
Nunca soube muito a respeito de transtorno dissociativo de identidade/Transtorno de múltiplas personalidades, a não ser por eventuais matérias jornalísticas e algumas referências fílmicas e/ou televisivas. Há algum tempo, por exemplo, venho acompanhando a ótima série United States of Tara (que acabou de chegar ao final em sua terceira temporada) cuja protagonista, vivida por Toni Collette, sofre do distúrbio.
Pois bem, em uma das muitas visitas a livraria me deparei com o livro Hoje eu sou Alice (Alice Jamieson). À primeira vista achei que teria alguma relação com o clássico de Lewis Carroll. Peguei para examinar e me surpreendi ao descobrir que se trata de um relato verdadeiro de uma pessoa que sofre do distúrbio. Comecei a ler e não consegui parar até chegar ao fim.
Forte e intenso, Hoje eu sou Alice nos leva a uma viagem vertiginosa ao mundo da autora que, ao contrário do País das Maravilhas, nos apresenta a uma realidade fragmentada e nada mágica. O relato reflete uma vida caleidoscópica formada por fragmentos dolorosos e, muitas vezes, inacreditáveis. Mas ainda assim, acreditamos. Sabendo do tamanho das atrocidades descritas, Alice Jamieson precisa repetir e reafirmar tudo o que vivenciou.
O transtorno dissociativo de identidade ou Transtorno de múltiplas personalidades se trata de um intricado mecanismo de defesa, elaborado por indivíduos submetidos a abusos físicos, emocionais e sexuais. Após enfrentar certos horrores algumas pessoas elaboram, de maneira inconsciente, as chamadas personalidades múltiplas a fim de enfrentar a situação. Enquanto uma ou mais facetas lidam com a realidade dolorosa, outra segue vivendo sem ter real consciência do que acontece.
Alice acabou desenvolvendo um caso complexo da doença após anos de abuso sexual. Ela, o irmão mais velho, a mãe e o pai constituíam uma família-modelo. Pelo menos para os olhos que miravam de longe, mas da porta para dentro da casa a realidade era diferente. Sem conexões verdadeiras e vivendo problemas particulares, cada membro da família era como uma ilha. Contudo para Alice o inferno era real. Desde os seis meses de idade ela sofria abusos do próprio pai. A situação se repetiu indefinidamente até a sua juventude.
Após a violação recorrente Alice nunca conheceu a verdadeira infância e, desde muito cedo até a vida adulta, teve que enfrentar os mais variados problemas físicos e psicológicos. Fissura anal, cistite, anorexia, problemas com álcool, depressão, problemas com drogas ilícitas e, infelizmente, a lista segue. Para se defender do que acontecia ela acabou desenvolvendo diversas personalidades, além de escutar vozes que a desprezavam e incentivavam o suicídio.
Até a juventude a própria Alice não fazia ideia do que acontecia. Tinha visões e pesadelos fortes sobre as violações, mas não conseguia enfrentar a realidade. Sofria brancos e, consequente, perda de memória devido a aparição das outras personalidades. Foi apenas com 24 anos, enquanto fazia seu mestrado, que foi diagnosticada com o problema. Mesmo depois dessa constatação a caminhada foi repleta de percalços. Foi e continua sendo extremamente difícil enfrentar a questão e procurar uma solução. Além de todos os problemas listados, ela ainda precisava lidar com a dificuldade de se relacionar e de criar laços com outras pessoas. Especialmente relações amorosas.
A narrativa é construída de maneira linear e pretende dar uma ideia ao leitor de como tudo aconteceu. Somos apresentados a fragmentos distorcidos e desconexos e acompanhamos o processo da autora na tentativa de descobrir o que realmente aconteceu e que consequências ela teve que enfrentar. Autora e leitor procuram ligar os pontos aos poucos, assim como a própria Alice teve que fazer.
É difícil e doloroso ler as minuciosas descrições das violações que chegam a tomar uma proporção inimaginável. Mas se trata de um relato em primeira pessoa de alguém que jamais conseguirá superar o que viveu. Uma pessoa que espera ajudar terceiros a perceber os sinais. Ela diz que pretende que o livro consiga ajudar outras crianças que possam estar passando por experiências semelhantes e que, se conseguir ajudar pelo menos uma criança já estará satisfeita. Sendo assim, é preciso se preparar e aceitar a insistência na repetição de certos detalhes. Acho mesmo que Alice precisa e quer realmente ajudar outras pessoas, além de registrar e exorcizar o que sofreu mostrando que foi real.
Enquanto literatura o livro não se destaca. Não espere uma narrativa elaborada. O valor da obra está no registro, no relato de alguém que compartilha experiências conhecidas pela maioria das pessoas, mas que ainda assim, não são muito divulgadas. E é isso que Alice faz. Compartilha. Desabafa. Fala sobre o inferno que enfrentou – e ainda enfrenta – em vida. Os abusos, as dificuldades, os bloqueios, as quedas, as tentativas de suicídio, as personalidades (JJ, Shirley, Kato, Professor, Jimbo…) e as conquistas. Um daqueles livros que você não consegue soltar, ainda que seja forte.














Eu adorei Sybil de Flora Rheta Schreiber. Que conta a história da mulher que, até onde eu sei foi o maior caso de multipla personalidade. Ela convivia com 13 pessoas dentro dela…