Escolhi um artista para comentar no post de hoje, alguém que desde as primeiras matérias que li, tem me intrigado bastante. Muito por produzir arte contemporânea nos moldes da desconstrução, da inovação e tendo pouco da cultura clássica de arte em seus trabalhos. Costumo gostar bem mais dos que vêem a tela, a escultura em pedestal ou qualquer outra característica clássica de produzir arte como mais interessante.

Richard Serra, nasceu em 1939 nos EUA e começa sua carreira produzindo telas expressionistas na faculdade, mas logo foge para a escultura. A abstração parece ser o grande ponto desse artista que em vários momentos de sua carreira explodiu em raiva, brigas, discussões e decisões judiciais em defesa do que acredita.
Conhecido no meio das artes por ser altamente controverso, orgulhoso, briguento Richard Serra possui uma opinião sobre o fato de ser artista que considero um dos maiores, senão o maior incentivo para fazer arte. No programa de entrevistas do americano Charlie Rose, Serra uma vez comentou que sabe desenhar melhor que um arquiteto, e isto é uma das atribuições para que ele seja considerado artista e Frank Gehry, não. Serra não tinha qualquer desavença com Gehry, eram até amigos próximos. Falando isso, Serra quis dizer que trabalhos de arte são “intencionalmente inúteis, que suas significações são poéticas, internas”, enquanto o trabalho do arquiteto tem de ser transposto de acordo com as necessidades do cliente e das utilidades da construção, por mais escultural que seja o exterior. Não tendo assim o arquiteto a “obrigação” de saber desenhar, utilizar tintas, ou de fato ter de trabalhar com a obra de forma “manufatural”. Eu não concordo em gênero, numero e grau com ele, mas entendo de coração a sua intenção e força como artista. Ele entende que suas idéias não têm de obedecer às demandas de um mercado extremamente ligado as tendências e decisões alheias.
Vejo Serra como um artista-químico-físico. Ainda adolescente trabalhava em suas férias numa siderúrgica onde teve seu primeiro contato com o metal e com o trabalho em altas temperaturas. Filho de um espanhol e de uma russa, Serra se formou em Inglês e pós-graduou em Arte na Yale, tendo como colegas de classe nomes conhecidos da arte contemporânea como Chuck Close e Nancy Graves. Serra diz ter renunciado da pintura abstrata após ter visto de perto o famoso As Meninas, de Velázquez, julgando-se incapaz de produzir algo de tamanha beleza.

Após voltar de uma temporada na Europa na segunda metade da década de 1960, Serra mergulha na onda do minimalismo e da desconstrução em que os artistas como Carl Andre, Donald Judd e reminiscências da influencia de Mondrian produziam. A escultura parecia encontrar a abstração em ângulos retos, tecnológicos, limpos e em muitas ocasiões, nada mais que experimentais. Época que, em minha opinião, fez seus trabalhos mais fracos. Um deles eram quantidades de borracha ou chumbo derretidas arremessadas a parede produzindo formas ao escorrer. A outra série consistia em ver a arte como o processo e não o resultado. Escreveu vários verbos ativos como “dobrar, vincar, torcer, cortar” e os aplicava ao chumbo, não interessando o que teria como resultado.


Logo após começa a trabalhar com o aço e a perceber a força e estabilidade que este material poderia proporcionar. Estes são os trabalhos que considero de fato interessantes em significação e em processo, juntos como acredito ser o trabalho do artista. Placas de aço com inúmeros comprimentos e alturas aplicadas ao meio urbano ou rural, mudando a percepção do local e quiçá do passante. Placas que pesam toneladas e possuem autossustentação (algo defendido desde sempre por Serra como uma condição para a criação destas obras). Não há pregos, amarras ao chão, nada. Apenas o peso, gravidade e cálculos perfeitos fazem tais estruturas manterem-se em pé, sendo inclinadas ou não. Com esses trabalhos Serra é visto como um artista genuinamente contemporâneo, utilizando materiais novos, indústria e inserção no meio urbano, tendo reconhecimento internacional e várias encomendas.






Em especial foi uma das mais comentadas e discutidas de suas obras, intitulada de Tilted Arc. A placa com 4 metros de altura e 40 de comprimento, instalada em 1981, foi encomendada pela Secretaria de Serviços Gerais do governo federal americano, para uma esplanada em frente ao edifício público Jacok K. Kavits, em Nova York. Claro que muitos não gostavam do paredão de aço, achavam intimidadora, achavam que ia cair a qualquer momento, mas o estranhamento era esperado. A briga começou quando o juiz Edward D. Re, que trabalhava no tal prédio, escreveu cartas a Secretaria denegrindo a obra, dizendo ser local para possível proliferação de ratos e inútil por desabilitar o local para eventos públicos. O caso foi levado a discussão com responsáveis e pessoas influentes do governo e das artes. Depois de audiências e uma ação movida por Serra pedindo 30 milhões de indenização por quebra de contrato, a Tilted Arc foi removida em 1989.


Richard Serra manteve-se, mesmo em maus momentos, bem no mercado por possuir personalidade marcante e defender seus ideais como artista. Seus trabalhos inseridos nas vidas das pessoas, deixando-as experimentar, a imaginar a gravidade do objeto e de seus pensamentos. Trabalha com a abstração como forma de sentir, pois afinal cada um temos nossa impressão e esta é a verdadeira percepção da arte, senti-la.