem, que estreia no Brasil em outubro. Espero que até lá a Quadrinhos na Cia já tenha lançado os 3 volumes. Não aprecio ver um filme antes de ter acesso à obra original. Tem também um game chegando, veja aqui.
Uma curiosidade: o gibi original traz páginas coloridas a partir do volume 4, mas não precisa esperar, encontrei na net uma versão extra colorizada que vale a pena ser vista, aqui, e também a comparação de cenas entre o gibi e o filme, aqui.
