É um dia de chuva naquela cidade onde nunca chove. Véspera de um longo feriado. O vazio das ruas é sintoma da fuga para o interior; os remanescentes arriscam-se, itinerantes, por uma cidade fantasma, em busca do consumo das horas.
No café do cinema, ele aparece pela porta dupla. Barba hirsuta, cabelo com pontas, despenteado; roupas de uma talha maior do volume do corpo, mangas da camisa mal amanhadas, ombros caídos, calça de gavião folote, calcanhar pisando a bainha, sapato gasto, rasgado aqui e ali, na fronteira entre mendicância e desleixo; os gestos lentos e o andar arrastado denunciam uma dor aguda. Chamaria a atenção num dia normal. Mas não é. Porque chove naquela cidade onde nunca chove.
Ocupa uma das mesas. Pede um café. Percebe sobre o tampo de vidro a presença de um soldadinho. Há muito não vê um. Na infância costumava encontrá-los sempre e sempre com a alegria da descoberta. Existe algo de nobre no soldadinho. As crianças reconhecem essa nobreza, não sabem explicá-la, mas a têm como universal, inconteste. Talvez o corpo em forma de capacete, as pernas demasiado pequeninas, a beleza do contraste entre o negro e as rajadas brancas, ou simplesmente a altivez desse bichinho. Olha em direção à janela. A água cai torrencial, o clima é ameno, é leve, pouco habitual num lugar tão quente e úmido. Ele se compraz em pensamentos distantes e afáveis.
“Mas não pode acabar assim”. Essa frase ecoa discreta da mesa na diagonal. Parecem namorados. Brigam. O rapaz diz amá-la, promete ser diferente, promete que tudo vai ser diferente. Tem o rosto lacerado pelo tormento. A aflição esvai seu amor próprio. Se necessário fosse rastejar, não pensaria duas vezes. O pobre é um misto de incredulidade e subserviência. A moça, ao contrário, fita o teto, olha o cardápio, observa a curvatura da unha, indiferente, chega a bocejar.
Ele cora. Baixa a cabeça. Sente o corpo formigar, a ansiedade aflora. Não demora a ensaiar novo contato com a vida alheia. Diante do rapaz em farelos a moça muda sua postura: de companheira de outrora se transforma em conselheira. Diz: “a vida continua, sabe?”. O rapaz não responde. Quer dizer: “eu te amo mais que a vida”, mas não tem forças. Então se cala.
O expresso é servido. Ele retira uma embalagem retangular de açúcar da cestinha preenchida com sortidos adoçantes, rasga um de seus ângulos, despeja-o na xícara. Com a colherzinha, mexe até fazer redemoinho. A fina espuma marrom converge-se, dando lugar ao preto azeviche. Dá duas batidinhas na borda da chávena, deposita a colher no branco do pires, sujando-o com resíduos de café. Emborca a bebida com o polegar e o indicador até sentir o aroma. A ansiedade estanca, o corpo desacelera, a perna cessa de chacoalhar, principal indicativo da angústia, agora vaticinado. O mundo, aos poucos, vai recuperando a lassidão trazida pelo clima nublado.
A moça levanta-se. Deixa o local. Sentado o rapaz. Sentado o rapaz com os dedos trêmulos. Sentado o rapaz com os dedos trêmulos, consternado, prostrado.
Ele sentia pelo rapaz. É solidário. Conhece aquela dor. Por essa razão, apesar de ser um desconhecido sente como uma espécie de velha afinidade, algo parecido com os laços perenes de amizade surgidos entre os soldados em guerra, uma relação mítica fundada na dor coletiva, solitária, solidária.
Do outro lado da sala, separada por uma divisória de madeira e vidro, um casal mais velho. Nada de palavras pungentes ou gestos enérgicos. Por causa da distância e do obstáculo sonoro é impossível escutar qualquer troca verbal. Mas também não é necessário, não havia. Ambos deviam passar dos cinquenta. O marido é dono de uma fisionomia marcante, rosto longo, maxilar largo, nariz adunco e carnudo, olhos guturais, cabelo liso dividido de lado que, devido ao corte rente e à fibra fina, espeta, levando-o, numa insistência melancólica, a passar a mão no couro da cabeça para assentá-lo. Jantam. O marido, imerso numa coreografia gastronômica: parte um pedaço do cuscuz de uma porção maior; a faca mela a ponta no recipiente raso, em circunferência, da manteiga; passa na comida, fincada no garfo; leva-a à boca; larga os talheres na borda do prato; apóia os cotovelos na quina da mesa; abraça uma mão na outra; enquanto mastiga, um gole no chá. Às vezes, quando escapa um grão à mesa, prontamente, recoloca-o no prato, interrompendo momentaneamente o protocolo. Porém, os resíduos do cuscuz lhe escapam com tamanha frequência, que, ao processo, acaba-se incorporando, também, a recolhida dos grãos avulsos. E tudo se repete. Repete-se a despeito da esposa. Esta, entre garfada e gole do marido, tenta um contato visual, buscando trazê-lo ao improviso de uma conversa, sempre inútil, mas sempre esperançosamente renovado. Contudo, quando por segundos de consciência assimila a idéia da ausência de espírito dele, baixa a cabeça, mexe a sopa. Esta bem acima do peso. Não liga. Não parece ligar mais. Sem qualquer afago ofuscou-se, perdeu o brilho. Filhos também não parecem ter. Apenas os dois, parecem ser apenas os dois, envoltos cada qual em seu casulo interior, condenados à mudez histriônica de um casamento remoto.
