Ela diz que ele está irritadiço. Ele diz não estar irritadiço. Ela diz que sim. Ele diz que não. Ele vai até a porta do quarto. Abre-a discretamente. Ela inamovível ao pé da janela, com os olhos rasos d’água. Ele diz ver uma senhora errante no corredor. Ela diz que deve ser a senhora Matilde, sua ex-vizinha, faz um ano, se matou. Enforcou-se depois que seu único filho saiu de casa dizendo que era o que mais desprezava no mundo. Que iria e não iria mais voltar. Que não era mais seu filho. Desde então a finada retorna na esperança de encontrá-lo com um pedido de desculpas ou um bilhete sem floreios: “Perdão”; “estou voltando para casa”. Ele diz que é absurdo. Absurdo é pensar que não ela diz. Ele vai até a cama. Repousa a nuca sobre as palmas das mãos. Ela vai a sua direção. Estende-se a seu lado. Pergunta se fazer amor com ele faz sentir-se mais jovem. Ela diz que ele é cruel. Ele diz que não é crueldade, é a verdade. Ela pergunta qual a diferença. Ele silencia; ela se cala. Ela toca a pele fina do sexo dele. Ele desliza o dedo sobre o dela. Ele diz não suportar esse seu olhar adiposo, grudento. Ela diz que perdeu a visão do toque, e perder a visão dos olhos seria inconsolável. Ele diz que ela só diz coisas absurdas. Ela pergunta se ele está arrependido. Ele titubeia. Ela renova a pergunta. Ele procura ganhar tempo: “de quê?”. De tudo, da indecência, ela diz. Ele diz que estava só; remenda com urgência: “muito só”, beirava o desespero. Ela pergunta se é possível duas pessoas se desesperarem juntas de solidão. Ele diz achar ser difícil. Ela insiste, como uma criança mimada e impertinente. Ele cede – diz que sim, é possível. “Como”, ela pergunta. Ele vira o rosto. Diz que não quer mais falar sobre isso. Ela se apóia no peito dele; a comissura da boca retesada, as bolsas dos olhos carregadas e as rugas da expressão da sua testa revelam uma aparência torturada. Ela o traz de volta pelo queixo. Sussurra que dela não precisa se esconder, que conhece a dor. A dor do exílio, da solidão. Da espera de alguém que não se sabe, não se conhece, que nem se devia esperar. Ela deita a cabeça sobre seu braço. Aos poucos, o torpor do sono. Ela adormece consumida pela escassez de palavras e falta de idéias. Ele a admira, mais, a inveja. Como ela renuncia ao mundo e a realidade pela mais leve sonolência. Ele não consegue ser assim. Ele não consegue ser como ela. O travesseiro lhe inflige prenúncios e perturbações irrecusáveis. Rememora o dia, a infância, arrependimentos… Por mais protegido e seguro em sua armadura, o leito, sempre lhe despe. O exercício da memória traz à tona recordações, lembranças e, comumente, como ônus da ousadia, sentimentos recalcados. De caverna em caverna, vai recolhendo pedaços de si, procurando, a cada reminiscência, montar um quebra-cabeça que desminta o que se tornou, encorajado por uma lufada de esperança de que, no embaralho das peças, o resultado seja outro.
Com zelo, retira a nuca do seu braço, oferecendo o travesseiro como descanso. Espicha-se. Vai até a janela. Chove lá fora. Não muito. O suficiente para um transborde dos transeuntes rumo aos toldos, tetos ou qualquer abrigo precário insinuado pelas fachadas irregulares dos prédios, bares ou cafés. Escurece. Já se nota a luz amarelada dos postes a iluminar as calçadas. O vendedor da barraca da rua fecha o estabelecimento com apenas uma das mãos, com a outra se protege dos pingos com um jornal dobrado. É fim de expediente. A cidade transforma-se. O ritual de passagem ao anoitecer – da vida mecânica à vida do prazer – reproduz um recital de rebuliços, gente, risadas e barulhos próprios do revigoramento das últimas horas do dia. O sol falece; as pessoas renascem. É na descontração das conversas, no toque gentil, na simpatia fácil, no contato caloroso que descamba o mau humor matinal, o sono mal dormido e a descrença na rotina. Os ares são propícios. Ninguém pensa no amanhã. Vive-se o agora. Os bares são os primeiros a lotar. A cerveja fecunda a disposição já germinada. O burburinho ganha uma nota uníssona, dá o tom, é a trilha sonora da felicidade descomplicada.
