
Na maioria das vezes, as histórias de terror possuem um caráter alegórico sobre alguma característica ou crítica de sua sociedade. O lobisomem é um exemplo da funcionalidade artística de construir uma analogia no mundo em que vivemos. Com a figura do transmorfo, as obras do homem-lobo conseguiam muito bem essa representatividade do oprimido social. Além de outros exemplos típicos de monstruosidades que referenciavam às guerras, à fome, às epidemias, e a tantas outras mazelas. Mais recentemente, durante os anos 80, o gênero Slasher, mais conhecido pelos expoentes Jason em “Sexta-Feira 13”, Michael Myers em “Halloween”, e Freddy Krueger em “A Hora do Pesadelo”, foram ferramentas para o freamento da revolução sexual nos EUA. Os filmes sempre retratavam grupos de jovens em momentos de diversão sendo vítimas pelo seu comportamento. Outro gênero que obteve muita importância para o mundo do terror foram os filmes de zumbi. Da forma como conhecemos hoje, ninguém teve mais valor que o americano George Romero. Completamente inspirado na tensão da guerra fria e na possibilidade de ataques nucleares, Romero recriou em seus filmes essa condição paranóica de fim do mundo. Através de “A Noite dos Mortos-Vivos”, de 1968, o cineasta também conseguiu fazer uma analogia à massificação da sociedade e da sua capacidade de ser controlada pela mídia e políticas públicas. Por isso dos zumbis andarem em bando, lentamente, sem nenhum tipo de autonomia, a não ser o instinto de comer carne. Seus trabalhos foram inspiração para muitos artistas, tanto no cinema, quanto na literatura e quadrinhos. E é nesta última que surgiu a grande obra da atualidade: The Walking Dead.

Escrito por Robert Kirkman, The Walking Dead – aqui no Brasil traduzida como Os Mortos-Vivos – conta a história de um policial que acaba de acordar de um coma (inspiração já declarada de outra obra fantástica do gênero: “Extermínio”, do inglês Danny Boyle), e encontra-se em um hospital repletos de criaturas deformadas e comedoras de carne. Desesperado e confuso, Rick vai atrás de sua família e durante essa procura tenta entender o que aconteceu com o mundo enquanto estava deitado em um leito.
O Apocalipse Zumbi em questão nunca é tratado como uma situação a ser solucionada, o foco de toda a história é a capacidade dos seres humanos de sobreviver e as relação interpessoais dos seus personagens. Mesmo sendo utilizado como personagem principal, Rick Grimes é apenas o escopo do que devemos ou podemos acompanhar. Todos em sua volta possuem uma importância para a narrativa e, obviamente, uma influência, às vezes negativa, para o personagem que estamos perseguindo durante esse caos. Rick, igualmente a Jack de “Lost”, possui um status que o leva obrigatoriamente a ser líder. Enquanto na ilha, a necessidade de um médico era latente, no mundo caótico dos mortos-vivos, uma policial nos remete imediatamente à liderança e o instinto de sobrevivência se tornam mais úteis e eficazes.

Mas o principal de toda a série e o responsável por todos os elogios e sucesso, é a sua capacidade de discutir a corrupção de uma sociedade e como isso afeta a humanidade de seus personagens. Robert Kirkman, através de um texto extremante coeso e corajoso, nos desafia subjetivamente a tomar as decisões juntamente com seus personagens nos incluindo dentro da atmosfera. Os personagens durante toda a saga vão se distanciando da sua própria humanidade, se tornando cada vez mais pessoas cínicas e deseperançosas, o que consequentemente as levam a praticar atos que não as diferem dos próprios zumbis.

O quadrinho, durante suas primeiras edições, foi desenhado pelo artista Tony Moore, que deu um melhor detalhamento aos traços, mas que substituído por Charles Adlard, escolheu um caminho mais rústico, deixando às vezes o visual tão caótico quanto o mundo retratado. Fugindo das cores (exceto por suas capas), e trabalhando apenas com preto, branco e tons de cinza – feitos por Cliff Rathburn – a estética funciona claramente como um analogia aos limites do certo e errado e como sua escolhas podem ser interpretadas.

Robert Kirkman criou um universo fantástico, mas que se aproxima muito da nossa realidade e consequentemente do nosso futuro. Mas uma coisa que se aprende rapidamente com Os Mortos-Vivos é ter desapego emocional a seus personagens, porque nunca se sabe quem morrerá em seguida.
