
25 de abril de 1991. Giambattista Bodoni, apelidado de Yambo, acorda do breve coma provocado por um acidente e descobre ter perdido a memória afetiva ou biográfica. Este é o ponto de partida do romance ilustrado de Umberto Eco, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, publicado em 2004 e lançado no Brasil um ano depois pela Editora Record.
Yambo é um culto senhor de meia-idade que trabalha com livros raros, é casado, tem filhos, um bom amigo e não tem a mínima ideia de quem eles são. Ele sabe tudo sobre o mundo e é capaz de recitar de cor obras como A Divina Comédia, de Dante, mas não pode descrever o que sentiu ao lê-la pela primeira vez. Quando sua memória aproxima-se do campo emocional, envolvendo suas experiências pessoais, há apenas névoa. E uma fascinação aparentemente inexplicável pela névoa.
Para tentar se redescobrir e, talvez assim, relembrar o passado, ele vai passar uma temporada na casa de campo de seu avô em Solara, onde estão armazenadas todas as quinquilharias de sua infância. Analisando os livros, revistas e discos que o acompanharam enquanto crescia, ele espera moldar sua personalidade, entender o que pensava e o porquê. Sob este pretexto fazemos com Yambo uma viagem pela Itália dos anos 40 através da cultura popular. Não é importante o valor literário das obras revisitadas e sim o alcance que tiveram na formação da juventude que florescia sob o fascismo. Quadrinhos, jornais, canções e poemas românticos, livros de aventura e muito patriotismo exacerbado trazem à luz as mentes das crianças da época. Yambo é apenas um, mas é também todos os meninos que cresceram com Mickey, Mandrake, Flash Gordon, os Balilla e sua devoção ao Duce.
Em três partes, o romance fica dividido entre o lado enciclopédico, que domina a segunda e maior parte do livro, e a vida do protagonista. Se à princípio o enredo parece apenas uma desculpa para a nostalgia de rememorar uma cultura popular quase esquecida, a terceira parte do livro faz parecer que toda a informação cultural existiu apenas para entendermos a mente de um menino que vive sua vida em função de um amor platônico, que, como bem coloca o próprio Eco, sem o qual não existiria literatura.
O maior problema da obra talvez esteja justamente nesta indefinição de propósito. Se a história de Yambo, seu amor e sua guerra é o centro do romance — como ao final parece ser —, o exagero de referências e a maneira com que são longamente descritas torna o livro por vezes demasiado enfadonho. Em diversas passagens Eco descreve com detalhes os acontecimentos de livros e letras de músicas que pouco ou nada acrescentam à história. O mesmo ocorre com algumas das ilustrações utilizadas durante o livro. Elas estão lá simplesmente porque o autor quis exibi-las e não por serem significativas na personalidade do heroi. É bem verdade que nem sempre a descrição é despropositada, pois ao revelar livros como Cyrano de Bergerac (1897), de Edmond Rostand, e O Homem que Ri (1869), de Victor Hugo, Eco nos ajuda a entender o coração de Yambo, profundamente tocado pelas obras.
Além do amor, no panorama de uma Itália católica sob um governo fascista em plena guerra mundial, é natural que o livro passeie também pelos temas político e religioso. Para isso introduz personagens secundários como o anarquista Gragnola, responsável por alguns dos melhores diálogos do romance, em que filosofa sobre a maldade de Deus, do homem e da própria natureza. A igreja é bastante explorada, dando bastante importância à instituição e aos padres na formação da juventude, na noção de culpa, de pecado e da proibição que leva ao desejo. Esses questionamentos e divagações ganham espaço na terceira e melhor parte do livro, onde há menos referências culturais.
Por outro lado, é possível ainda que o livro seja apenas um pano de fundo para que o professor Umberto Eco transmita ao mundo mais um pouco de seu conhecimento, como já vem fazendo há tempos através de seus romances, verdadeiras fontes de pesquisa camufladas em ficção. Analisando por este lado, A Misteriosa Chama da Rainha Loana é uma enciclopédia do impacto da cultura popular mundial na Itália dos anos 40 misturada com um delicioso romance, como o doce misturado ao remédio para enganar a criança. A ignorância também tem cura.

*Texto apresentado na disciplina Crítica e Cultura Contemporânea, com a Profa. Dra. Ângela Prysthon, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.