

O coletivo Coquetel Molotov começou como um programa de rádio e em pouco tempo dominou a cena indie de Recife. Ana Garcia, Tathianna Nunes e Jarmeson de Lima criaram a linda Revista Coquetel Molotov e os festivais No Ar Coquetel Molotov, Invasão Sueca e Coquetel Molotov Independente. Desde 2004, o No Ar vem trazendo grandes nomes da música nacional e internacional para o Recife, atraindo um público cada vez maior. Já passaram pelo Teatro da UFPE nomes como Nouvelle Vague (França), Teenage Fanclub (Escócia), CocoRosie (EUA), Tortoise (EUA), Peter, Björn & John (Suécia), Móveis Coloniais de Acaju (DF), Marcelo Camelo (RJ), Cibelle (SP), Cidadão Instigado (CE) e Mallu Magalhães (SP). O festival também inclui sempre em sua programação bandas recifenses de destaque ou que estão começando na cena independente.
Com a aproximação do No Ar Coquetel Molotov 2009, que ocorre nos dias 18 e 19 de setembro, no Centro de Convenções de Pernambuco, conversei com Ana Garcia e Tathianna Nunes neste sábado, dia 01 de agosto, para saber em primeira mão o que podemos esperar este ano e entender um pouco mais sobre a dinâmica do festival.
Este é o sexto ano do festival. O que mudou em relação às primeiras edições?
Tathi: Eu acho que todo ano o festival muda. Mas o lugar é uma das principais mudanças desta edição, pois estamos saindo pela primeira vez do Teatro da Universidade Federal de Pernambuco e indo pro Centro de Convenções – Teatro Guararapes e Auditório Tabocas. Dá um frio na barriga, será um desafio.
Aninha: Os artistas mudaram (risos). Além das mudanças de estrutura, muda também a organização. Você vai crescendo e aprendendo a lidar melhor com os artistas, os patrocinadores, o festival em si e a cidade.
Tathi: A gente aprende mesmo a envolver mais a cidade. O ano passado foi uma prova muito grande disso. Foi o primeiro ano que tivemos voluntários trabalhando no festival e teve algo inacreditável que foram os militantes. Tinha gente militando pelo festival, divulgando por nós, e isso continua este ano.
Aninha: Este ano também foi o primeiro que tivemos aprovação no SIC (Sistema de Incentivo à Cultura). Eu acho que é uma prova de reconhecimento da cidade como um festival que realmente existe no calendário. Era uma frustração muito grande nossa acharmos que não éramos reconhecidos pelas autoridades.
O público do festival é limitado à uma cena indie em Recife? Existe mesmo essa cena?
Aninha: Existe sim uma cena indie, mas o indie agora é pop. Todo mundo é indie. Quem não é indie? Então o público é variado. No ano passado teve Marcelo Camelo e tinha uma galera que curte Los Hermanos misturada com pessoas que curtem as bandas suecas. E lotou o teatro. No dia seguinte tinha uma pirralhada de 16 anos. E aí? Que público é esse? Um público novo. Recife está se renovando com um público adolescente que curte os shows e que fica ansioso para saber o que vai ter no festival. Este ano teremos um público mais velho, vocês saberão o porquê em breve!
Tathi: Assim que acaba o último dia começa uma grande expectativa do que vai rolar no próximo ano. Já começa o papo de “E agora? Quem vem?”.
Aninha: Mas existe sim um público indie. Não são os que leem o Recife Rock!. É engraçado como em São Paulo as pessoas estão parabenizando a gente pelas bandas e o público que lê o Recife Rock! fica metendo o pau. Eu respeito completamente. São públicos diferentes, isso é legal.


