Desde sua estreia com “Sexo, Mentiras e Videotape”, o cineasta Steven Soderbergh foi sempre considerado o porta voz do cinema independente norte-americano dos anos 90, não apenas pela temática dos seus filmes, mas também pelo estilo de produção. Ele é roteirista, diretor, montador, diretor de fotografia e também cinegrafista. Muitos do atores que trabalharam com ele, o chamam de “one man band”. Resumindo, aquele cara que faz tudo. O seu modo de produção é baseado na objetividade, de encontrar as respostas visuais da forma mais rápida e eficaz possível. Por ser o criador visual do filme e o cinegrafista, as imagens vão sendo elaboradas e decupadas ao mesmo tempo e assim a produção dos seus filmes se tornam extremamente fluidas. Em pouco mais de vinte anos de carreira, o diretor possui em seu currículo uma quantidade de filmes que equivalem a um por ano, além de sempre intercalar produções de estúdio com os seus anseios artísticos, passeando por diversas formas de abordagens narrativas e de temas. O que obviamente leva à sua inconsistência como realizador. A forma quase industrial de filmar, acrescida à necessidade quase pulsante de se afirmar como artista, deixa o cineasta em posição de criar obras brilhantes, como a incursão no mundo do narcotráfico em “Traffic”, e verdadeiros fracassos, como “Full Frontal”. E “Contágio”, o mais novo filme do diretor, felizmente se aproxima dos seus momentos mais áureos.
Utilizando uma estrutura parecida com “Traffic” – filme que lhe agraciou com a estatueta dourada de melhor diretor –, Steven Soderbergh busca dar voz a todos os elementos integrantes de uma crise epidemiológica, deixando claro logo em seu prólogo o alcance mundial dessa crise (mostrando os países através dos habitantes afetados pelo vírus) e a sua rápida proliferação – clara alusão à globalização e à velocidade atual da informação.
Igualmente a “Traffic”, o filme é todo construído através de um mosaico de personagens, cada um representando uma esfera compositiva de uma crise desse porte. Matt Damon é o personagem/espectador, aquele pai de família que, à parte do conhecimento científico, possui apenas preocupações de caráter social, como prover segurança e alimentação para sua família. Não possui características heróicas e nem tenta ter influência direta na resolução dos problemas. É apenas uma pessoa comum. Enquanto intercaladamente vemos as angústias do homem comum, acompanhamos as investigações científicas sendo retratadas não apenas por um único órgão ou uma única pessoa responsável. As responsabilidades vão sendo divididas entre órgãos administrativos, governamentais e científicos, dando o tom de realidade exata para sentirmos o temor inicial. Além de que o filme acerta em dar vida aos personagens, e não apenas transformá-los em propulsores de dados e termos científicos. E em vários momentos, médicos e governantes se propiciam de seu status para proteger ou alertar familiares ou amigos próximos, dando um toque extremamente pessoal e humano. Um outro segmento bastante discutido no filme é a da liberdade de informação. Representado por um jornalista independente – um blogueiro -, o filme faz um retrato da atualidade e das novas mídias e fontes de informação. No caso em questão, o blogueiro interpretado por Jude Law, tenta através de sua “influência”, ou melhor, pageviews, criar ou espalhar (nunca é deixado claro a veracidade da informação) uma teoria da conspiração envolvendo o governo, companhias farmacêuticas e consequentemente milhões de dólares. Na verdade, hoje em dia até o conhecimento de uma epidemia é já discutida e alarmada através de divulgação de vídeos (feitos minutos antes do upload) e nas redes sociais. E mesmo que não se aprofunde no assunto, é bastante interessante como é abordado. A proliferação do vírus é proporcional à do pânico gerado.
O mais interessante do filme é a sua postura jornalística e não apenas a de caráter investigativo, como vemos normalmente. É incorporado à sua estrutura narrativa outros tons jornalísticos, como o emocional e popular, o científico, e obviamente, o alarmante, utilizando uma metalinguagem que recria as sensações de viver perante uma crise desse tipo, com o ritmo imposto em sua narrativa. A sensação de alarmismo e urgência vai diminuindo durante a projeção. O que normalmente seria considerado uma quebra de ritmo ou de interesse por parte do espectador, aqui se torna uma alegoria interessante e muito bem utilizada. Percebemos então que o filme que estava tão angustiante e deseperançoso – em níveis quase apocalípticos – vai abandonando essa sensação de desepero e urgência, para abraçar a normalidade, exatamente como a vida real. Ou não tivemos recentemente esse exagero e necessidade de “apocalipse” na gripe suína?
Steven Soderbergh anunciou nesse ano sua aposentadoria. Diz que a indústria do cinema não lhe interessa mais, e que apenas terminará de fazer os filmes a que se comprometeu. Uma pena que uma cineasta tão entusiasta e interessante abandone as telonas. Pelo menos existem seus filmes.






















