Elia Kazan era um gênio! A sua sensibilidade atrás das câmeras era notável, e tinha um quê de controvérsia para a época. “Um Bonde Chamado Desejo”, “Sindicato dos Ladrões” e “Viva Zapata!” são alguns dos exemplos da sua maestria que capacitava em formar elementos e reinventá-los à busca da melhor combinação. Combinação clara em Stanley Kowalski, Terry Malloy e Emiliano Zapata. Nascia uma grande dupla: Elia Kazan e Marlon Brando. Marlon. Elia seria então a pessoa que deu oportunidade para aquele que, na minha opinião, seria o maior de todos. Marlon o considerou seu grande mestre. E pelo visto, Elia Kazan possuía um faro aguçado no que se referia a achar talentos.
Em 1952, Fairmount, Indiana, um rapaz participara de uma adaptação escolar de Hamlet, e imediatamente todos perceberam o talento do garoto. As palavras de Shakespeare o levaram Nova Iorque. Passando a dividir o tempo entre empregos secundários e tentativas em peças de teatro, o garoto tentava impulsionar sua carreira, até então frustrada, à espera de um olhar corajoso. Na época, Elia Kazan embarcou no projeto da adaptação do romance “East of Eden” de John Steinbeck, e precisava achar um ator de personalidade forte e impactante para viver o personagem principal Cal Trask. Possuindo duas opções o diretor fez uma escolha arriscada, e escolheu aquele que durante os testes e ensaios se sentira mais desconfortável na seleção. Um rapaz bonito, tímido, mas com lampejos de extroversão. O que ninguém esperava era que essa escolha mudaria de vez o cenário do cinema mundial. O ator até então desconhecido era James Dean.
James Dean transmitia uma sensação de novidade e ao mesmo tempo de incógnita. A sua figura era forte e ao mesmo tempo indefesa, era bem humorada e alegre, e segundos após, extremamente sério e concentrado. Certa vez, Edward Norton, em entrevista ao Actor’s Studio, declarou que existem atores que desenvolvem os personagens através do silêncio, percebe-se o seu cérebro funcionando e não apenas esperando a sua vez de falar. Esse pressuposto era uma das chaves para entender a genialidade de James Dean.
E o filme “Vidas Amargas” (East of Eden) encaixou perfeitamente em sua personalidade exatamente por abranger todos os elementos que o formavam, e o mais importante, possuía um diretor que pudesse embarcar em todas essas nuances de entendimento para a realização do filme. E Elia Kazan conseguiu. A composição das cenas objetiva acentuar a complexidade de seus personagens, além de esconder suas angústias para que então possamos decifrá-las.
Cal Trask é apenas mais um dos inúmeros que tentam descobrir sua verdadeira motivação para viver, a busca dos sentimentos que os assombram e assim determinar suas próprias escolhas. A verdadeira essência de nós mesmos. Jimmy, como era chamado pelos amigos, é exatamente isso. Um rapaz sufocado por expectativas e projeções dos outros ou dele mesmo. E essa única imagem de rebelde inconsequente atribuído a ele pela mídia não faz jus a tudo aquilo que ele representou para a arte. Algo que defendia acima de tudo, a arte. Dos poemas de Walt Whitman, das declamações de William Shakespeare, dos filmes de Jean Renoir.
Infelizmente, em 30 de setembro de 1955, seu Porsche chocou-se em uma árvore, encerrando uma carreira que durou apenas 18 meses, deixando-nos apenas três filmes: “Vidas Amargas” de Elia Kazan, o único que ele viu ser lançado; “Juventude Transviada”, o filme que o tornou famoso, e “Assim Caminha a Humanidade” de George Stevens, onde contracenou com Liz Taylor e Rock Hudson.
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“Senti ciúme minha vida toda.
Ciúmes que eu mal suportava.
Essa noite tentei comprar seu amor.
Não quero mais nenhum tipo de amor.
Não compensa. Não há futuro nisso.
Mas agora, eu não quero mais.
Não posso mais usá-lo”
(Cal, para o pai, que o sufocou a vida inteira com tantas expectativas)


















