No final da década de 60, Bill Holt era o protótipo do american dream. Jovem executivo de uma multinacional, recém-casado, carrão na garagem. Um típico personagem da série Mad Men. Mas, quando passava na rua, em direção ao escritório, de terno, gravata skinny e gel no cabelo, uma coisa chamava sua atenção: aquela turma na calçada, de roupas coloridas e flores no cabelo.
Guerra no Vietnã, atentados em Wall Street, Kennedy e Luther King assassinados. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. O jovem Bill começou a questionar um monte de coisas. Gostava de Beatles e Beach Boys, mas nunca tinha pensado na música como opção de vida até conhecer melhor a obra de Bob Dylan. Bob não precisava de uma banda. Bastava a ele um violão.
Bill conhecia alguns acordes e começou a compor. Não demorou até chegar em Sunday Morning Sun, uma canção que ele considerou tão boa que poderia ter sido feita por Neil Young. Apesar das observações dos chefes sobre seu cabelo crescendo, ia muito bem na empresa. Em pouco tempo, seria promovido e transferido para outro estado. Mas ele tinha outros planos e resolveu jogar tudo aquilo pro alto.
Partindo de Revolution #9, dos Beatles, começou a se interessar pela música concreta de John Cage e outros compositores de vanguarda. Gostava da ideia de incorporar falas de filmes, programas de TV e telejornais à música. Daí nasceu o álbum Dreamies. Feito em casa, repleto de colagens de sons, experimentalíssimo. No lado A, o Program Ten, uma dissecação das partes de sua Sunday Morning Sun, costurado por blips, blops e timbres analógicos de um sintetizador Moog. No lado B, o Program Eleven – experiência semelhante com uma canção chamada The User.

Com os contatos da época em que era executivo, conseguiu lançar algumas cópias do disco, que começou a tocar em algumas rádios moderninhas e chamou a atenção de empresários do show business. Contrataram Bill, colocaram anúncios do disco na Rolling Stone e programaram uma série de shows. Sua carreira musical, no entanto, não durou muito. O que Bill queria era gravar disco. Viajar de cidade em cidade para tocar não era muito a dele. Até porque levar o disco pro palco era dureza.
Dreamies hoje é cultuado for fãs de sintetizadores analógicos e gravações independentes. Depois dele, Bill resolveu voltar a trabalhar de modo mais ou menos convencional. No final dos 70, abriu uma produtora de vídeo. Hoje mantém um site, o dreamies.com , onde publica vídeo-arte e algumas sátiras políticas. Tudo meio trash, por sinal. Melhor seria se ele tivesse continuado a gravar discos psicodélicos.













