A nostalgia pelo avião marcou a vida e a obra de Saint-Exupéry. Em O Pequeno Príncipe presenciamos um piloto que é forçado a pousar no deserto e acaba por conhecer um garoto misterioso que parece ter como ofício fazer perguntas e não responder nenhuma. A aviação para o autor é deliberadamente romântica, uma fuga contra a perspectiva limitada do mundo: é liberdade, imensidão, silêncio.
“O império do homem é interior”
Em Terra dos Homens também lemos sobre aviões e desertos. Percebe-se a atração que exerce o deserto com o relato vibrante de homens que se dispõem a sobrevoá-lo sob o céu estrelado das noites frias, movidos apenas por um desejo de liberdade e de vida, contrário à insegurança das máquinas primitivas do período entre guerras, que mais se assemelham a latas voadoras, esperando o mínimo desleixo para caírem como pedras.
“Entretanto, amamos o deserto. Se no começo ele é apenas solidão e silêncio é que não se entrega aos amantes de um dia.”
O momento da pane e do pouso forçado nas areias do Saara transforma o medo, até então potencial, em realidade. O deserto passa a ser tangível, não apenas belo, mas mortal, e o homem, um animal que busca evitar a extinção.
“Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte.”
O miolo do livro é a sequência da queda do avião, a sobrevivência, a consciência do homem no deserto. É o corpo que perambula pelas dunas quentes e a consciência que grita, não mais por ajuda, porque não tem forças, porque é inútil, mas pelo sentido e beleza perdidos pela necessidade fisiológica de água. Os devaneios do esgotamento, a saliva sólida, a mente se dispersa em pensamentos sem importância, como levada pelo vento, sobre a água, a sua função, o porquê de ela existir.
Então o desespero cria idéias extremas, pensa-se no óleo do avião. Talvez com os olhos fechados, com força de vontade, com imaginação. É líquido, como a água, não deve ser diferente. O gosto horrível, de fuselagem, o estômago apertado, agredido, a vontade de morrer. Poucos segundos para ter vontade de morrer, é preciso encontrar vida, levantar-se, continuar andando pela paisagem uniforme, conseguir ajuda, encontrar água, o corpo ainda quer tentar. Existe vida em algum lugar e é preciso encontrá-la. Vida líquida. Não é nada demais, é só água, que por tanto tempo sempre esteve disponível, não deve ser difícil.
“A sede é cada vez mais uma doença e cada vez menos um desejo”
Antoine de Saint-Exupéry morreu durante uma missão de reconhecimento na Segunda Guerra. Nunca acharam o corpo, apesar de relatos de pessoas que teriam visto o acidente e inclusive de um soldado alemão que supostamente teria alvejado o avião do escritor francês. Quanto mais mistério melhor. Talvez ele tenha caído no deserto e sobrevivido por milagre; que passou dias sofrendo e planejando uma saída; que quando já nem conseguia andar apareceu-lhe um menino de cachos dourados e pediu que lhe desenhasse um carneiro.














Tu sabe onde está o teu livro? Uma dica: Está mais proximo de mim do que de tu. hahahha