
Daí que eu vi aquele livro de capa dura vermelha no meio de tantos outros. ‘M. Duras’ em letras grandiosas e brancas, será homem ou mulher? – pensei. Abri o volume e me deparei com a foto de uma senhora, o rosto destruído, ela dirá mais tarde. Não é que a gente vá julgar se uma leitura é boa logo pela primeira página, mas foi este o caso. Li a primeira e só pude sair da livraria após concluir a última página de número oitenta e três. Conheci Marguerite Duras assim: num só fôlego. Isto foi em 2008. De lá pra cá vieram muitos livros, alguns até melhores, eu diria. Mas a lembrança da descoberta, a leitura esfomeada que fiz de “O Amante”, disso não me esqueço. Faz dois anos que o releio. Faz dois anos que me espanto com o texto que quase sei de cor.
“Um dia, eu já tinha bastante idade, no saguão de um lugar público, um homem se aproximou de mim. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado”.

Eis as linhas iniciais. Pronto, foi o suficiente para eu querer entrar no redemoinho que é O Amante. Tenho a imaginação um tanto excêntrica e me visualizei numa cena digna de cinema com essa mulher destruída: Nós duas num café parisiense, fumando e bebendo (ela mais do que eu, de um modo, digamos assim, compulsivo); só se ouve seu belo sotaque francês me dizendo o que efetivamente foi escrito no romance. Quase consigo escutar, entre um gole e outro, Marguerite falando categoricamente “Muito cedo foi tarde demais em minha vida” para em seguida dar continuidade à narrativa. E então vem a escrita difusa, os fatos distribuídos somente pela lembrança dela, que, naturalmente, é uma completa desordem. Um livro de recuos e avanços, todos desarranjados. É como um quebra-cabeça, ela vai mostrando as peças, imagens lindas, suntuosas, mas soltas, sempre soltas. Quem é esse amante? – eu quase me atrevo a perguntar. Mas como ela não me dá brecha para questionamentos vou escutando o que me diz. Só depois de algum tempo descubro que é da China do Norte, um chinês rico. Ela me conta tudo num misto de erotismo e pudor, ódio e ternura, sempre em tom de confidência. De repente volta à sua vida recente, fala do filho, do que escreveu durante os anos, direciona a história por outros caminhos. Noto que ela só consegue contar deste modo, só consegue falar do passado de maneira cortada (“A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém”). Cita a própria mãe porque esta já morreu. Ela fala do que já não existe há muito tempo, são estilhaços de outros tempos.
Esse parágrafo aí de cima pode ser considerado um surto esquizofrênico, eu sei. Mas acho igualmente que possui um bocado de lucidez. E digo isto porque ler O Amante é ouvir Marguerite Duras contando sua história, e, se ainda não disse explicitamente, sim, a história é absolutamente autobiográfica. Por isso que faz todo o sentido pensar numa leitura/conversa, leitura/desabafo etc. Obviamente que a autora não cede a todos aqueles lugares-comuns típicos de quem se propõe a literalizar os fatos reais; Duras executa com maestria a difícil tarefa de contar os acontecimentos da própria existência sem cair na armadilha de transformar sua literatura em um diário repleto de melodramas pessoais. Emprestei esse livro a um amigo e ele disse assim: “é um livro com muita verdade e lirismo”. Pois é isso mesmo. Eu só acrescentaria mais um elemento: É um livro intenso (e se ‘intenso’ não fosse tão cafona no superlativo, eu usaria sem medo de exagerar).














Bem me lembro Marininhe que foi tu que me apresentaste a Marguerite e a “O amante”. É um livro absolutamente marcante, sem dúvida. Duras nos afunda no seus sentimentos de tal forma que por horas chegamos a nos confundir se os sentimentos são de fato dela, ou nossos. Não sei bem a razão pela qual mesmo com todas nossas conversas literárias – curiosamente – nunca conversamos muito sobre este livro. Mas agora sem dúvida aproveitarei nosso próximo encontro pra engatar um papo desses. hahaha Ficou excelente o texto.
Beijos,
Cami