
Das ruas, prisões, favelas ou do sertão, o pobre brasileiro parece uma fonte inesgotável de ficções e realidades documentadas à quase exaustão no cinema nacional. Em oposição, as classes mais altas passam quase sempre marginais, ignoradas como um fruto proibido sem aparente razão. Daí a estranheza que sentimos ao assistir ao documentário Um Lugar ao Sol, do pernambucano Gabriel Mascaro, que busca justamente desvendar o imaginário da classe rica ao perceber a escassez de material sobre o assunto.
Através de um curioso livro que mapeia a elite e pessoas influentes da sociedade brasileira, o cineasta decidiu documentar o pensamento de um público muito específico: donos de coberturas. Dos 125 proprietários listados no livro, apenas 9, de Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, aceitaram conceder entrevista e tornaram-se então personagens da nem sempre sutil crítica social construída pelo jovem diretor.
Outro objetivo do longa, declarado explicitamente por Mascaro, é o de criticar a verticalização das paisagens urbanas, mas, embora alguns depoimentos tratem do assunto, como os arquitetos que afirmam que o edifício “socializa a vista”, não chegam a acrescentar nada de novo ou realmente útil a essa polêmica questão. As belas sequências de fundação e construção de um edifício, assim como a visão distante da cidade e das pessoas, registradas com originalidade pelas mãos de Marcelo Pedroso, com quem Mascaro co-dirigiu KFZ-1348, seu primeiro longa-metragem, funcionam mais para nos inserir no ambiente dos personagens do que como análise da arquitetura urbana.


Excluindo-se então o mote principal do filme, percebemos que é de status, riqueza, delírios de poder e alienação que ele realmente trata. Com a ilusão de estarem fazendo parte de um documentário que exalta o estilo de vida nas alturas, os entrevistados, que preferiram aparecer anônimos, tagarelam sem pudores, entregando-se inúmeras vezes a afirmações e divagações verdadeiramente ridículas.
A sorridente família do Rio de Janeiro, com um filho adulto tratado como adolescente, se deleita com tiroteios que parecem “fogos de artifício” e escreve “cobertura” no endereço quando quer parecer importante. A senhora, que tem uma estátua assustadora do seu falecido cão Bush e um filho abobalhado, diz que Deus a ouve melhor porque está mais perto Dele, no alto. O proprietário de casa noturna de São Paulo exalta seu estilo de vida exclusivo e diz “frequentar” os melhores hotéis, os melhores relógios, as mulheres bonitas, as grandes emoções e a grande literatura, mas não consegue acertar o nome do livro que está lendo. Entre outras atrocidades que fala, diz que no avião há “primeira classe, classe executiva e senzala” e afirma sentir-se triste quando vê um pobre que não possui um Jaguar.
Em meio a depoimentos desse nível, entrevistados que aparecem poucos minutos no filme e afirmam gostar de silêncio e privacidade, de não ouvir o barulho da cozinha e até de fazer trabalho voluntário para compensar sua “vida perfeita”, são facilmente considerados farinha do mesmo saco e soam ridículos ao espectador antes mesmo de abrirem a boca. É certo que alguns parecem mesmo ridículos, mas ao analisar cada um individualmente percebemos que existem visões muito diferentes do que significa fazer parte dessa classe social. Mascaro, no entanto, parece querer nos convencer do contrário e o faz muito bem. Quando escolhe priorizar em tela os mais deslumbrados com seu status, transforma quase todos em uma massa homogênea e são fáceis as risadas arrancadas do público. A única entrevistada que tem o poder de nos encantar é a imigrante francesa, que ama a cultura popular brasileira e nada fala sobre dinheiro ou mesmo sobre morar numa cobertura. É justamente por não traçar um perfil mais cuidadoso de cada um que o filme perde força enquanto representação da classe alta. Mesmo que fosse relevante a análise de apenas nove personagens, alguns simplesmente não parecem corretamente retratados e sim moldados para encaixar-se no perfil pretendido pelo cineasta.
No entanto, Um Lugar ao Sol é um filme inovador, corajoso e importante para a nossa cena documental. Se falha em trazer à luz o pensamento da elite brasileira, ao menos abre uma fresta, expõe verdades incômodas e traz possibilidades, que estão longe de esgotar-se. Talvez Mascaro não retome este caminho tão cedo — seu terceiro longa-metragem, Avenida Brasília Formosa, centra-se na classe baixa —, mas o primeiro passo foi dado e, mesmo olhando do chão para o topo dos arranha-céus, o povo brasileiro está um pouco mais perto de entender a mente das pessoas influentes de uma sociedade que soa cada vez mais decadente.
*Texto apresentado na disciplina Análise Estrutural de Textos Jornalísticos de Crítica Cultural, com a Profa. Dra. Isaltina Gomes, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.




























