
Para viver de quadrinhos não basta produzir muito, produzir material de qualidade, é fundamental ter um bom mercado à sua volta. A trajetória dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon nos mostra que isto foi sempre muito claro para eles. Uma das estratégias usadas pelos irmãos para expandir o mercado de atuação foi tentar vender o peixe deles no maior e mais importante mercado de quadrinhos do mundo: o mercado americano. Desde o final da década de 1990, eles iniciaram suas viagens aos EUA para participar de convenções, fizeram tentativas no mercado de super-herois, assim como fizeram diversos outros quadrinistas brasileiros, só que o mercado de super-herois não deu chance aos gêmeos mas eles não se importaram e continuaram a tentar. Conseguiram se inserir em publicações de selos editoriais com enfoque alternativo e, a partir destas publicações, vieram as premiações como um indicador de que estavam no caminho certo. O resto da história é o presente. Hoje são artistas consagrados – na América e em outros países – e não precisam trabalhar num banco, por exemplo, para sustentar suas aventuras nos quadrinhos. Os gêmeos completaram a missão armados de talento, dedicação e perseverança. São os caras.



Moon e Bá fazem quadrinhos desde meados da década de 1990. Começaram produzindo pequenos fanzines autobiográficos e desde então vêm desenhando quadrinhos ininterruptamente. O fracasso na tentativa de entrar no mercado de super-herois Marvel/DC é hoje declarado como a melhor coisa que aconteceu para eles naquele momento. A porta na cara os levou para um outro caminho, que acabou consagrando-os nos últimos anos: o caminho dos quadrinhos de autor, que é um tipo de quadrinho onde o autor tem mais destaque que o personagem, onde o nome do artista é a referência, é o mundo do quadrinhos “arte”. Daytripper faz parte deste universo.
O gibi dos brasileiros foi lançado no Brasil em 2011, pela editora Panini, mas Daytripper aconteceu primeiro lá fora, em 2009, nos Estados Unidos, dentro do selo Vertigo, propriedade da DC Comics. O gibi foi publicado inicialmente dividido em 10 partes. Os americanos esperaram 10 meses para ter a saga completa em mãos. Nós brasileiros tivemos de esperar dois anos para tê-la por aqui em edição encadernada, história completa. Valeu a pena. O livro é um estrondoso sucesso e um excelente arrematador de prêmios. Trouxe para Moon e Bá o Eisner, Harvey e Eagle – importantíssimos prêmios americanos. O gibi também entrou na lista dos mais vendidos no New York Times.



O tema central de Daytripper é a vida. A vida e as mortes do escritor de obituários Braz de Oliva Domingos. Em 10 capítulos acompanhamos momentos diferentes na trajetória do personagem central, vivenciando seus amores, desilusões, suas escolhas, erros e acertos. Há momentos para vibrar e para chorar como de praxe nas grandes obras. Apesar de ter sido lançado inicialmente na América, a história do livro se passa no Brasil e traz personagens brasileiríssimos. O Braz é representado à imagem e semelhança do Chico Buarque. Também temos locações em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Ceará. É muito bacana perceber que os autores não fizeram concessões para publicar sua obra inicialmente lá fora. Isso tudo só os engrandece ainda mais. Apesar de ser um livro “americano”, Daytripper é completamente nosso e veio para coroar Fábio Moon e Gabriel Bá com o título de sensacionais “contadores de histórias”, em definitivo.



Caso você queira acompanhar a carreira de Moon e Bá, o melhor lugar é o site oficial 10 Pãezinhos. Vale a pena também acompanhar o blog onde eles escrevem com frequência.














Eu terminei de ler semana passada na Livraria Cultura, e quase passei vergonha tentando conter as lagrimas ao ler as ultimas palavras. Uma das coisas mais sensiveis e emocionantes que li nos ultimos tempos. Uma aula sobre a vida, e como ela deve ser vivida.