
As últimas semanas não foram exatamente produtivas. Li dois bons livros, retomei alguns outros, reli Drummond, Caio Fernando Abreu, fumei uma centena de cigarros, passei três noites em claro e o resultado disso tudo é que eu não cheguei a lugar nenhum. Ok, vamos por partes. Falemos, pois, sobre os dois livros concluídos.
O primeiro, Maus, de Art Spiegelman, faz parte daquele meu mais novo projeto de ler HQs. Nele, o autor relata a segunda guerra mundial e o holocausto sob o ponto de vista de seu próprio pai, que é judeu, polonês, esteve em um campo de concentração e, pasmem, é preconceituoso. Não que eu dê muito crédito a prêmios literários, mas o fato de Maus ter ganho o “Especial Pulitzer” de 1992 já é bastante emblemático, visto que histórias em quadrinhos nunca foram levadas muito a sério quando concorrentes das ficções tradicionais, se é que eu posso chamar dessa maneira.
Também concluí Assombrações do Recife Velho, do Gilberto Freyre. São quarenta casos em que o sobrenatural é protagonista e tem Recife como pano de fundo dessas assombrações. Além disso, a obra traz excelentes ilustrações do curitibano Poty.
Eu tenho absoluta certeza de que esses livros dariam ótimas colunas dedicadas a eles. Alguém, inclusive, já deve ter escrito. E você pode apostar que são ótimas leituras. Mas, nesse momento, não me sinto à vontade para escrever sobre nenhum dos dois. Explico: Apesar do distanciamento crítico que tantos pregam por aí, eu acho que os livros bons e fantásticos também podem ter seus dias de chatos e enfadonhos. Não que seja o caso de Maus e Assombrações…, mas se você está com o aluguel atrasado, sem dinheiro pro cigarro, com dor-de-cotovelo, cheio de trabalhos não concluídos, filho doente, etc., é provável que o seu julgamento sobre uma leitura seja comprometido por todos esses fatores externos. Às vezes a gente acha um livro péssimo quando, na verdade, o momento escolhido não tenha sido um dos mais favoráveis. E o contrário também acontece. É provável que a sua lista de livros favoritos tenha mudado ao longo dos anos, e isso aí nada mais é do que a mudança de percepção de certos elementos que antes passaram despercebidos, provavelmente por conta dos tais fatores externos. Ainda que existam aquelas obras definitivas (e que bom que elas existem!), muitas das nossas avaliações são circunstanciais. Todo esse discurso é pra dizer o seguinte: Pessoalmente falando, estou numa fase meio romantiquinha. E aí, minha gente, confesso que fiquei sem espaço pra falar de guerras e assombrações.
Caio Fernando Abreu me pareceu perfeito nesse meu momento um tanto “coracional” (é uma pena que ninguém tenha pensado nessa palavra antes de Drummond). Na verdade, eu reli muitas vezes um conto que nem de longe considero o melhor do Caio, e talvez por isso esteja na coletânea Ovelhas Negras, que, como bem sugere o título, reúne aqueles escritos “relegados a empoeiradas pastas dispersas”, como bem disse o próprio autor.
Pois bem: O conto chama-se Onírico e trata de uma mulher que, após sonhar com um homem dormindo a seu lado, passa a procurá-lo no real e no sono. Ela tenta dormir para, quem sabe, voltar ao sonho. Busca “pelos ônibus, nas filas de bancos e correios, elevadores, essência entre os pêlos, primeiro suor após o banho”, também não encontra. À medida que fui lendo, senti tanto pela ânsia (um quase desespero) dessa mulher que buscava não-sabia-bem-o-quê, a não ser a lembrança cada vez mais pálida de um homem “dos sonhos”. Pensei que ela fosse desistir, esquecer, ou melhor, pensei no que ela racionalmente deveria fazer. Mas não, “resistira sempre à ilusão de encontrá-lo um dia”, e, enquanto isso, fez o que se faz quando não há muita opção: seguiu em frente, esse conselho tão antiquado. O bonito é que o miúdo, o minúsculo preenche todo o conto, toda a vida dessa mulher. Uma lembrança tristemente bonita, só dela, dessa mulher que repete a si mesma:
“E se pudessem saber, os outros, todos saberiam que isso não deixa de ser uma vitória. Certa espécie de vitória. Mas tão dúbia que parece também uma completa derrota.”
Achei que a coluna de hoje não deveria ser dedicada a livro nenhum, só a essa mulher e ao(s) homem(s) dos sonhos. O que não é pouco.














“Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não consegurás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele(…)”. Adoro Caio fernando!!!
Qd puder leia “Morangos Mofados” dele.