Por que vocês trazem essas bandas para Recife? O No Ar Coquetel Molotov é um dos maiores eventos desse cenário no Brasil. Não seria mais fácil em São Paulo?
Tathi: Nós fazemos em São Paulo também. E a razão de fazermos em Recife é porque é nossa casa. Tudo começou aqui.
Aninha: E é o público mais aberto. Recife surpreende.
Tathi: E nós somos assim, trazemos bandas suecas porque refletem o que a gente curte em casa. A programação reflete muito a gente também.
Aninha: Não reflete tanto assim (risos). Eu escuto hip hop pra caralho e fico muito triste de não ter mais coisa de hip hop aqui. Às vezes são coincidências, sabe? A gente conseguiu um puta apoio do governo sueco e não vai usar? Claro que vai. A gente curte, mas tem que pensar no conceito de festival. Um festival tem que variar, tem que ter um pouco de tudo, ainda não divulgamos, mas terá isso. Realmente a gente foca muito nos suecos, mas não tem como não utilizar esse apoio.
Tathi: Mas minha alma é indie e eu escuto isso. Então, acho que o festival é sim o reflexo do que escutamos. Tem teu lado mais experimental, hip hop, e tem o indie que é bem eu e você também. É algo que a gente curte. Não estaríamos fazendo se a gente não gostasse. Vê as atrações que a gente trouxe no ano passado! Guizado foi inacreditável na Sala Cine.
Aninha: Esse ano também vai ter uma galera foda, variada.

O que torna um artista ou banda adequado para tocar no No Ar? Como vocês montam a programação?
Aninha: A gente procura novidades, mas tem uma coisa de estética e sentimento que você vê e sente na hora que escuta. Não consigo explicar porque uma banda toca e outra não. É uma questão de procurar bandas que estejam fazendo alguma coisinha nova, sabe? Não é só ser boa, tem que ter alguma coisa nova.
Tathi: Nós estivemos em São Paulo e vimos um show inacreditável, amamos essa pessoa. Não fazia sentido não colocar no festival. Fiquei apaixonada e Aninha já era até bem antes de eu conhecer, ela que me apresentou. Pô, tem que trazer pra cá. É lindo, não faz sentido não ter.
Aninha: Jr. Black vai estrear no festival. Ex-Exus tem um lance diferente que nenhuma outra banda tá fazendo aqui. O primeiro festival que eles deveriam tocar é o nosso, sabe? Jam da Silva não tocou ainda em Recife. Um cara super conceituado no Brasil inteiro, incrível. Procuramos essa questão da novidade e o formato que se encaixa melhor em cada local.
Tathi: Temos que tentar encaixar também de acordo com o nosso orçamento (risos). É tira daqui e coloca ali, um quebra-cabeças pra construir uma programação e muitas vezes até gostaríamos de ter trazido uma ou outra coisa que não pudemos. Mas a programação tá linda. Você olha e diz “porra, que foda”. Quando terminou o do ano passado, eu pensei que não poderia superar.
Aninha: Todo ano é assim. A gente viaja pra São Paulo pensando como a gente vai conseguir superar. Mas as pessoas tem que entender também que o teatro tem seus limites. O teatro não pode ter bandas como Mogwai, que toca muito alto. Eu tentei, não rola. A galera tem que entender que o festival tem um conceito e tem que seguir esse conceito por questões técnicas, às vezes. A gente não vai mudar de lugar por causa de uma banda.
Tathi: Não vamos deixar de fazer num teatro. Mas a Sala Cine vai ser bem maior agora, para mil pessoas. Vai ser no Tabocas.
Vocês anunciaram primeiro as atrações francesas e suecas, muitas delas desconhecidas da maioria do público. Vocês acham que não é mais necessário anunciar uma grande atração, que o próprio festival em si já atrai o público?
Aninha: Nós temos sim nossos seguidores.
Tathi: Em tudo que fazemos, sabemos que temos um público que está ligado e até se comunica com a gente de diversas formas.
Aninha: Não dá pra pensar em público de Recife. Em São Paulo o pessoal está enlouquecido porque Sebastien Tellier vai tocar. Não estou me preocupando se a galera de Recife conhece ou não. Que passe a conhecer agora se não conhece. Eu acho que o festival é o que é porque a gente nunca pensou em adequá-lo a Recife. É um festival que pode ser realizado em qualquer parte do mundo. Então temos que pensar nisso. Se multiplicarmos nosso festival por cinco, dá pra ser um Tim Festival (risos). Eu realmente sempre me espelhei no Tim Festival. E as bandas que estão tocando aqui, poderiam tocar ali na boa.
Tathi: E seriam destaques da noite.
Aninha: Realmente a galera aqui conhece pouco, mas todo ano a gente faz isso. Anunciamos os suecos primeiro para depois anunciar as grandes atrações.
Tathi: Até mesmo para dar tempo das pessoas irem atrás, escutar tudo e cantar no show.


