Y era um sujeito planificado. Tinha um relacionamento de dez anos dos quais dois eram de casado. Arquiteto de ofício e de renome na cidade. Ainda não tinha filhos porque planejava tê-los no próximo ano. Cortava o cabelo a cada quarenta e cinco dias. Do seu salário, guardava metade na poupança ou em algum investimento de baixo risco, indicado pelo gerente bancário. Viajava com a esposa a cada seis meses. Acordava às seis da manhã e dormia às dez e meia da noite. Fazia exercícios regularmente. Barbeava-se todos os dias. Não ingeria carboidratos depois das dezoito horas. Vestia camisa tamanho dois e calça quarenta. Gostava de romances policiais e best-sellers, trilogias e revistas semanais. Lia o jornal diariamente. Sabia a diferença entre protetor solar e bloqueador solar. Comprava em lojas cujos vendedores o conheciam pelo nome. Não tinha motorista porque valorizava a própria liberdade. Votava na centro-esquerda. Sonhava em comprar um apartamento à beira-mar. Gozava de muita juventude e energia; era dedicado e amoroso.
Uma noite, remexendo suas coisas, achou uma foto. “10-09-84″ escrito no verso. Na imagem, Y, recém-nascido, nos braços de sua mãe. Uma outra época retratada num pedaço de papel. Os carros que já não se fabricam, as roupas que já não se vestem, os cabelos que já não se usam, as pessoas que já não estão. E pensou que todo o presente é definitivo. As gerações pensam sobre o futuro, não o passado. Vivem na crença de que foram os primeiros e os melhores.
No dia seguinte, não fez a barba; chegou atrasado ao trabalho; passou o dia aéreo. A semana. O mês. Viver já não era igual. A perspectiva relativizou suas crenças. Imaginou que poderia fazer melhor do que tinha feito até então. Julgou severamente sua vida como sem sentido e vazia. Deixou de cultivar as amizades e de dedicar-se à mulher. A arquitetura, antes defendida com fervor e paixão, foi relegada. Passou a ler livros, antes considerados estranhos, em busca de uma voz. Trocou o dia pela noite. Começou a beber com frequência. A esposa, no momento de abandoná-lo, perguntou por que. “Nada é real, nada nunca foi real”. Começou a escrever compulsivamente. Queria contar a própria história, refazendo-a. Não as infinitas horas sem sentido no escritório ou as datas comemorativas com a família. Não, nada disso. Queria contar a verdadeira história sobre quem ele era. Estava convicto que as respostas residiam nas lembranças remotas da infância, quando era ele mesmo e mais ninguém. Y começou a ser visto pelos cantos, sozinho, de cabeça baixa, rabiscando no papel algum pensamento. Às vezes saía do restaurante sem pagar a conta, por esquecimento. Os garçons, com pena, iam atrás dele. Pediam educadamente que voltasse ao estabelecimento. Y sempre atendia com um sorriso, sem saber do que se tratava. Perdia peso e as roupas ficavam frouxas. Tinha aspecto de pedinte.
Alguns meses depois, foi encontrado, pelos antigos colegas do trabalho, num quartinho, em estado catártico. Y agora sabia da verdade. Que não era, nem nunca fora, um homem de futuro; que era e sempre seria, um homem de passado.














Interessante como tem tantos questionamentos em tão poucos parágrafos. Gostei muito.