
Eu nunca entendi o porquê desse frenesi em torno de João do Morro, mas confesso que não ando muito nessas rodas e a única música que eu conhecia era Balaiagem. Resolvi então deixar o preconceito de lado e parar para ouvir “Do Morro ao Asfalto”, seu primeiro disco lançado em dezembro do ano passado pela Rec Beat Produções.
De cara me surpreendi com Ninguém Segura, que começa como um rock, vira um pagode-sátira autoafirmativo e termina com um rap. Deu uma sensação de introdução, daquelas que você pula quando vai ouvir o disco pela segunda vez.
Já na segunda faixa, Sarará, achei que estava ouvindo o novo trabalho do É o Tchan, só que sem as gostosas dançando pra tirar a atenção da música. O som em si não tem nada de novo, é só pagode. Sei que o forte deveria ser a irreverência, mas o nível da maioria dos versos engraçadinhos é de dar pena. Cueca de Copinho, por exemplo, começa falando de Bob Esponja e segue assim: “Quem não se lembra das cuecas de copinho / Num kit de 3 cuecas de um pano vagabundinho / Uma malha fina que é essa que meu pai comprou / Eu vesti, soltei um peido / E a cueca se rasgou”.
Ainda assim, algumas músicas realmente se salvam e Eu Dô-Le se destaca facilmente como a melhor do disco, mesmo usando palavras como mijo, vômito e caralho. Tem também o pé no brega da faixa Eu Não Presto, com participação de Conde (Banda Só Brega), que soa legal.
Por fim, como nem tudo é escracho, há um certo tom de protesto e crítica em faixas como Avião, Lado B do Jornalista e A Voz das Corrocinhas, que sobem bastante o nível do disco. Esta última tem participação de Cardinot e é um agradecimento sincero e até humilde, reconhecendo a importância da pirataria na divulgação do seu trabalho.
Continuo sem entender o sucesso estrondoso no Recife, pois realmente não é nada de novo e tem muita tiração de onda com letras mais inteligentes por aí. Mas o disco nem é ruim, apesar de muito irregular. Só acho uma pena que isto esteja sendo vendido pelo Brasil como um grande expoente da música pernambucana, quando tem tanta coisa melhor por aqui.
Escute abaixo a oitava faixa do disco, Eu Dô-Le.
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