Fernando Pessoa nos apresenta O LIVRO DO DESASSOSSEGO como sendo de outrem, escrito por outrem, e ele próprio como um mero mensageiro das palavras alheias. Palavras de um indivíduo dotado de poucos afazeres e de muita alma, que, por acaso, freqüenta a mesma taberna que Pessoa (ou melhor, a sobreloja de um lugar que se assemelha a uma taberna). Esse indivíduo é Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros em Lisboa e um dos heterônimos criados pelo escritor português.
A narrativa do livro é a mais parecida, estruturalmente, a um romance, embora a história ficcional não seja a preocupação principal do autor, que se detém sobre a psicologia do personagem-narrador, criando um dos heterônimos mais peculiares de sua obra.
“A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino?”
Bernardo Soares não tem amigos ou amantes. Viveu como se vive uma criança, sem preocupações sociais e com um rico universo interior. Busca o prazer na contemplação das pequenas belezas que o destino reserva às almas mais sensíveis.
“A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.”
O livro do desassossego é permeado de pensamentos existenciais, filosóficos, sobre a vida e nosso papel no mundo, mostra um Pessoa pouco preocupado com o apuro de estilo (não como Ricardo Reis, outro heterônimo ilustre) e o desenvolvimento da própria história. Afinal, se este pode ser considerado o único romance de Pessoa, ao mesmo tempo, é o que menos se parece aos clássicos russos e franceses que conceituaram o gênero. A história se mostra através das sensações narradas por Bernardo Soares. Pode ser aberto em qualquer página, sem perder a força ou o nexo; são reflexões fragmentadas, confissões, devaneios de alguém que respira e não sabe por que.
“Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma…”
A desilusão das palavras nos leva a questionar a própria literatura. A única verdade tangível é o tédio, e os esforços humanos para fugir da aridez dos conceitos é um esforço absurdo, sem sentido; a arte torna-se, assim, um mero instrumento para se propagar meias verdades que relativizam o sofrimento, uma mentira necessária àqueles que não conseguem desenvolver uma realidade interior rica o suficiente para viverem consigo próprios, sem o suporte das representações forjadas.
“Não tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não conseguir ser.”
Fernando Pessoa criou diversos heterônimos aos quais deu voz, vida e personalidade. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, entre outros, gozam, inclusive, de biografia oficial. Bernardo Soares é o meu preferido. Alguns o chamam de semi-heterônimo, por acreditarem que é o porta-voz mais pessoal de Pessoa, sendo uma fonte interessante aos que se detém no estudo do escritor português.
“Nunca amamos alguém. Amamos, tão somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos.”
O livro do desassossego é um dos textos mais bonitos que já li. Já disse aqui, em outra oportunidade, que ao lado de Alexis, esta é a obra com menos excessos, arestas, que já mergulhei. Pode ser lida de qualquer ponto. Nada é dispensável; tudo é essencial, da primeira à última palavra.
“Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. O romance é uma história que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”














“O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção… O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida?”