
Sean Penn já tinha provado em “Acerto Final” (The Crossing Guard) e em “A Promessa” (The Pledge) que é um diretor exemplar e bastante promissor, sempre buscando uma análise mais sensível e complexa sobre personagens polêmicos e de personalidades limítrofes. Em “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild) não foi diferente. A história verídica de um rapaz que abandona tudo em direção ao Alasca é contada com muita sensibilidade e idealismo. Christopher Mccandless, mais conhecido nas suas andanças como Alex Supertramp, era um rapaz que visava se purificar diante de uma sociedade tão fútil e vazia. Recém saído da faculdade, não conseguindo encontrar mais razão para viver nesse mundo obcecado por sucesso e aparências, decide ir em direção ao Alasca. Sempre citando autores como Jack London, Henry David Thoreau e Liev Tolstói, queria ao máximo se afastar da coletividade, e tentar se descobrir. “Contemplação Solitária”, citando o próprio Maccandless.
A história de Christopher Maccandless, “Alex Supertramp”, é sobre a liberdade de pensamento, a fuga da mediocridade e o encontro completo e satisfatório com seu “Eu”. É isso que se encontra nesse belíssimo filme “Na Natureza Selvagem”.
Mas tudo isso me fez indagar algo. Esse idealismo todo em volta de um personagem tão livre e inspirador é verdadeiro? Sean Penn ao escolher esse novo projeto pra trabalhar, escolheu por ser uma história verdadeira e realmente inspiradora ou por ficar fascinado sobre a possibilidade de alguém ter tido a coragem de procurar algo que o desperta tanto desejo?
Após algumas pesquisas, descobri que algumas coisas que mostraram no filme dificilmente aconteceram. Mas o que mais me impressiona é o que se refere a sua morte. Jack Krakauer, autor do livro que deu origem ao filme, julga que sua morte foi acidental, que após ingerir sementes de batata selvagem, o corpo de Christopher já debilitado não aguentara. Jack Krakauer entendia que as batatas selvagens possuíam toxinas e alcalóides. Após ser contestado pelos médicos que realizaram a autópsia, onde determinaram que nada foi encontrado, e especialistas que foram contrários a possibilidade da existência de toxinas na tal semente, Jack Krakauer em sua segunda edição substituiu as batatas por um tipo de raiz de ervilha que é conhecida por ser venenosa.
O livro e o filme relatam a luta de Christopher pela sua sobrevivência. A ausência de comida, de proteção contra predadores e a impossibilidade de encontrar ajuda. E ainda a sua teimosia em rejeitar a possibilidade de levar suprimentos e artefatos que o ajudariam nessa empreitada. Os próprios alasquianos não concordam com essa história. Onde Christopher foi encontrado, em um ônibus abandonado, eram apenas 30km de distância para a estrada mais próxima. A ausência de comida é contestada pelo fato de que Maccandless tenha vivido todo esse tempo durante o verão, onde a vegetação e a fauna existente é bastante abundante. E em um rio próximo de onde foi encontrado, balsas passam durante meses à procura de desabrigados pelas enchentes do degelo.
O filme e o livro escolheram seguir por um lado. Pelo lado mais idealizado, daquele rapaz que decidiu largar tudo e saiu à procura de uma liberdade já não mais existente. Que citava Thoreau e falava da sua relação com a natureza. Que decidiu largar a família e viver como andarilho. Muitos acham que Christopher Maccandless apenas decidiu viver isolado pra poder não viver mais. E quando a morte realmente se aproximou, pediu suplício.
Sean Penn escolheu o que seria mais conveniente para que a sua história fosse contatada. Não quis tornar “Alex Supertramp” em um daqueles personagens limítrofes, passeando pelo certo e o errado, que tão bem criou em “Acerto Final” e em “A Promessa”. Quis idealizar um personagem que possivelmente da forma que foi retratado não existiu.

E foi a partir dessas indagações que comecei a analisar outras cinebiografias, e as escolhas de seus diretores do que contar. Imediatamente veio a mente “O Aviador” (The Aviator) de Martin Scorsese que conta a história do excêntrico Howard Hughes. Martin escolhe mostrar Howard como um gênio dos negócios, de uma visão progressista e que lutou contra tudo e todos para que suas empreitadas fossem realizadas. Além de suas manias e transtornos obsessivos compulsivos, também o seu lado galã, namorando com as mais belas mulheres da época. A sua perseguição pelo governo dos EUA é também exaustivamente mostrada.
Diferentemente de “Na Natureza Selvagem” - onde este omite aspectos apenas discutíveis - “O Aviador” escolhe idealizar um personagem que notoriamente era conhecido pelo seu caráter. Mau caráter, diga-se de passagem. Howard é responsável por ter destruído a vida de várias pessoas e Martin determina o seu lado negativo apenas pela sua doença, omitindo assim os inúmeros aspectos negativos de sua personalidade. O grande empreendedor não passava de um grande canalha.
Foi responsável por subornar e dedurar inúmeros “colegas” na época da Caça às Bruxas do Senador Joseph McCarthy, onde vários atores e diretores foram execrados por terem tido algum contato com o movimento comunista. Quando produtor, tudo tinha que ser do seu jeito. Em “Sangue Bárbaro”, determinou que as gravações fossem em lugar que recentemente tinha sido exposto por poluição radioativa, apenas por achar que o lugar era essencial para o filme. Com isso, levou a morte dos atores John Wayne, Dick Powel, e entre outros integrantes do filme. Obviamente, Howard nunca visitou as gravações. O filme também mostra Howard como um grande conquistador, tendo em seu “currículo” beldades como Katharine Hepburn, Ava Gardner, Jean Harlow, e entre outras; mas não mostrou o seu relacionamento homossexual com Cary Grant, o que imagino que teria sido essencial para caracterizar o personagem em questão. Martin errou. Não apenas por ter feito um filme apenas correto, como omitiu inúmeros fatos que deixariam o mais rico e tridimensional.

No exemplo acima, as escolhas do que mostrar na tela são basicamente por se adequarem a uma fórmula pré-determinada de uma cinebiografia. Mostrar suas conquistas, a sua personalidade forte, os seus defeitos - ainda que pequenos -, e o seu legado. Em alguns filmes essa fórmula é confundida com unidimensionalidade narrativa. Colocar o protagonista exclusivamente como um Herói infalível, mesmo que tenha que ofuscar e deturpar a vida de outros personagens. Em “A Luta pela Esperança” (Cinderella Man), Ron Howard conta a historia do boxeador Jim Braddock, que teve uma vida bastante sacrificada, mas atingiu um grande sucesso na década de 30 nos EUA. A minha única questão em relação ao filme é sobre o seu oponente Max Baer. Ron, um diretor medíocre, diga-se de passagem, retrata Max como um vilão digno de um filme de sessão da tarde. Tentando levar o público a torcer exclusivamente para o personagem principal, o Herói. E essa unidimensionalidade que não apenas prejudica a imagem de uma pessoa como também sacrifica a qualidade da película. Max Baer, na verdade, é conhecido até hoje por ter sido um homem de grande coração e espetacular esportista. A sua vida de tantas tragédias e superações merecia um filme a parte. Mas não, Ron Howard não pensa assim e prefere que o grande embate, sobre duas personalidades admiráveis, se transforme na dualidade do bem versus o mal.
Essa conveniência narrativa me intriga. Será que o filme se diminui ao não ser mostrado em toda a sua veracidade? O autor da obra tem esse direito? Os personagens de um filme se confundem com aqueles que os deram vida? Sabe de uma coisa, essas perguntas podem até ter resposta, mas é muito mais interessante fazê-las do que respondê-las.





















