abro os olhos
sento
a sola dos pés no assoalho
levanto
os ossos das pernas, das juntas estalam
vou até a cozinha
abro a geladeira
a saliva árida cola-se no gargalo da garrafa
à espera do líquido.
ouço o ponteiro dos segundos do relógio.
a luz da geladeira me perpassa e
ilumina a parede às minhas costas,
onde está pendurado o calendário
no mês de fevereiro;
estamos em setembro
vejo um vulto mais escuro
do que a escuridão habitual da madrugada
me diz que o calendário está atrasado
digo que me falta tempo para acompanhar o tempo
me pergunta porque eu faço tudo em silêncio
por que eu sofro em silêncio
por que eu sou feliz em silêncio
digo que toda tentativa de contado com a realidade
que fiz foi um desastre
tenho uma vontade íntima de gritar
o vulto diz que me conhece
e sabe que eu tenho vontade de gritar
mas eu me sinto submerso em uma piscina
onde não há grito
não há eco
onde o desespero é mudo
e os vivos continuam demasiado vivos
gozando de sua condição
e eu à busca do eterno
no transitório
enquanto o vulto me julga com suas mãos
entrelaçadas e dedos inquietos
droga,
não sei por que comecei esse maldito poema














