Dia 5 – 30/04/10

Se Meu Pai Fosse de Pedra (Digital, Documentário, Direção: Maria Camargo, 19’, RJ): “As coisas que amamos. As pessoas que amamos. São eternas até certo ponto”. São com esses versos de Carlos Drummond de Andrade que o filme se inicia. Numa homenagem a seu pai falecido, o artista plástico Sérgio Camargo, a diretora cria um documentário dos mais belos vistos recentemente, sabendo podar exatamente a intensidade da sua pessoalidade com o projeto, não exagerando nos elogios e se concentrando no ser humano: pai/artista. Utilizando maravilhosamente bem uma multidisciplinaridade narrativa, fazendo com que a história seja contada por vários caminhos diferentes: pelas imagens de arquivo, pelos pensamentos de Sergio, pelos netos que não conheceram o avô, pela sua obra, pela sua filha (que tenta também se descobrir durante o projeto) e claro, pela pedra que está morrendo e precisa ser restaurada. Sem dúvida, o melhor filme digital de todo o festival. 5/5

O Plano do Cachorro (Digital, Ficção, Direção: Arthur Lins e Ely Marques, 10’, PB): Quando o filme chegou ao final, me deparei olhando para o meu bloco de anotações e não encontrei nada. Apenas o nome do filme e dos diretores. Não consegui escrever nada de interessante sobre o filme. Nem algo ruim. Vai ver o filme queria exatamente isso, ser uma incógnita, mas infelizmente, comigo, esse papo furado de cineasta experimental não funciona. 1/5

Zé(s) (35 mm, Documentário, Direção: Piu Gomes , 15′, RJ): Zé Celso é com certeza uma das pessoas mais importantes do teatro nacional. Polêmico, vanguardista e uma figura extremamente carismática. Zé Perdiz é um mecânico, bastante politizado durante a ditadura e que à noite transforma sua oficina no Teatro Oficina de Perdiz. A relação dos dois é vista antes mesmo dos dois se encontrarem, deixavam transparecer nos seus depoimentos essa correlação de personalidades. O filme não é tão coeso (acho que porque tentou se baseiar na própria estrutura de teatro do Zé Celso) e isso atrapalhou um pouco. Mas com certeza gostaria de ver um longa dessa união e que demonstrasse com mais intensidade essa comunhão dos dois Zés. 4/5

Amigos Bizarros do Ricardinho (35 mm, Ficção, Direção: Augusto Canani, 21’, RS): O cinema do Rio Grande do Sul é sempre algo para ficarmos de olho. É diferente e foge do lugar comum. Lembrando de imediato o cinema argentino, (créditos para Espiga) na composição dos seus personagens e na sua ironia e o cinema de Wes Anderson (créditos a Bernardo) no seu sarcasmo e personagens estranhos, o filme nos apresenta uma história original com um humor interessantíssimo, muitas vezes exagerado, mas que não compromete e sim elabora a história. O Ricardinho em questão é tão único em como se comporta e reage àquelas histórias que seria quase impossível não ser o próprio que interpretasse o personagem principal. E para minha alegria, o filme era baseado nas histórias de Ricardo Lilja e interpretado pelo mesmo. 4/5

Quando a Chuva Chegar (35 mm, Ficção, Direção: Jorane Castro , 15′, PA): Outro exemplo de ao término do filme checar meu bloco de notas e a única coisa que encontrei foi a palavra Bizarro. Minto! Bizarro². E não de uma forma elogiosa. Contando uma história de um apartamento aparentemente “mágico” que fazem as pessoas sentirem uma vontade tremenda de fazerem sexo, o filme se arrasta até darmos graças a Deus de ter chegado ao seu fim. 1/5

Não Se Pode Viver Sem Amor (35mm, Ficção, Direção: Jorge Durán, 103’, RJ): Nós espectadores temos um certo preconceito a filmes brasileiros estranhos. Isso é fato. Ponderamos obras estrangeiras que tentam criar histórias complexas e em algumas vezes, buscamos intensamente respostas para elas. Cidade dos Sonhos, Donnie Darko, A Passagem, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Quero ser John Malkovich, Adaptação (longe de mim querer compará-lo aos filmes em questão), são exemplos de filmes com estruturas únicas e de uma complexidade extrema. No caso dos filmes brasileiros não temos essa paciência (nem para analisarmos se o filme é bom ou não) e o taxamos imediatamente de “viajado”, “doido”, “típico filme brasileiro de festival”… E sendo sincero, eu gostei da estranheza do filme “Não se Pode viver Sem Amor”. Utilizando uma estrutura ao estilo Alejandro González Iñárritu (Amores Perros, Babel), com histórias paralelas, mas que se conectam de uma forma ou de outra, o filme possui alguns defeitos no texto, influenciando nos seus diálogos e consequentemente nas suas atuações, mas, no final das contas, conseguiu segurar a plateia até o final, penso eu, interessada por aquele estranhamento. 4/5
