
Literatura e quadrinhos são linguagens narrativas distintas. Entretanto quando abordamos a graphic novel Cachalote percebemos que a fronteira entre os dois gêneros é quase inexistente. O gibi Cachalote, lançado em meados de 2010, tem arte do filho do Laerte, o talentoso Rafael Coutinho e texto do jovem e respeitado escritor gaúcho Daniel Galera. Neste romance gráfico – talvez este termo nunca tenha sido tão bem usado quanto nesse caso – o Rafa trabalha dentro de seu ofício principal, mas o mesmo não pode ser dito do estreante – na área dos comics – Daniel Galera. Este último poderia ter escrito Cachalote como um conto e depois o texto ter sido adaptado para os quadrinhos, mas aqui não foi o que ocorreu – e nisso reside a grande novidade e talvez o grande valor desta obra.



Cachalote não é uma obra de roteiro adaptado, foi gerado a quatro mãos. Não, o Galera não desenhou, mas a história foi construída conjuntamente pelos dois artistas. “As ideias do livro vieram de nós dois e o desenvolvimento foi um esforço integrado. É claro que eu escrevi o roteiro e ele desenhou, são nossas especialidades, mas trabalhamos o tempo todo em cima de um processo criativo conjunto.” – palavras de Galera.
A simbiose entre os artistas (escritor e desenhista) na criação da história foi muito importante e talvez o que fez de cachalote uma grande história em quadrinhos e não apenas mais uma hq baseada na literatura.


Existe um escritor discípulo de Alan Poe que é conhecido pela alcunha de mestre do indizível, do impronunciável. Suas narrativas de horror costumam trazer o mínimo de descrições figurativas, ele costuma provocar terror em seus leitores a partir de sugestões de idéias que deliberam imagens específicas a cada indivíduo, mas que representam para todos o sentimento de medo. Um mesmo texto pode provocar diferentes espetáculos em cada imaginação. Estamos falando do escritor americano H.P. Lovecraft. Este recurso de falar sobre algo sem mostrar é sem dúvida uma das riquezas da literatura como linguagem narrativa. As histórias em quadrinhos são feitas de imagens, portanto provocar o espetáculo pessoal do “indizível” cai por terra, não é? Não. Daniel Galera e Rafael Coutinho conseguem parafrasear H.P. Lovercraft e nos oferecem um espetáculo visual ao mesmo tempo aberto e autônomo à criação de imagens. Vamos aos exemplos: A mulher mais bonita apresentada na hq tem sempre seu rosto oculto. O belo para mim é o mesmo para você? Qual o padrão de beleza de cada pessoa? Apesar da massificação de ideais de beleza pela mídia em geral ainda podemos ter gostos pessoais, graças aos céus! Um outro caso é quando uma personagem comenta com outro a respeito da cor de uma roupa, numa cena em preto e branco. Eu imaginei azul e você?
Assim Cachalote nos guia através de sete contos que abordam pessoas comuns em universos muito diferentes: uma senhora grávida que se banha com uma baleia na piscina da mansão, um ator chinês decadente e encrenqueiro, um escultor arrogante, um fetichista que ama uma mulher de vidro, um playboy e sua vida de compras ilimitadas e existência vazia e por fim uma menininha e seus pais separados que se encontram em função dela. Suas histórias têm em comum trajetórias humanamente possíveis muito bem costuradas pelos autores deste belo romance gráfico.








































