Livros são adaptados para o cinema a todo momento. Essa adaptação é feita, em geral, tentando tornar o roteiro fiel à história original, mas com inúmeros cortes para encaixar todo o enredo em cerca de uma hora e meia de montagem final. Algumas liberdades são tomadas, em maior ou menor escala, e o filme nunca é exatamente como o livro. E nem poderia ser. Afinal, o livro é estático e o cinema é movimento. O importante não é como se conta a história, é como se mostra.
Ainda assim, a livre recriação de obras adaptadas da literatura costuma ser tímida e, às vezes, bastante criticada. Para transformar um livro ilustrado de apenas 40 páginas — excluindo-se capa, contra-capa, folha de rosto e outras do tipo, apenas 26 contam a história — em um longa-metragem de 101 minutos de duração é necessário tomar o caminho inverso e o diretor e roteirista Spike Jonze, de “Quero Ser John Malkovich” (1999) e “Adaptação” (2002), o fez com maestria.

O livro em questão é “Onde Vivem os Monstros”, de Maurice Sendak, lançado em 1963 nos Estados Unidos e considerado até hoje um dos maiores clássicos da literatura infantil norte-americana. Conta a história de Max, um menino fantasiado de lobo que é mandado para o quarto sem jantar, após fazer algumas travessuras em casa. Do castigo surge uma floresta e Max se aventura pelo mundo dos monstros com selvageria, até que se cansa e deixa de lado a imaginação para encontrar em seu quarto o jantar ainda quente. O filme, lançado em 2009, vai além.
Antes mesmo dos créditos de abertura, percebemos os sinais do descontrole infantil que será tema central ao observar os rabiscos grosseiros sobre as marcas dos realizadores. É o mesmo traço agressivo que se verifica na tipografia do título e o reforço vem com o grito que dá início ao filme e com a sequência de abertura, bem fiel ao livro e que esgota em poucos segundos o mau comportamento de uma criança solitária. Max, interpretado por Max Records (Vigaristas), age por insegurança, buscando a atenção da irmã adolescente e da mãe sempre ocupada. As travessuras e os gritos nada mais são que um desejo extremo de ser percebido e amado. Em contradição, numa das poucas cenas em que aparece calmamente ao lado da mãe, Max mostra um notável desconforto ao buscar carinho, limitando o contato físico a um delicado toque em sua meia. Este relacionamento é a chave para compreender o filme e, embora brevemente citada no livro, a mãe ganha bastante força com a atuação sempre competente de Catherine Keener, que já trabalhara com Jonze em “Quero Ser John Malkovich”.

A partir daí, é nítido o trabalho de composição dos personagens. Eles ganham profundidade e complexidade que não possuíam originalmente. Os monstros agora têm nome e são nomes comuns que os humanizam. Carol, Alexander, Judith, Douglas, Ira, Bernard e KW têm os mesmos medos e inseguranças dos homens e carregam os questionamentos de criança de Max.
Ao primeiro contato com eles, vemos claramente que Carol, o favorito, é também a mais fiel projeção do menino. O sentimento de não-pertencimento e incompreensão, o amor possessivo, a raiva e até pequenas ações específicas como a destruição das casas nos fazem compreender que Carol e Max são um só. Sua solidão é o que os leva ao descontrole e à imaginação, como fica claro com os brinquedos de papel feitos em casa e a maquete de galhos construída na caverna.

Ao longo de todo o filme, há sinais sutis de que nada que vemos é real. Se isso era mais fácil de perceber no livro, no qual Sendak explica abertamente que a floresta surge no quarto de Max, Jonze opta por retirá-lo de casa e o leva a percorrer um caminho até a terra dos monstros. Mas são detalhes como o barco de Max e a casa dos monstros, que são exatamente iguais aos brinquedos que o menino constroi, o gato real que aparece no braço de Ira e a areia que cai do corpo de Douglas na assustadora cena em que perde o braço, que evidenciam a imaginação de Max sujeita a influências do que está à sua volta. O gato aparece simplesmente porque há um gato na rua e Max o mistura à sua fantasia. Se fosse imaginário, teria a mesma aparência fantástica que o cachorro gigante a as corujas Bob e Terry, símbolos de uma sabedoria que a criança não consegue compreender. As corujas encantam a todos, mas suas palavras são apenas ruídos, assim como os ensinamentos dos adultos, que não fazem sentido para Max. Não fica claro no filme se existe mesmo sentido algum nos ruídos ou se todos apenas fingem compreender para parecer inteligentes.