À terceira mesa, ela. Estática, atônita, de olhar azul. Está cansada e só e cansada de estar só. Simula uma apatia calcificada, uma vagueza de espírito. Parece ter desistido de tudo. Desistido de tentar. Desistido de se martirizar por não ter tentado. Abandona-se de maneira obscena. As pegadas do seu olhar atraem o dela. Ela o vê. A convicção da mirada, a fixidez das órbitas dos olhos, a certeza de que é inabalável, faz com que, encabulado, ele desvie a cabeça, finja desinteresse. Arrepende-se em seguida. Ele a olha. Ela traz consigo um livro. Lê. Por estar acomodada embaixo da janela, é possível perceber, pela claridade, ainda que pífia num dia tão escuro, os fios rebeldes avermelhados, fora da linhagem do penteado. Ela presente o peso de sua vigilância. Levanta rapidamente o eixo da visão, como para pegá-lo desprevenido e, tendo-o sob foco, ri. Ele sente o coração acelerar; a veia da tez palpitar sobre a pele; o sangue quente.
Ela é mulher.
Ele teme as mulheres.
Com o ingresso da sessão à mão, dirige-se à entrada do cinema. A sala está quase vazia. Escolhe uma poltrona no meio. Os primeiros vinte minutos são atormentadores. Não consegue deter a atenção na tela. Seu pensamento o leva para longe, o leva diretamente à pergunta: “Por que ela sentou-se justamente ao meu lado se não faltam lugares desocupados?”. Sim, ali está, dividindo o braço da cadeira do cinema. Então ele, desconsiderando a presença inusitada, acompanha avidamente a história do filme, como se a escolha daquele lugar fora uma mera casualidade, uma questão de conveniência, com a intenção de apenas ver a película do melhor local da sala. Aos poucos a realidade fica em segundo plano. A ficção ocupa a totalidade de sua atenção. O filme é uma comédia sutil, de gosto fino, as piadas não são grosseiras e para capturá-las é preciso certa elevação de espírito, certo requinte, nem sempre presente em todos os espectadores. Com isso, desvendar o gracejo de determinada cena é um exercício de, além de perspicácia e rapidez de raciocínio, acervo cultural. Os momentos de graça originam-se quase sempre de paródias em relação à música, ao próprio cinema e aos lugares-comuns. O riso é, assim, uma espécie de prêmio conquistado pela montagem competente de todo esse quebra-cabeça. Em determinado momento, ele percebe que ao seu riso segue-se o dela. Que ela não teria achado graça se ele não a tivesse incitado; a tal ponto que é difícil associar a razão principal do riso, se da própria cena do filme ou da ação dele. E o inverso acontece posteriormente: ele só percebe a ironia do diretor após o grunhido dela. Sim, grunhido. O seu riso possui tal dose de classe, esbanja tanta inteligência, que é quase imperceptível, audível apenas se capturado por uma alma atenta. É uma risada discreta, com objetivo de não incomodar; ria para dentro, ela, ruiva de olhar azul.
Ambos, sem se falar, tocar, conhecer, solidões que se anulam.
Em um movimento desajeitado, buscando o braço emborrachado do assento, ele resvala e repousa na coxa dela; em ato reflexo retira a mão. O segundo que durou a percepção da pele em seu tato poderia ser repartido em dois: a perna relaxada, como se não fosse parte de coisa alguma, como um adereço sem importância de um corpo que se deixa inundar pela luz da tela a romper na escuridão; a musculatura tesa, a repercutir o esforço de uma cabeça que não entendia um movimento tão audaz por parte de um estranho. Premeditado, parecia premeditado. E era isso que ele queria explicar-lhe. Que foi um acidente. Mas deixou passar o tempo. E então não pode falar mais nada. Baixa a cabeça, franze a testa, perde a sequência da cena, deseja sair da sala, mas não quer dar na vista. Espera. Está quase no fim. A sessão acaba, as luzes acendem, os corpos se recuperam da dormência do aconchego, espreguiçam-se, retomam o porte hierático. Ele espera, estoicamente espera. Todos já deixaram a sala. Ela não. A sala está vazia, os créditos quase saturados. Ela sentada; sentada ao seu lado. E então, tomada pelo fulgor da ousadia, diz com voz arrastada e arrependida: “Gostou do filme?”
