O V Janela Internacional de Cinema do Recife reservou espaço na grade para exibição de filmes que durante o ano de 2012 foram produzidos e veiculados no YouTube. Todos, independentes entre si, debatem o problema do crescimento desordenado da cidade.
Em “Velho Recife Novo” (Luiz Henrique Leal, Caio Zatti, Cristiano Borba e Lívia Nóbrega), possivelmente o filme com melhor consistência de argumentos, escuta especialistas em arquitetura e urbanismo e deixa claro desde o inicio a desfiguração que ocorreu na cidade e, o pior, a que ainda está por vir. Focado e bem estruturado, alternando entre argumentos técnicos e sociológicos, o filme se mantém em seu discurso principal, que é o debate sobre a “privatização” dos espaços públicos, e demonstra com grande eficácia as consequências desse enclausuramento das pessoas em compartimentos, como prédios, condomínios fechados e seus carros. Na cidade não há mais integração entre as pessoas, nem delas com a cidade. O filme ainda vai além e demonstra como os interesses de terceiros (corporações) buscam esse cerceamento do espaço público transfigurado de progresso.
“A Praça é pra Quem?” (Amanda Beça, Bruna Monteiro) é um exemplo de ativismo social, que, com cerca de 2 minutos, deixa clara a apropriação do público pelo privado, como foi citado acima. Utilizando de uma personagem, Juliana Duarte, estudante de jornalismo, cadeirante, moradora do bairro e cidadã, o filme é extremamente eficaz na sua essência, ser um meio de transformação social. O curta registrou o absurdo da apropriação de uma praça pública por dois estabelecimentos no intuito de torná-la estacionamento para seus clientes. A inteligência da direção do curta-denúncia foi colocar a personagem na tentativa de usufruir o bem público, o que se demonstrou um fracasso imediato. Alcançando as redes sociais, o vídeo fez barulho e, dias após sua viralização, a praça foi devolvida aos cidadãos.
“Descontrução Civil” (Felipe Peres Calheiros) é o registro da Assembleia Pública realizado no ano de 2012 sobre o “Projeto Novo Recife”, que visa a construção de complexos empresariais, novos pólos residenciais e um redesenho nas avenidas, pontes e viadutos. Diferentemente dos demais, o vídeo se torna apenas um registro do acontecido. Mas faz uma rima interessante: enquanto os argumentos das empresas e corporações são dados através de uma apresentação de vídeo – extremamente frio e falso –, o outro lado coloca seus pontos de vista através do discurso verbal, que se torna mais humano e verdadeiro.
Depois desses três vídeos que debatem a situação urbanística da cidade, a sessão Câmera Cidadã No Recife deu espaço a quatro vídeos com outra proposta. Enquanto, uns discutem, outros agem. É baseado na força da ação, da prática das ideias, em que o grupo sem nome, anônimo por natureza, busca a mudança através da ação e não apenas no campo das ideias. O primeiro, “O Diabo aplica multa cidadã em frente à Igreja” (anônimo), é o único a utilizar a estrutura cênica para suas ações, quando um Diabo aparece distribuindo adesivos em carros estacionados ilegalmente na frente de uma igreja localizada na Avenida Rosa e Silva, no bairro dos Aflitos, no Recife. Acompanhado pela trilha de Zeca Baleiro “Heavy Metal do Senhor”, o vídeo utiliza de humor para suas ações, principalmente quando abdica um pouco do seu lado marginal e entra em contato com a CTTU (Companhia e Trânsito e Transportes) denunciando os infratores em frente à “Casa do Senhor”.
Em “Ciclistas Invisíveis de Casa Amarela” (anônimo), o grupo utiliza a estrutura de documentário para ouvir ciclistas e obterem opiniões sobre o papel das ciclovias para o trânsito da cidade. As opiniões são bem homogêneas, onde se percebe que o respeito à segurança dos pedestres e dos ciclistas é sempre colocada em questão quando se pensa em restringir direitos dos usuários dos carros.
