O Estados Unidos é um país vencedor. Até a década de sessenta gozavam de uma história quase imaculada. Havia vencido todas as guerras das quais participara e saído como herói. Esse não é o país retratado por Faulkner (1897-1962). Os Estados Unidos de Faulkner perderam a guerra, militar e ideológica, e vivem, desde então, na sombra dos vencedores. Vendo a parte de cima do país expandir as fronteiras, exportando seu way of life para o resto do ocidente, o sul acabou por se tornar uma região isolada, presa em seus próprios fantasmas e sonhos de grandeza de outrora, cada vez mais obsoletos diante da nova ordem liderada pelos ianques. É nesse contexto – de decadência – que Faulkner escreve e cria seu universo. É no sul dos Estados Unidos, uma região escravista e agrária e derrotada, que a tensão da história vai se desenvolvendo.
Luz em Agosto é publicado em 1932. É considerado como parte integrante da melhor fase do escritor americano, fase essa iniciada com O Som e a Fúria (1929) e encerrada com Palmeiras Selvagens (1939).
A prosa realista de Faulkner não é tão simples. A sensação que me dá, lendo os longos parágrafos descritivos, é a importância do momento. Faulkner escreve como se o momento fosse o todo da história, por contraditório que isso possa parecer. A narrativa é cheia de idas e vindas, flashbacks, é remendada. A consciência dos personagens é transportada ao papel da forma mais bruta possível, revelando as erupções e dilemas que afligem os mesmos, conforme a técnica literária chamada de fluxo de consciência. O livro é permeado pela cor amarela: o sol, a terra, a sequidão, a aridez, estão sempre como cenário dos acontecimentos
Lena Grove está grávida. O pai do filho saiu alguns meses antes em busca de um emprego para poder cuidar da família. O pai não volta. Lena Grove espera impaciente e decide ir atrás. Assim começa o livro e assim acabará. Lena Grove à procura do pai do filho que leva no ventre.
Byron Bunch é um árduo trabalhador. Não reclama do excesso de tarefas nem da aspereza dos homens. Cronometra o próprio período de descanso para não acharem que está roubando dinheiro dos seus empregadores. Conhece Lena quando esta vai ao seu trabalho perguntar pelo marido, pai de seu filho. Byron se apaixona de imediato pela figura perseverante e obstinada da mulher.
“Não era o trabalho duro que ele odiava, nem o castigo e a injustiça. Estava acostumado a isto antes de ter visto qualquer um deles . Não esperava menos, e por isso não se sentia ultrajado nem surpreso. Era a mulher: aquela bondade suave da qual se acreditava condenado a ser vítima eterna e que odiava mais do que a dura e implacável justiça dos homens. ‘Ela está tentando me fazer chorar’, pensava deitado frio e rígido na cama, as mãos atrás da cabeça e o luar caindo sobre o corpo, ouvindo o murmúrio constante da voz do homem como se ela subisse a escada para o primeiro estágio a caminho do céu. ‘Estava tentando me fazer chorar. Aí ela acha que eles teriam me submetido’.”
Joe Christmas é a força de atração do livro. O personagem trágico consciente de sua tragédia. Homem branco com sangue negro. O mistério de seu passado é a mola propulsora de toda a história e revela um caráter desarraigado e implacável. É apresentado a Byron como um forasteiro em busca de um trabalho, vindo não se sabe de onde, e acabando por encontrar emprego na serraria onde este exerce seu ofício.
Brown é falastrão e bonitão. Não gosta muito de trabalhar e acaba sendo colega de trabalho na mesma serraria de Christmas e Byron. Aquele e Brown se juntarão para contrabandear uísque.
Reverendo Hightower é alto, de rosto magro e gordura flácida localizada no abdômen. Conselheiro em assuntos pessoais de Byron, Hightower não tem mais nenhum vínculo oficial com os assuntos religiosos da cidade. Vive isolado desde o suicídio da esposa, a quem a cidade credita a morte à culpa do pastor. Ultimamente, perturba-lhe o espírito a chegada de Lena Grove e a os sentimentos que ela desperta em Byron.
Sr. e Sra. McEachern são os pais adotivos de Christmas. Oferecem a este um lar quando seus pais biológicos o abandonam ainda criança em um orfanato. O Sr. McEarhern procura moldar o caráter do filho com uma educação severamente religiosa, temendo que os gens negros de Christmas pudessem levá-lo a um futuro errante e promíscuo.
Sra. Burden descende de americanos que lutaram pelo norte na guerra civil. É considerada amante de negros por defender a igualdade e vive num casarão no meio do mato. É uma personagem silenciosa que sabe que vive em ambiente hostil. Christmas encontra refúgio lá e inicia uma relação marginal, de amor e ódio com ela.
O ponto em comum que consigo enxergar nos personagens de Luz em Agosto é como todos acabam sendo vítimas do destino, de forças alheias ao poder do homem (ou de um homem em particular), e acabam por ter sua condição moldada por essas forças imprevisíveis e inevitáveis. São como sementes levadas pelo vento.
“Às vezes parecia-lhe que uma noite de sono, no feno, numa valeta, embaixo de um telhado abandonado, seria seguida imediatamente por outra noite sem intervalo de dia, sem luz no meio para enxergar e poder fugir; que um dia seria seguido por outro dia preenchido com fuga e urgência, sem uma noite interposta ou algum intervalo para descansar, como se o sol não deitasse mas sim retrocedesse no céu antes de atingir o horizonte e refizesse o seu curso. Quando lhe acontecia de dormir andando ou mesmo ajoelhado ao beber de uma nascente, não sabia nem mesmo se os olhos se abririam em seguida com a luz do sol ou das estrelas.”
Faulkner era um homem tímido e simples. Gastava grande parte de seu tempo com bichos e camponeses. Não se sentia à vontade na cena literária da época, preferindo o isolamento à multidão. Não chegou a ser um eremita como Sallinger, já que por diversas vezes trabalhou em roteiros para Hollywood. Seus livros não foram grande sucesso de público, apesar de bem recebidos pela crítica. Pelo que eu sei, nunca acabou uma faculdade. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1949.














Deu MUITA vontade de ler.