
Golden Shower é um zine. Tem cara de revista mas é um zine: na essência, no cheiro podre, na atmosfera doentia, na liberdade que têm seus colaboradores, nas pitadas de sacanagem, nas nuances de escrotidão, no lirismo escatológico, nas alta doses de criatividade. Não há como não vincular o Golden aos tempos das publicações em papel xerox que cruzavam os ares pelos correios e nos inspiravam a tentar fazer o nosso também – porque parecia fácil. A semelhança pára por aí pois o gibi nada tem de descuidado ou feito às pressas. A edição é muito responsável, impressão decente, tudo no esmero… parece coisa feita por mulher! Opa, parece não, o Golden Shower é feito por uma garota, a cartunista e futura médica Cynthia Bonacossa, ou Cynthia B., como assina seus quadrinhos.
A moça convidou uma leva de autores e deu ousadia pra cada um destilar no humor fino, mordaz, sádico, negro ou mesmo escatológico. Temos colaborações de peso do udigrudi brazuca new generation (e outros nem tanto assim): MZK, Zimbres, Ota, Alan Sieber, André Dahmer, Fábio Lyra, Caco Galhardo, Arnaldo Branco, Gabriel Mesquita, Stevez, Elcerdo, Daniel Lafayete, Chiquinha e outros mais.



Eu conversei, via e-mail, com a dona do projeto.
Entrevista CYNTHIA BONACOSSA
Como está indo teu curso de medicina? Você quer ser uma médica cartunista ou uma cartunista médica?
Ai meu Deus! Que pergunta! O futuro é uma incógnita! Haha. Bom, no momento eu só quero terminar a faculdade e poder me dedicar aos projetos de quadrinhos que tenho. Se depois vou fazer residência não sei mesmo. Vai depender de como for ficar minha cabeça.
Quais quadrinhos participaram de sua formação? O que você lê atualmente? Quais seus autores preferidos?
Eu lia muito Calvin e Hobbes quando criança, meu pai comprava todos aqueles albuns. Também lia uma tira do jornal de HK chamada O Mundo de Lily Wong que adoro até hoje. Além disso sempre adorei a MAD. Li muito a Turma da Mônica, Luluzinha e tal. Mas hoje em dia eu tenho lido um pouco mais livros longos, os chamados “Graphic Novels”… Joe Matt, Chester Brown e Seth são ídolos dessa fase. Hoje em dia leio sempre as tiras do Allan Sieber, do Adão, Laerte, Lafayette, Rafael Sica… Ah, e descobrir (e depois entender) Fabio Zimbres foi quase uma graduação para um plano mais elevado de ser humano. Enfim, tem muita gente antiga e nova, eu tenho me lambuzado de HQ’s ultimamente, nem estou mencionando autores literários, acho que não foi a pergunta, né? Se quiser procura na lista da Golden Shower que tem uma boa parte dos meus autores de HQ favoritos.
Ler o GS e saber que tem uma menina por trás deste projeto nos deixa cheios de curiosidades a seu respeito. Freud explica suas motivações?
Não li muita coisa do Freud, mas dizem que ele explica de tudo, né?



Acompanhei de perto a movimentação dos zines xerox pré-Internet (até editei um chamado Canalha) e posso dizer que a presença de meninas no meio era bastante raro. O que te traz a este universo historicamente tão masculinizado e… escroto?
Eu sempre gostei mais de andar com meninos, sempre odiei frescura. Vai ver sou um pouco escrota também. E não é um universo em que se fique falando de futebol e coceira escrotal, conversamos sobre música, arte… homens de quadrinho não são tão MACHÕES, são artistas sensíveis que nem eu. Mesmo quando estamos falando de putaria.
A capa do GS 1 é carregada de doçura, pode ser confundido com um manual da Barbie ao mesmo tempo que transmite uma atmosfera irônica e de estranheza. Você pretende conduzir as próximas edições por este caminho editorial? (Está satisfeita com o formato conseguido neste número 1?)
Fiquei bem satisfeita com esse jogo da capa “inocente” com o conteúdo ahm… não-inocente? hehe. Mas isso não será obrigatório. A segunda edição tem a capa do Guazzelli que é linda e meiga até, mas de uma forma totalmente diferente e mais classuda. Mas se alguém fizer uma capa mais punk vou adorar também. Sem regras.
De que forma o projeto se sustenta economicamente? Como você lida com os custos de edição (os cartunistas são remunerados?), gráfica e distribuição?
Os custos foram todos bancados pelo meu pai. Por enquanto o dinheiro que entra da revista eu passo direto pra ele e agora que me formar vou quitar essa dívida. Mas os cartunistas não são remunerados. São muitos contribuidores e o que entra de dinheiro ainda não deu pra cobrir todos os gastos. Mas quem sabe no futuro? Se a revista crescer… a última coisa que quero é ser mais uma publicação exploradora mas por enquanto acho que a única explorada sou eu, hehe.
Que lições (de gestão e operacionais) o GS1 te trouxe e você gostaria e utilizar nas edições futuras?
A primeira coisa foi aprender a usar o InDesign! Uhu! Aprendi que gráfica atrasa pra burro, que tem que chorar o orçamento, que os cartunistas atrasam horrores (a não ser os mais velhos e cascudos que são incríveis e entregam logo no primeiro prazo), é, tem que ter 2 prazos… ou 3… Outras coisinhas que não vou lembrar agora mas que enquanto vou fazendo lembro “Ah! Isso deu m***, melhor fazer de outro jeito”… enfim.


Cynthia, qual sua opinião sobre o momento atual dos quadrinhos no Brasil? Você acredita que estamos em crise pois nas bancas só temos o Maurício de Souza e os quadrinhos nas livrarias são caros?
Nem de longe. O que você não acha nas bancas você encontra demais na internet. Qualquer pessoa pode ter acesso ao autor que quiser por blogs ou mesmo comprando revistas como a Samba, Beleléu, Prego e Golden Shower pela internet. Os livros são editados para serem objetos bonitos pois senão quem vai comprar aquilo o que você pode na maioria das vezes ver no computador de graça? No caso de livros maiores, bom, também não é o caso de vender numa banca… são livros propriamente ditos, e se estão caros é por que livros em geral no Brasil estão caríssimos. Claro que se você comparar com o mercado americano por exemplo, que vi recentemente, dá uma baita inveja do esquema deles, da quantidade de editoras, da qualidade das edições… Tem muito o que crescer no Brasil, mas por outro lado tem mais editoras interessadas, mais eventos e exposições, mais leitores…
O que é a Internet para os quadrinhos?
É a maior ferramenta de divulgação e aprendizado para um quadrinista. A quantidade de cartunistas que conheci pela internet é imensa. Mesmo os que não têm blog, você procura no google e fica sabendo muita coisa sobre o cartunista X ou Y. Ao invés de fazer um zine que você distribui para um punhado de pessoas na sua cidade, você pode fazer um digital que alguém lá na Dinamarca vai ler (especialmente se for mudo ou em inglês). E todo mundo está interessado em saber o que as pessoas estão fazendo então gera uma polinização incrível. Acho ótimo.
O “edital” de recebimentos de trabalhos de colaborados para a GS2 foi encerrado no site. A pergunta é: quando sai o gibi?
Sairá na RioComicon, em Novembro, que nem a edição passada.















êeee!