Mas é através dos vídeos “Ciclofaixa Cidadã” (anônimo) e “A Praça é do Povo” (anônimo) que vê-se a marginalização das ações do grupo, apoiado pela simples ideia do espaço público como bem inerente e inalienável do cidadão. Em ambos os vídeos, os anônimos, mascarados, realizam ações que são responsabilidades do poder público, pois o sentimento cidadão se torna tão intrínseco que a espera apenas os tornariam cúmplices desses desrespeitos. Pintam eles mesmos faixas de pedestre e ciclofaixas, no intuito de exercerem os direitos de locomoção instituídos pela Constituição Federal.
Após algumas trocas de mensagens, consegui entrar em contato com dois membros do grupo e pude fazer algumas perguntas e obter respostas esclarecedoras.
ENTREVISTA
1. Para que não haja uma superinterpretação diante destas atividades, não seria interessante deixar claro para pessoas qual o objetivo principal desse ativismo?
O principal das ações é debater, provocar e convocar.
Debater o estilo de vida que estamos adotando na sociedade, com a carrocracia como elemento intrínseco à cidade. A entrega do espaço urbano aos carros e à sociedade motorizada.
Provocar a sociedade e o poder público para que enxerguem a realidade carrocrata da cidade.
Convocar a sociedade a participar mais ativamente de sua cidade.
A reclamação tem que sair da mesa do bar e das redes sociais e ganhar o mundo. Não é possível que a cidade tenha uma péssima qualidade de vida e isso não traga respostas de insatisfação da sociedade. Há ações acontecendo nos mais diversos planos: legal, educativo, midiático e ações práticas. Às vezes são ações, mas muitas vezes são REações. Mas, o interessante é quando algumas ações têm efeitos práticos, como a pintura da faixa de pedestres que acaba sendo utilizada pelos transeuntes e respeitada pelos motoristas.
2. Por que ser anônimo?
O anonimato tem pelo menos dois viés, igualmente importantes.
O primeiro é a preservação do indivíduo que realiza a ação, protegendo contra quaisquer eventualidades que possam acontecer, e de qualquer um que se incomode com a ação. Temos um discurso de legalidade extrema, principalmente no trânsito, que infelizmente não é usado amplamente na prática. Pintar uma faixa de pedestre, por exemplo, pode ser considerado dano ao patrimônio público. Então aplica-se a legalidade extrema. Enquanto isso, o pedestre não tem prioridade de verdade nas faixas de pedestre ou mesmo onde elas não existem, e o ciclista é ameaçado constantemente no trânsito. A justiça é cega de um olho só. Infelizmente faz-se necessário o anonimato, por esta bipolaridade das autoridades na aplicação da lei.
O segundo motivo é se evitar o surgimento de heróis. Não há heróis. Não há um que vá fazer isso sempre, qualquer um pode realizar uma ação e divulgá-la ou não. A ideia é que as pessoas se instiguem com a ideia e saiam de seus sofás e venha clamar por seus direitos. Um herói só deixa as coisas mais cômodas, pois, acabamos por esperar pela ação deles.
3. Qual o alcance que o grupo, aparentemente independente entre si, busca com essas manifestações? O fato de serem anônimos atrapalha as realizações práticas perante as instituições governamentais?
Até queremos que os governantes ajam corretamente, que olhem pelos cidadãos, motorizados ou não. Mas hoje isso é um sonho, e sabemos que nossas ações vão mudar muito pouco quanto a isso. Mas se vários outros se instigam a fazer o mesmo, dezenas, centenas de pessoas, a insatisfação com gestões carrocratas se legitima como uma demanda da sociedade, e não de poucos. E mesmo que fosse de poucos, como é o caso dos portadores de necessidades especiais, é função do Estado governar também para as minorias. Tratar de forma desigual os desiguais é simplesmente trazer um equilíbrio ao direito de usar as ruas e a cidade, no caso.
4. As manifestações deixam clara a busca por espaços públicos para o público, e consequentemente atingem direta ou indiretamente o interesse privado como fator predominante. Até onde o discurso consegue ser coerente, já que possivelmente, alguns membros moram em prédios e possuem carros?
