
Com 18 anos de estrada e nove álbuns de estúdio, não é exatamente grande novidade ver os mineiros do Pato Fu apostarem na experimentação, mas é a primeira vez que o método parece ter mais importância que o resultado final.
Decidida a realizar um disco apenas com instrumentos de mentira, a banda gravou em Música de Brinquedo um repertório de covers que peca pela popularidade das canções. Ainda que seja inusitado ver no mesmo álbum músicas como Frevo Mulher, do paraibano Zé Ramalho, e Live and Let Die, de Paul e Linda McCartney, nenhuma das 12 faixas chega como novidade ao grande público, à excessão, talvez, da balada japonesa Twiggy Twiggy. O repertório inclui ainda Primavera (Vai Chuva), canção romântica de Cassiano que fez sucesso na voz de Tim Maia; Sonífera Ilha, dos Titãs; Ska, dos Paralamas do Sucesso; Pelo Interfone, de Richie; Ovelha Negra, de Rita Lee; Todos Estão Surdos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos e recriada nos anos 90 com maestria por Chico Science & Nação Zumbi; Love Me Tender, de Elvis Presley; My Girl, de Smokey Robinson, mais famosa na versão dos Temptations; e Rock & Roll Lullaby, de BJ Thomas.
Se ao menos soassem repaginadas, talvez um repertório de canções famosas não importasse tanto. Porém, justamente por colocar o método acima do resultado final, os arranjos de John Ulhoa apenas imitam as gravações originais e a graça está na dificuldade de reproduzi-los. No making of disponível no site oficial do grupo, Fernanda Takai afirma que a banda quase desistiu do projeto pela falta de domínio que tinham sobre os instrumentos, o que tornava a tarefa quase impossível. Apenas por insistência de seu marido, John, foi possível concluir o álbum.

Como instrumento, valeu qualquer coisa que não fosse de verdade. Calculadora foi transformada em teclado e até elefante de borracha serviu para orquestrar o tema de 007. Claro que também foram utilizados instrumentos infantis, como um sax de borracha. O resultado é, no mínimo, curioso, pois mesmo mimetizando os arranjos originais, não soa como nada que ouvimos antes. Instrumentos infantis já vêm sendo trabalhados há um tempo, especialmente no universo indie, como pode-se observar nos trabalhos da paulista radicada em Londres Cibelle ou da dupla americana CocoRosie, mas contam sempre com o auxílio de instrumentos tradicionais. Construir um álbum apenas com eles é realmente inovador e este é um ponto positivo de Música de Brinquedo.
Há, porém, mais um elemento inusitado nas gravações e que dirige o álbum a um público muito específico: os backing vocals. Nina, filha de Fernanda e John, e seu amigo Matheus d’Allesandro, ambos com apenas 6 anos de idade, fazem um coro descompromissado em todas as faixas e tornam a apreciação do mesmo por um público adulto extremamente difícil. Apesar da declaração da banda de que seu objetivo não foi realizar um disco infantil, a escolha das crianças para os vocais torna este o público provável de identificar-se com o som e ouvi-lo com frequência. Os adultos podem achar divertido e engraçado, mas dificilmente devem buscar uma nova audição.
Por outro lado, se visto como um disco infantil, Música de Brinquedo tem tudo para ser um clássico. Canções como Rock & Roll Lullaby, Live and Let Die e Frevo Mulher passam longe do repertório infantil e isto o torna realmente um projeto excepcional. Ao lado dos ótimos trabalhos recentes de Adriana Partimpim e Pequeno Cidadão, Pato Fu deve deixar seu nome no universo infantil para ser lembrado ainda por muitas gerações.

A grande surpresa pode vir na hora do show. A banda já anunciou as primeiras datas e promete reproduzir ao vivo todas as faixas, com os mesmos instrumentos utilizados na gravação, porém sem as crianças. Este é o momento em que o método deve se tornar superior ao resultado, pois será também experimentado pelo público. Num espetáculo ao vivo, os instrumentos infantis tomarão outra proporção e é a chance do Pato Fu firmar o sucesso de sua nova empreitada musical junto ao seu público tradicional, já tão acostumado às estranhezas e sempre sedento pelas inovações do grupo.

*Texto apresentado na disciplina Crítica e Cultura Contemporânea, com a Profa. Dra. Ângela Prysthon, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.

















