
“Tenho a impressão que um dos problemas é que incutimos na cabeça que o livro bom tem de dar trabalho pra ler”. (Nick Hornby)
Ok, devo confessar: sempre tive um pé atrás com histórias em quadrinhos. Pra mim, era só um desses tantos recursos de juntar palavras e ilustrações de modo que tornasse tudo “mais palatável” pro leitor. E, nesse caso, só era válido se se tratasse de livros infantis, os quais, aliás, eu devorei nos meus primeiros anos de “leitora”. Foi quando um grande amigo, a quem admiro sobretudo pelos gostos artísticos (mais especificamente os literários), me disse que eu deveria experimentar uma HQ. Ele, após me mandar o resumo da trama, sentenciou: “Se você não gostar de Fun Home, então pode desistir dos quadrinhos”. Aceitei a proposta logo depois de ler a sinopse. A história gira em torno do relato autobiográfico que a autora, Alison Bechdel, faz de sua intrincada relação familiar. Até aí ainda permanecemos no clichê, né? Relatos de famílias problemáticas encheriam uma estante facilmente. E você já deve ter visto por aí um bocado desses – muitos que não são exatamente empolgantes de se ler. Pois bem, o caso é que Alison e seu pai, Bruce, são homossexuais. Ela, quando resolve revelar sua orientação, descobre – pela mãe – dos muitos casos que o pai manteve com homens.

Depois disso, Bruce morre num estranho acidente. “A morte do meu pai não foi uma nova catástrofe e sim uma antiga, que vinha se desenrolando bem devagar há muito tempo”. A partir daí, Alison mescla momentos em família às suas próprias experiências de uma maneira pouco linear (os fatos não seguem uma ordem cronológica) e extremamente lúcida.
A obra é recheada de ótimas referências literárias (que você não precisa conhecer pra se encantar com a leitura) e de exposições que vão da maior seriedade descritiva (“Seus arroubos [do pai] de bondade eram tão ardentes quanto os de raiva eram sombrios”) até ironias cortantes de quem tem a habilidade de contar os fatos com muito domínio e pouquíssima auto piedade (“Se já houve uma bicha maior que meu pai, foi Marcel Proust”). E que fique claro: Fun Home não é um livro sobre homossexualidade. Eu não sei direito se posso dizer “É um livro sobre isto ou aquilo”, porque o que a autora nos oferece é uma exposição honesta dos fatos, numa tentativa de compreender ou apenas aceitar a incoerência de sua família. Alison reflete sobre o inevitável legado que os pais exercem sobre os filhos, mesmo quando o que eles mais querem – e até conseguem – é uma direção contrária.

As ilustrações são um caso à parte, devo dizer. Embora a autora chegue a confessar que seus “dotes linguísticos medíocres não suportavam o peso de uma experiência tão plena”, e talvez se utilize de ilustrações para justificar essa suposta inabilidade de narrar só com as palavras, Alison consegue elevar seus desenhos de meros coadjuvantes da narrativa a uma parte fundamental e tão importante do livro quanto a palavra escrita. As sutilezas que escapam do texto aparecem ali, na disposição dos móveis ou numa testa franzida. E eu, já despida dos meus preconceitos, simplesmente não ouso dizer que a narrativa sobreviveria sem essas ilustrações.
Fun Home é, por fim, um livro divertido e prazeroso de ler, com uma história que pode não ter nenhuma semelhança com você, mas que é boa justamente por isso: porque consegue esse ar de universal que toda obra deve ter pra entreter e tocar o leitor. As histórias servem, na verdade, pra alargar a realidade da gente, algo como conhecer os vários mundos dentro do mundo, não?














Sem dúvida, seu amigo (eu) estava muito certo ao dizer que se você não gostasse de Fun Home poderia desistir das HQs. Ótima escolha para inaugurar a coluna que, aliás, tá muito boa. Mandou bem! E, ah, essa frase do Hornby deveria ser um mantra pra todo mundo.