Escritor ultra-romântico brasileiro falecido aos 20 anos de idade, Álvares de Azevedo conseguiu produzir um opúsculo do movimento: Noite na Taverna reúne histórias macabras contadas por homens autodestrutivos sobre o prazer, como atingi-lo e como viver em sua função. A morte é a constante de cada uma das histórias; estas sempre são trágicas e sanguinolentas. A inspiração na literatura européia evidencia-se nos nomes dos personagens – sempre europeus – e nos locais onde se passam as histórias narradas. Lord Byron, com seu Don Juan, é, sem dúvida, a referência literária principal do autor.
“– Oh! vazio! meu copo está vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou fogo do amor os borrifa de lava?”
Reúnem-se os homens numa taverna à luz de velas. É noite e chove. O vinho é a coragem dos que se confessam em suas histórias. O materialismo e o idealismo são pecados. Só o prazer é incentivado.
Solfieri, Bertram, Gennaro, Hermann e Johann são os personagens que alternam suas histórias enquanto a noite se torna madrugada. Morte, traição, catalepsia, incesto, tudo se faz presente. Porém, a necessidade de dotá-las do trágico e do sanguinolento gera uma repetição enjoada. A partir da terceira história o livro perde um pouco o elemento surpresa e o leitor se vacina das tragédias que estão por vir. Noite na Taverna lembra o seriado “Contos da Cripta”, famoso na TV americana e no Brasil, mas sem conseguir atingir o mesmo resultado. A partir daqui farei um breve resumo de cada história (o leitor que pretender ler o livro vá direto ao último parágrafo).
Solfieri conta que certa vez, em Roma, após uma bebedeira homérica, acabou por ver-se, sem saber como, em uma igreja. Dentro dela havia um caixão semi-aberto com um braço pendendo pra fora. Quando se aproximou percebeu que era uma mulher alva com os lábios azulados, como beijada pela morte. Apaixonou-se. Colocou-a sobre os braços e percebeu que reanimava. Catalepsia – esses corpos que morrem e não morrem. Levou-a consigo para casa. A mulher passou dois dias delirando sob seus cuidados. Por fim, morreu de vez. Solfieri construiu uma laje sobre sua cama e desde então tal mulher dorme profundamente sobre o sono dele.
Betram se autodeclara como o mais amaldiçoado de todos. Diz que se apaixonou por uma espanhola, mas teve de abandoná-la em razão do chamado do pai. Nunca conseguiu esquecê-la e retornou para buscá-la. Descobriu que ela se casara e tinha um filho. Amaram-se, então, na clandestinidade. Certo dia, a espanhola convidou-o a adentrar a casa em que vivia com a família. Estranhou. Ela mostrou o marido e o filho degolados e abriu um sorriso. Disse que agora nada os impedia; que viveriam felizes para sempre. Bertram acolheu-a em seus braços como se fosse pra sempre. Certo dia, como já não tinha moedas, apostou a espanhola no jogo. E perdeu. Sentiu-se mal e resolveu suicidar-se. Subiu no rochedo e lançou-se ao mar. Um marinheiro o salvou, mas morreu afogado no esforço. Era muito amaldiçoado. De qualquer forma, o comandante do marinheiro morto lhe ofereceu uma cabine na embarcação. Reparou com o tempo que a única – e bela – mulher na embarcação era a do comandante. Mas o pudor e o respeito lhe impediam de transgredir. A embarcação encalhou após um confronto com piratas. Na jangada sobraram três pessoas: a mulher do comandante, Bertram e o comandante. Bertram mata o comandante e tem relações com a mulher. Mata a mulher. É salvo por uma embarcação inglesa.
“Depois enjoei-me dessa mulher. A saciedade é um tédio terrível.”
Gennaro é pintor. Relata que nos anos da juventude freqüentou a casa de outro pintor, seu mestre, um tal de Walsh Este vivia com duas belas mulheres: a filha e a esposa. Gennaro começa a freqüentar, durante as noites, o quarto da filha. Engravida-a. Ela declara seu amor por Gennaro; este não corresponde; a filha extirpa o próprio filho do ventre e morre de desgosto. Gennaro começa a freqüentar o quarto da esposa de Walsh. Este, atormentado pela memória da filha recém-morta e já com conhecimento das traições de Gennaro, conduz o aprendiz à floresta e atira-o do penhasco. Gennaro milagrosamente sobrevive e retorna a casa em busca de vingança. Encontra o mestre e a esposa mortos.
Hermann é o mais romântico – no sentido vulgar da palavra. Seu relato não é dotado da mesma ironia dos outros, que se utilizam de certo humor macabro para dar vivacidade à tragédia. Relata, de forma folhetinesca e tediosa, o sentimento de amor por uma mulher que conheceu no turfe. Lembra um pouco o filme “Ata-me!” de Pedro Almodóvar, onde Bandeiras sequestra seu amor platônico na tentativa de fazê-lo se apaixonar por ele. Aqui ocorre o mesmo, com a diferença de que o sequestrador confere a opção à sequestrada de ir ou ficar. Ao final, vez mais, morte e sangue.
Agora é a vez de Johann. Conta que certa vez duelou com certo jogador por haver-lhe prejudicado o jogo no bilhar. Venceu o duelo e encontrou no bolso do moribundo um bilhete que marcava um encontro. Compareceu Johann ao lugar marcado. Num quarto escuro acaba por fazer sexo com uma mulher e matar um homem que mais tarde se revelam como a irmã e o irmão, respectivamente. Aqui há uma diferença das demais histórias, que acaba por conferir ao livro um final relativamente original. O autor mistura ficção e realidade. Deixe-me explicar: até agora não sabíamos se as histórias eram verdadeiras ou não, pois, como todos os leitores, somos apenas voyeurs, olhamos pela fresta o relato dos personagens. Procurando dar vida e realidade à atmosfera retratada, Azevedo traz dois personagens da história de Johann à taverna, em busca de vingança
Álvares de Azevedo em tudo se excede nesta obra: excesso de sangue, de álcool, de imaginação… mas talvez essa tenha sido sempre sua intenção. Azevedo é um ultra-romantico, não lhe interessa fazer uma obra equilibrada e ponderada. O prazer desenfreado, sem limites e regras é a tônica. O romantismo, como movimento literário, não busca fidelidade com a realidade; busca-a com as sensações pessoais do autor/artista. É inerente ao ultra-romântico o relato afetado e adulterado. O mundo não é uma foto, é um quadro e cabe a cada um preenchê-lo. Noite na taverna nos deixa tontos, enjoados, enojados e, por fim, aliviados.














Belo texto, Vicente. Fiquei bastante interessado no livro e vou atrás.