Eles dormem de costas para o outro, medindo distância nos vácuos da cama. Nas inquietudes do sono os corpos se tocam. Colam-se. O sono nesse quarto é a expiação da culpa. É nele que os corpos amam sem idade, pudor, intenções maquiladas, sexo. São nos movimentos atabalhoados da inconsciência onde se percebe serem feitos um para o outro. Os corpos gozam sem limites na ausência de alma, de vida, de vergonha.
Os olhos deles se enxergam no meio da noite. Ainda é noite. As costas de ambos viram-se. Estão de frente, estão vivos. No breu da madrugada ele enxerga o brilho espelhado da córnea dela. Os olhos carregados de dormência ainda deixam transparecer esse não entendimento a respeito do quarto, do que acontece ali. Ela espera uma resposta, um esboço de uma explicação; por que ela, por que ali, por que desse jeito. À espera dela segue-se a respiração dele, longa, pesada, sem pausas. Aos poucos o silêncio dele a seduz. Sob qualquer hipótese o silêncio. Tanto que com o tempo ela passa a confundir amor e silêncio.
Está amanhecendo. Sabe que não lhe resta muito. Ela vai embora, não é adivinhação, ela lhe disse várias vezes, ele recusou-se escutar até hoje. Mas hoje é diferente. Não só sua boca fala, seus olhos, seu espírito, tudo lhe parece estrangeiro, como se uma segunda pessoa tivesse se apossado daquele corpo, e passasse, por mera deliberação, a conduzir com perícia o fantoche da antiga.
O amanhecer se aproxima; sempre gozou dessa predileção, dessa agudez passional pelo escuro, pela lua, pela penumbra. Mas ultimamente essa tendência notívaga se tornara mais aguda e irrefreável. E junto com ela, novos sentimentos afloram-lhe; uma necessidade revisionista de voltar a um tempo que parecia esgotado por sua própria cronologia. Uma vontade inadiável de mergulhar na infância, de reconhecer-se através dela, de rever certos sentimentos fora de moda. A dormência do início da idade adulta parece estar por fim se dissipando, uma nova era se prenuncia. Memórias e recordações outrora sem valia voltam, involuntariamente, com força de pilares fundamentais na significação de seu ser. Percebe que as verdades inabaláveis em que sempre depositou crédito e crença não nasceram de grandes debates ou grandes doutrinas, mas do olhar mais virginal e despretensioso na espera da fila de um banco ou no parque durante o crepúsculo de um domingo que já nasceu morto e solitário. Uma infantilidade negadora de tudo. Destrutiva e impiedosa. Não vislumbra mais vida na ausência dessa infantilidade. E é entre a noite e a alvorada que acorda do sono da idade adulta. Sempre desgostoso consigo mesmo, só no calar da noite é capaz de lançar um olhar seguro sobre si, gozar de uma pequena satisfação de estar vivo; por algumas poucas horas fisgava o sentido daquele dia morto, e senti-se forte como um toro, capaz de tudo aguentar e de nada fugir. Aquele dia, diferente de todos até então e de todos ainda por vir, tem seu mistério desvendado. Quando acorda a jornada começa do zero, e toda a trajetória do dia vivido tem que ser refeita no dia por viver, pois o caminho é sempre diferente, com sinuosidades e obstáculos inéditos cuja experiência anterior de nada adianta para superá-los, e assim, sua fraqueza volta a ficar em evidência. O despertar é um eterno recomeço, o ponto zero, devendo ser adiado na medida do possível.
Ele acorda antes dela. Sente certo alívio. Não suportaria perdê-la desprevenido . A luz do dia esparrama-se sobre os móveis abaixo da cortina. Na mesa de cabeceira o copo de vinho remotamente suado; ao lado, o cinzeiro tomado de baganas e filtros de cigarro; a desordem das roupas pelo assoalho e braços das cadeiras, o quarto ainda parece viver o dia anterior. Oito e meia acusavam os ponteiros. Domingo. As pálpebras semicerradas, a cabeça pesada, os membros lerdos, vestígios de um sono não consumido. Não importa. Ele não aguentaria ser descartado novamente. Tinha de antecipar-se. Ele a abandonaria por uma questão de preservação, amor próprio, estima. Veste-se com a cautela de um equilibrista. Com o pé já na soleira da porta, tem um momento de fraqueza. Volta-se. Ela de bruços; a batata da perna escapava à coberta; o braço pendia para fora, o lençol correspondente ao lado dele, agora vazio, engelhado. É a última visão. A última visão que ela lhe ofereceria. Precária, a meia luz, mas querida e amada como solem ser as últimas imagens dos seres amados. Queria lembrá-la para sempre. Fecha os olhos com tamanha suavidade que a imagem ganha vida independente em sua mente, gozando de um prazer incomparável ao percebê-la já guardada na memória, com contornos tão verdadeiros. Agora podia vê-la, incrustada em sua mente, de olhos fechados, sempre que quisesse.
Gira a maçaneta e passa pela abertura. Saindo do quarto é recebido por uma torrente de luz. Com as mãos protege os olhos. Antes de largar a porta ele dá por falta à jaqueta. Com passos de pluma dirige-se até o local onde presume tê-la deixado pela última vez, abaixa-se, apalpa o assoalho, sente o tecido fofo e volumoso, agarra-o pela gola e joga-o por cima do ombro. Antes de fechar a porta certifica se ela ainda dorme. Ela dorme. Deixa o quarto. Resoluto de que nunca mais voltaria. Aquele quarto era o inferno, ao qual, ao fim e ao cabo, sempre acabava por retornar. Era difícil definir. Ele não conseguia, tentava por vezes, como forma de justificar-se, acabrunhar a representação daquele quarto. À distância, quando tomado de solavanco pelo devaneio, o espaço oferecido por aquelas paredes gozavam de um recanto especial, como um oásis isolado de tudo e de todos por sua redoma de vidro, sem qualquer fissura ou ponto de contato com o seu redor, uma existência particular, independente. Talvez justamente aí residisse o seu encanto. Todavia, quando procurava pelo oásis, quando entrava em contato com seu universo tão restrito, mas tão intenso tudo não passava de uma falsa representação, uma miragem, distorcida, volátil, responsável por feridas e tormentos arraigados tão profundamente em sua alma que ele não sabia como gritar, como se expressar. Ele não sabia como se expressar naquele quarto. Charmoso em perspectiva e nauseante quando vivido de perto.














Vicente,
Muito bom, achei o texto mais suave que os outros. Não sei se é porque parece que vc ficou mais distante dos personagens, nos outros, apesar da terceira pessoa tinha um quê de pessoalidade não necessariamente sua, um quê confessional. As descrições estão menores só compondo a trama psicológica mesmo, não sei se foi sua intenção mas a luta do agir com o pensar foi mais crua e transcendente acho que por isso a pouca decrição e a muita discrição sua. Para mim, foi uma cena noar sendo James dean Scarlet Johanson os personagens. Onde é este local de deleite?