
Nunca fui fã do Patu Fu e, na verdade, nunca tive curiosidade suficiente para procurar conhecer bem o trabalho solo da vocalista da banda, Fernanda Takai. Acho mesmo que o único contato real que tive com o grupo foi um show que eles fizeram no Rec Beat durante um carnaval aqui no Recife – Adorei a apresentação! Fiquei realmente impressionada com o grupo e, em especial, com Takai, mas ainda assim não procurei muita coisa sobre eles, não sei explicar porquê.
No entanto a vida literária da vocalista muito me interessa. Fernanda Takai foi colunista dos jornais
Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Em 2007 lançou seu primeiro livro, Nunca subestime uma mulherzinha, compilação de contos e crônicas escritos para os já citados periódicos. A edição é de uma beleza e delicadeza que não consegui resistir. Hoje, Nunca subestime uma mulherzinha ganhou lugar especial na minha coleção e, volta e meia, retorno aos seus textos.
Agora, a autora lança seu segundo livro, A mulher que não queria acreditar, outra compilação de textos publicados no Estado de Minas. A verdade é que essa segunda leva não chega a ser tão encantadora como a primeira, mas Takai consegue construir sua identidade enquanto escritora. Seus textos são claros e diretos. Com leveza, lida com temas cotidianos que conseguem dialogar com o leitor.
Os textos passam por relatos pessoais, narrativas inventadas e misturas de situações diversas sobre as quais não se pode ter certeza de onde começa a inspiração e onde termina a veracidade do relato. No prefácio da obra, João Paulo, jornalista do Estado de Minas ressalta que “O mistério da literatura está exatamente nesse equilíbrio entre saber dosar o que é pessoal e o que é humano” e isso é bem realizado no decorrer dos 40 textos dispostos nas 118 páginas deste livro. Ele diz ainda que “Fernanda Takai não é apenas uma pessoa que tem o que dizer. Ela sabe como fazer isso. E de várias maneiras.” Essa afirmação também se mostra verdadeira após o contato com o trabalho da artista.
A sensação que a leitura desperta é a de uma conversa íntima, uma troca de experiências entre amigos. De maneira delicada e despretensiosa a autora constrói textos simples. Por meio de palavras objetivas – não há excessos nem rebuscamento – fala-se sobre saudade, coragem, amor e maternidade, por exemplo.

De lá:
“CORAÇÃO DE PAPEL
Sabe aqueles garotos que estão na fase mais desajeitada do mundo, com ossos sobrando por toda parte? Ele era assim. Com a voz nem grossa, nem fina. Cabelos que parecem precisar sempre de um corte – nem lisos, nem anelados. Cotovelão, joelhão. A natureza parece que está fazendo troça dele. Pois foi justamente nessa época que ele se apaixonou pela menina mais bonita da sala.
Ela era uma princesinha. Não tirava notas altas, mas passava sempre de ano, era esforçada e muito simpática. Todo mundo queria ser do seu grupo de estudos. Tinha especial dom para trabalhos manuais, a professora de artes não cansava de elogiá-la. Na época de festa junina, era campeã de bilhetinho de correio elegante.
Numa festa do colégio, o menino mais desajeitado do mundo mandou um coração de papel com uma mensagem para a garota mais popular da sala. O anonimato o encorajava, tanto que ele mesmo entregou o bilhetinho. No dia a dia ele era quase invisível mesmo…
− Pediram pra entregar pra você.
− Quem foi?
− Não posso dizer, prometi que não contava.
− Que lindo!
− Tchau.
− Espera!
− O que foi?
− Você me diz quem mandou esse bilhetinho?
− Tenho que perguntar antes. Daqui a pouco eu volto.
Naquele dia ele não voltou. Algum tempo depois, durante o recreio, ele a procurou de novo, dessa vez com uma carta. Como escrevia bem, caprichou na declaração de amor.
− Tem outra mensagem pra você!
− Você sumiu aquele dia…
− Tive que ir embora.
− Quem é que manda essas coisas lindas?
− Não posso contar.
− Você quer lanchar comigo?
− Agora?
− É, senta aí. Conta mais sobre esse seu amigo secreto que gosta de mim…
− Ah, não sei se devo. Ele ia ficar bravo se eu contasse…
Um período letivo se passou e mais cartinhas misteriosas eram entregues. O menino mais desajeitado da escola passou a ser o melhor amigo da menina mais bonita e simpática. Ele não se continha de felicidade. Os outros não entendiam aquelas conversas constantes no recreio. Ela dando cada vez mais atenção a ele.
Um dia ela lhe entregou uma cartinha-resposta, como de costume.
− Pode abrir e ler.
− De jeito nenhum! Meu amigo ia ficar chateado…
− Leia, por favor!
Ele começou em voz alta: “Querido admirador secreto, acho que não podemos mais continuar à distância. Sei que você teme se mostrar. Mas timidez tem limite. Durante esses meses de mistério, eu me apaixonei por você e por suas palavras, mas também por outra pessoa. Talvez ele nem goste tanto de mim como você diz gostar, mas prefiro arriscar a ficar nessa incerteza. Por favor, pergunte ao seu amigo que me entrega as cartas se ele quer ir ao cinema comigo…”.
O garoto corou. Dobrou a carta lentamente e, ainda sem conseguir olhar para ela, perguntou:
− Você sabia?
− Desde o primeiro dia.
− Que bobo eu fui, né?
− É, mas eu adoro bobões desajeitados que escrevem bem”
(20/6/2008 – Páginas 37 a 39)
A mulher que não queria acreditar
Autora: Fernanda Takai
Editora: Panda Books