As condições de vida na cidade trazem certas deturpações quanto à esse tipo de provocação. Não há incoerência em morar em um apartamento ou possuir um carro. Não se trata de utopia querer uma cidade em que se possa transitar ou viver dignamente no espaço urbano público. Almejar um espaço urbano de melhor qualidade é uma demanda de todos. Os cidadãos querem, na medida do possível e realizável, viver suas pequenas utopias internas para possibilitar a construção de um espaço maior de convivência. Vivemos uma heterotopia e, boa parte dessas pessoas, já se entrega ao mundo não motorizado.
5. Quanto o “Novo Recife” pode ser prejudicial para o equilíbrio urbanístico da cidade?
O projeto no Cais José Estelita? Certamente será. Despejar centenas de carros no cais José Estelita não é solução urbanística. Construir alças, Via Mangue, é claramente uma tentativa – certamente sem sucesso – de resolver o problema da mobilidade para poucos. Está sendo construída uma cidade de classe média alta dentro de Recife. Vindo do Evolution, Le Parc, Via Mangue, Shopping RioMar, “Novo Recife”, Torres gêmeas até o Porto Novo. Descaradamente, a Via Mangue, obra mais cara de mobilidade das últimas gestões, é feita para carros, e não permitirá o trânsito de ônibus. Terá uma ciclovia por uma obrigação moral e legal, mas tirando o ciclista do meio da cidade, que é onde mais se vislumbra o uso da bicicleta. Uma tentativa de transformar o ciclista em alguém que não vive a cidade, mas apenas transita, vai de um ponto a outro.
Voltando ao Novo Recife – não dá pra falar neste megaprojeto sem falar na Via Mangue – teremos este novo bairro, com novos carros, e o pedestre continua sendo um ser isolado. De um lado, o Cais José Mariano, com uma grande avenida, do outro o Viaduto Capitão Temudo e a Ponte Paulo Guerra, sem estrutura para o pedestre e o ciclista. Surge a ilusão de que os não motorizados têm vez, mas o que temos é uma ilha da fantasia cercada de concreto por todos os lados.
Acho importante o uso da área com fins de ocupação mista – residencial e comercial e para diferentes classes – para que haja uma recuperação daquele espaço e a criação de uma área de convivência. O que não pode é ser repetido o mesmo modelo de ocupação com prédios segregadores dos indivíduos, que criam um espaço de arquitetura do medo, em que só se torna “possível” sair de casa em sua bolhas de vidro e metal. É preciso a criação de um espaço em que haja vida circulando, para que haja segurança e convivência.
6. A cidade do Recife possui inúmeros problemas estruturais, principalmente nas áreas periféricas, saneamento básico sendo um dos maiores. Como demonstrar que os problemas propostos por vocês não passam de “problemas da classe média”?
O problema atacado está mais voltado à mobilidade. A resposta vem com a democratização do espaço e a humanização do trânsito. O uso do espaço democraticamente já se pressupõe que haja acesso por toda a sociedade, independente de classe. A humanização do trânsito vem para possibilitar que todos transitem com segurança pelo espaço, independente do modal utilizado.
Hoje, o que vemos é uma classe dominante em cima de motores que se transformam em armas, matando indiscriminadamente, mas atingindo àqueles que não têm opção de modo de transitar, os que andam ou pedalam todos os dias. O que vemos são engarrafamentos constantes, provocados pelo excesso de automóveis e a população presa dentro de ônibus como sardinhas. Busca-se a libertação nesses dois aspectos. No mais, as velocidades motorizadas permitem que aumentemos nossas periferias e joguemos a população mais pobre para longe das cidades, obrigando estas a usar esses transportes coletivos, pois não há mais possibilidade de se chegar ao trabalho com suas próprias pernas. A imobilidade atinge a todos, mas não igualmente.
As propostas de se olhar pelo menor primeiro, inclusive, se demonstram economicamente favoráveis e viáveis às cidades. Essa economia pode ser usada para solucionar os problemas estruturais citados.




