Talvez a profundidade destes questionamentos tornem o filme um tanto arriscado junto ao público infantil. Há, inclusive, momentos em que os monstros tornam-se realmente assustadores e discutem abertamente a possibilidade de matar e comer Max. Enquanto o livro de Sendak é explicitamente direcionado a crianças, o filme parece apenas utilizar o universo infantil, com seus medos e questionamentos, para atingir um público maduro através de diálogos sensíveis e extremamente sinceros. As situações podem parecer infantis, mas são metáforas que discutem amor, família e até mesmo justiça. É tornando-se rei que Max aprende a importância da imparcialidade de um líder e a necessidade de conviver com suas limitações e falhas.
A trilha sonora original de Karen O, vocalista da banda de indie rock Yeah Yeah Yeahs, encaixa-se perfeitamente nessa dualidade. Há um lado infantil forte, mas é também bastante selvagem e adulta. Unindo-se a crianças em uma nova banda, ela abusa dos coros infantis, mas não se afasta do estilo pouco acessível que a consagrou. Seu som é ora frenético e descontrolado, ora tranquilo, inocente e suave, exatamente como o filme.
A oscilação entre o medo e a segurança controlam até mesmo o dia e a noite. A fotografia muda completamente quando a imaginação entra em cena e o mundo, antes pálido, com céu cinzento, agora tem cores fortes e um sol gigante, quente, quase sempre tão forte que os personagens tornam-se silhuetas negras coadjuvantes à sua presença, num efeito similar à cena da cabana dentro do quarto. Max teme que o sol morra e associa o dia aos seus momentos felizes. Quando os monstros estão satisfeitos com seu comando, a diversão reina acima de tudo e é sempre dia. Até mesmo quando dormem e se desejam uma boa noite, é dia. A noite só acontece diante do medo, da desconfiança e do descontrole.

O cenário torna-se também personagem e os planos quase sempre abertos nos fazem viajar por praias, florestas e até um deserto que não parece ter qualquer conexão lógica com o ambiente. Essa escolha faz com que tenhamos quase sempre uma visão completa dos monstros e de Max inseridos no mundo selvagem, de maneira fiel às ilustrações do livro, que nunca apresenta os personagens em close. Jonze opta pela câmera fechada em poucas cenas, para transmitir a intimidade dos raros momentos em que Max conversa tranquilamente com a mãe, Carol ou KW. Nesses momentos é comum o rosto dos monstros aparecer cortado, dando dimensão ao seu porte sobre-humano.

A construção dos monstros é, aliás, um dos pontos altos do filme. Utilizando atores fantasiados e um pouco de animação em CGI apenas para as expressões faciais, Jonze consegue tornar sua presença em cena extremamente real e, ainda assim, fiel às ilustrações originais. A escolha dos atores para a dublagem também foi outro acerto. James Gandolfini (Família Soprano), Catherine O’Hara (Esqueceram de Mim), Paul Dano (Pequena Miss Sunshine), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) e Chris Cooper (Adaptação) emprestaram suas vozes com grande naturalidade através de uma técnica pouco convencional. As dublagens não foram realizadas com a leitura de um roteiro sobre cenas previamente gravadas. Os atores interpretaram seus personagens em ação dentro do estúdio, correndo, saltando e caindo, tendo suas vozes registradas em todos os momentos. O resultado final é realmente surpreendente e nos faz muitas vezes esquecer que os personagens não são reais. Seus sentimentos parecem muitas vezes mais complexos que os do próprio Max e o envolvimento entre os personagens atinge fortemente o espectador. Numa das mais belas sequências do filme, Jonze opta pela câmera na mão para incorporar o desespero de Carol enquanto corre pelas areias do deserto com medo de nunca mais ver seu amigo, imperfeito como todos os seres humanos e suas criações. É o adeus à confusão e a volta segura para casa, marcada com um último uivo selvagem.

Do início ao fim, “Onde Vivem os Monstros” é uma jornada de autoconhecimento. Nossos monstros vivem em nossas cabeças e apenas após compreendê-los e enfrentá-los, estaremos livres para seguir em frente e deixá-los para trás.

*Texto apresentado na disciplina Teoria e Crítica Cinematográfica, com o Prof. Dr. Paulo Cunha, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.