No meio do freje do Carnaval, duvido que vocês tenham se ligado no super evento que vai rolar na noite do próximo domingo. O live posting do Oscar 2012 do A Prancheta, tradicional momento no calendário anual que reúne on-line boa parte da galera desse blog. Todas as atenções voltadas para a cerimônia, os filmes, a premiação, e o melhor é que para participar, basta estar conectado e chegar mais. Diversão garantida.
Tal encontro marcado me levou a ver o máximo possível de filmes indicados, o que não tem sido, convenhamos, nenhum esforço. Títulos sensacionais, cada um a seu modo, como Árvore da Vida, A Invenção de Hugo Cabret, Os Descendentes. Mas é sobre O Artista, de Michel Hazanavicius, que eu tenho que escrever. Primeiro porque é o tipo de filme, não vou mentir, que eu naturalmente resistiria em assistir: é mudo e em preto-e-branco. Prefiro os novos, os cheios de cor e de som, os futuristas, os contemporâneos.
Só que 10 indicações ao Oscar me lembraram que talvez eu estivessse cometendo uma irresponsabilidade. E estava. O filme conta a derrocada de um galã do cinema mudo, George Valentin, que não conseguiu se adaptar à grande transformação que o Cinema sofreu a partir de 1927: o som. Mas ao mostrar um bem-sucedido ator, irredutível diante de um futuro inevitável e prestes a ser explorado por jovens talentos, O Artista consegue ser a leitura de um fato histórico e a crise de qualquer pessoa. Ao mesmo tempo.
A identificação é a consequência mais fácil. Quem nunca se encontrou desestruturado ao ter que se adaptar a uma grande mudança? O impacto da chegada do som nos cinemas para os atores me lembrou o efeito da internet para tantas profissões. Quantas pessoas não resistem ainda à rede? Há quem abrace os novos desafios, mas há também os que se esforçam pra fazer tudo à moda antiga, quem deseje mesmo é que nada tivesse saído do lugar. Valentin me parece o símbolo da capacidade humana de se reinventar.
Outro mérito do filme é conseguir dar a real noção da grandiosidade que significou a chegada do som, quando hoje é comum sairmos do cinema meio mocos de tantos efeitos sonoros. E dentro disso fica claro que, muito mais do que um charme ou que uma simples homenagem aos primórdios da sétima arte, a escolha de fazer um filme mudo e em preto-e-branco foi totalmente consciente e acertada. Um momento bem simbólico no filme é o pesadelo de George Valentin, com a vida ganhando barulhos: uma colher que cai, as pessoas falantes, os ruídos do cotidiano.
E ainda assim, O Artista é muito mais. Tem um casamento em decadência e um amor enrustido, tem a rápida ascensão de uma estrela de Hollywood, tem uma relação fiel entre chefe e empregado, um cão que salva o dono, um “apostar tudo no que eu acredito”, tem muita metalinguagem. Ou seja, uma malha temática farta, um filme que preenche um pouquinho a alma de qualquer cinéfilo.

















“BANG!”. Essa é uma das cenas mais significativas do filme. Mostra que o som trouxe consigo toda uma nova gama de efeitos e possibilidades, mas que a arte não se ultrapassa. Sendo mudo ou falado ou em 3D, o cinema é apenas uma ferramenta que, quando bem utilizada, transforma-se em arte.