O que vocês podem dizer sobre as atrações não anunciadas? Alguma grande surpresa?
Aninha: Vai ter duas grandes surpresas ainda. Um artista antigo que vai fazer uma participação super especial só pro festival e que ninguém tá esperando. A galera acha que é Novos Baianos, outro achou que é Caetano Veloso, não é. E a outra banda, a gente está esperando uma resposta para ver se fecha logo e coloca os ingressos pra vender.
Qual a grande promessa desse ano? Quem vai enlouquecer o público?
Aninha: Acho que a grande surpresa provavelmente vai ser Loney, Dear. As pessoas vão assistir e falar “que banda foda”, sabe? Acho que Zombie Zombie vai ser muito legal. São só sintetizadores e é um show pesado. E vai ter um rapper, que vai fazer a galera dançar.
Existe alguém que vocês queriam trazer esse ano e não conseguiram?
Aninha: A gente tentou trazer o Grizzly Bear, que de última hora decidiu não vir. A gente tentou trazer o Mogwai, que ficou muito difícil de se adaptar ao teatro. Ainda estamos tentando trazer essa banda…
Tathi: E é uma banda que a gente tá tentando trazer há muito tempo. Desde que a gente soube que eles vinham pro Brasil, sem nem saber onde eles iriam tocar. Estamos atrás.
Aninha: Mas tivemos contato com várias. A Lykke Li era a artista sueca principal que a gente ia trazer e não rolou.
Além dos shows, o que vai rolar no festival?
Tathi: Tem a nossa mostra Play the Movie, nossas oficinas e debates. Nesse ano estamos até investindo mais nisso. Vai ser de 14 a 17 no Teatro Apolo. Vamos ter oficinas com franceses participando também. Vai ser bem bacana. Sempre tivemos oficinas no festival, mas agora estamos tirando do teatro.
Aninha: Começava muito cedo e o povo ficava cansado. Esse ano vai começar às 17h com shows.
Tathi: O bacana também é que a semana vai servir como aquecimento. Estamos fechando shows para todas as oficinas, debates e mostras de filmes. Vai ser um extra legal.
Vocês vêm viajando por algumas cidades do Brasil e da América Latina com a Invasão Sueca. Existe intenção de também levar o No Ar Coquetel Molotov para outras cidades?
Tathi: Sim. Desde o ano passado a gente tem pensado em fazer o festival em outras cidades. Chegamos a inscrever no Sistema de Incentivo à Cultura de Fortaleza. A gente está com uns contatos amarrados. Talvez a partir do ano que vem a gente consiga fazer um No Ar Coquetel Molotov itinerante.
Aninha: Ano passado foi o primeiro em que conseguimos levar a Invasão Sueca para outros países da América do Sul e vai rolar de novo agora no Chile e na Argentina. Mas o nome Invasão Sueca é tão forte em São Paulo que não faz sentido a gente fazer o No Ar lá e os artistas suecos estarem ali. Até porque o governo sueco tem interesse em realmente fazer a Invasão Sueca lá. E alguns artistas são tão caros, como Sebastien Tellier, que a gente não teria como arriscar fazer um show dele dentro do Coquetel em São Paulo. A gente teria que vender o show dele e ser muito bem vendido para valer a pena.
Tathi: Mas existe a possibilidade de expandir o No Ar para o próprio Nordeste. Porque em São Paulo a gente já tem uma força muito foda. A Invasão Sueca ganhou dois anos consecutivos o título de Melhor Festival pela Folha de São Paulo, na enquete do Guia da Folha. Então temos um nome forte lá. E em Curitiba todos estão pedindo a Invasão Sueca. Mas a ideia é expandir o Coquetel Molotov, também, pelo Nordeste.

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