A geração atual de adolescentes precisa de realidades transgênicas para se identificar. Harry Potter, Crepúsculo e outros do gênero, servem como espelhos durante o processo de forjamento da alma do jovem. Hesse é mais atual e guarda mais respeito pelo objeto de sua análise. Escreveu uma pequena obra-prima que analisa o começo e os meios do amadurecimento do homem A perda da inocência, o último esforço para preservá-la, a sensação de nudez da puberdade, o surgimento da autonomia intelectual, que acarreta a responsabilidade de escolher entre o bem e o mal, o certo e o errado. Mas Demian não é o nome do personagem central. Este se chama Sinclair. E é influenciado, em sua formação, por aquele, rapaz de convicção contagiosa.
“Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. (…)”
O desenvolvimento de Sinclair passa por diversos estágios. O sofrimento pelo desamparo no seio familiar ante a constatação de que existe um mundo exterior (mundo real) que é feio, é mau, e é regido por leis diferentes do seu; a coação dos elementos desse mundo com o objetivo de extirpá-lo da segurança e acolhimento do lar maternal – acabando por torná-lo um estranho em seu próprio ninho; o desligamento das origens uterinas e o mergulho em mecanismos de atenuação do peso moral da consciência, como o álcool e as drogas – Sinclair procura fora de si, dentro de uma política de rebanho, a sua identidade; finalmente, retorna ao mundo interior, não aquele puro e maternal, mas a um reconstruído pelo individualismo intelectual, do homem que pensa por si e acredita no que pensa.
“Mas vivo em meus sonhos e tu soubeste adivinhá-los. A maioria das pessoas vive também em sonhos, mas não nos próprios, e aí é que está a diferença.”
O florescimento da alma de Sinclair leva-o a desprezar as filosofias de rebanho. E aqui ganha lugar especial o Cristianismo, uma doutrina para os fracos da mente. O homem deve estar aberto ao destino, qualquer que seja ele, e não a compensações de ordem metafísica pelas dores da existência.
“Em toda a parte dominava a comunidade, o instinto gregário, a repulsa ao destino e o refúgio no recolhimento do rebanho.”
No último capítulo, Sinclair, convencido por Demian, encontra no embate militar o escape para sua filosofia do destino, e abraça-o como o germe de uma nova raça de homens, que não teme o desconhecido, guiando-se apenas pelos murmúrios do próprio sangue.
A força do Demian de Hesse está em traçar, com clareza, a psicologia conturbada da alma masculina em seu processo de maturação. A única pena, porém, é que, ao contrário da arte, onde as narrativas estimulam o diferente, o original, conferindo à história um sentido que ultrapassa os personagens, na vida, onde não existem pontos finais, os sentimentos frescos perecem diante da realidade repetitiva e opressora, que exige uma massificação na forma de ser, pensar e desvendar caminhos. O homem rende-se ao ordinário. Mais cedo ou mais tarde.
“E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de deseducação, ou preferindo-se, de reeducação do laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento – armas obsoletas com a hostilidade do mundo real – e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.” (Prefácio de Ivo Barroso)