Estalos do corpo na cama desviam-lhe, por momentos, a atenção.
Volta os olhares à janela. Mais ao fundo um parque. As crianças brincam. Os pais, à distância, vigilantes; vez por outra interrompem a conversa, levantam-se do banco, proferem ameaças, basta a menor audácia infantil para o curso da brincadeira ser suspenso por palavras de ordem. Com a chuva, meninos e meninas marcham apressados para os braços das mães, já prontos a recolhê-los com a capa aberta, envolvendo-os como um casulo.
Volta-se para ela. Aproxima-se. Ela luta, tenta a todo custo permanecer acordada. Ele diz ser melhor assim, ainda é cedo, esperar a noite é mais conveniente. Ela não responde, inebriada, de pálpebras semicerradas, esboça um sorriso pueril em desdém à sua fútil preocupação, como se não houvesse nada mais no mundo digno de aflição. Ele senta no meio da cama, de modo a flexionar o grande colchão de mola envelhecido em forma de parábola. Ela apóia-se nos cotovelos, inclinando levemente o tronco em um esforço quase invencível. Por trás do lóbulo da orelha prende a mecha a cair nos olhos dela. O peso de sua cabeça afundou o travesseiro, deslocando o volume para as abas. Apalpa, vira o lado da fronha. Ela não agüenta, não se sustenta, o sono é um refúgio acalentador. Adormece em lentidão sob sua guarida. Ele acaricia sua face à altura da maçã do rosto. A pele tão lisa e delicada como a casca de certos frutos. Parece recém saída de uma fôrma de bolo: frágil, quebradiça, vulnerável. É de uma brancura extraordinária: densa, profunda, de porcelana. “Oh Sasha… Por que você se enclausurou tanto sobre si mesma, por que se fechou tanto para o mundo, por que cometeu o meu mesmo erro? Pensei só haver um de mim e, para minha perplexidade, encontro a herdeira de uma timidez tão obscena quanto a minha”.
Apaga a luz do quarto e acende o abajur. Deita na cama. Não pensa em nada. É um privilégio não pensar em nada, poucos se dão conta. Gostaria de ficar assim eternamente. Deixar a mente vazia, inflexível a qualquer tipo de raciocínio ou memória. Nunca invejou pessoas inteligentes. Inteligência sempre lhe pareceu sinônimo de dor, de conflito, de combustão. Quando falavam: “ah, fulano é tão inteligente…” só lhe vinha à cabeça a figura de uma alma confusa, em constante movimento para livrar-se da imagem dos outros sobre si, ou então, para arquitetar uma sem respaldo na realidade. A leveza foi o único atributo perseguido por ele; brilhantismo, esperteza, intelectualidade, perseverança, sempre lhe pareceram uma luta contra a corrente. Não deixava de admirar, vez por outra, pessoas que, por tais características, queriam deixar sua marca no mundo, mas apenas se apaixonava por seres de uma absoluta falta de peso. Como se a vida fosse um passeio onde todas as idéias e doutrinas humanas não fossem mais que um ornamento do cenário, como o crepúsculo, uma árvore, uma montanha podem vir a compor uma paisagem.
De repente, uma paz de espírito. Sente-se imerso em um sonho tão tranqüilo, quase celestial, não em seus propósitos ou moral, mas no bem-estar físico proporcionado. Enclausurado naquele quarto, ele goza a impressão de estar em outro lugar, ao ar livre, desprotegido contra uma ventania a rebentar sua tez molhada, secando-a docemente, dispersando as partículas de seu rosto pelo ar. Os poros de sua pele chupando a água, os cabelos esvoaçados, o frescor facial… Com essa sensação melíflua vai conquistando as etapas do sono.
Dormem profundamente.














Vicente,
Este anel de vidro, frio mas que não une, um círculo que se fecha em si. Pelo menos assim me pareceu. Ele adora ser só, por isso admira a solidão dela e do ambiente de uma distâcia calma e segura apesar das tensôes.