Não consegue enxergar-se. Esforça-se, mas não consegue. “cadê você, quem é você?”. Dirige o punho ao espelho embaçado pelo vapor do chuveiro. Fecha-o e abre-o com velocidade. A água acumulada em seus dedos nodosos salpica a superfície do vidro fazendo caminhos como fios de saliva. Passa a mão até a imagem ficar nítida. Vê-se. Vai distorcendo aos poucos. Aos poucos embaça outra vez. O cabelo molhado, pesado, colado a testa. A pele avermelhada pelo calor do bafo. Apóia as palmas na quina côncava da pia. Faz um movimento angular com o queixo e observa a barba fechada e selvagem. O relógio digital marca 11:27. Ao lado, o bilhete aberto e embocado como um sino. Senta-se na privada sem tirá-lo de vista. Pensa no tédio dos últimos tempos, depois não pensa em nada. Veste com lassidão a mesma roupa, sem enxugar-se. Lembra do compromisso de ir a biblioteca pegar um livro. Os compromissos são necessários nessas fases de isolamento que beiram à loucura, porque acabam adquirindo uma importância que nos fincam à realidade. Nota que o volume do corpo ocupa menos pano. Emagreceu muito nos últimos meses. A fivela do cinto corre mais solta; a camisa sobra pelos lados. Percebe o algodão umedecer. O azul da camisa vai escurecendo, conforme a água é absorvida pelo tecido. Sente uma fraqueza. Sai do banheiro quente e abandona-se de costas no catre. Fica ponderando que tipo de livro poderia lhe despertar interesse. Sempre gostou dos policiais e das pistas e dos enigmas. A sua respiração vai ficando lenta, sonolenta. Sente as costelas como se descolando da pele. O ruído da hélice do ventilador parece cada vez mais difuso, até misturar-se por completo com os outros sons – som nenhum. Esforça-se por estar desperto. Então, desperta. Em seguida o torpor vem com força redobrada; já não ouve a respiração nem a voz da consciência dizendo-lhe para não cochilar.
Abre os olhos. Já é fim de tarde. Escurece. O quarto apagado é uma grande sombra no dia que se põe. Lembra que devia estar triste, mas não a causa da tristeza. Agoniza-se. Sente-se infiel consigo, traído pela memória. “O bilhete” relembra. E as palavras impressas naquele papel lhe voltam à mente de forma lancinante e a fazem funcionar vertiginosamente. Retorna arfando ao banheiro, ao bilhete. Acolhe-o com as mãos, como se fosse um desconhecido. Mas já o tinha lido por tanto tempo, e por tantas vezes, que se sentiu estúpido ao tê-lo em posse.
Tinha chegado àquela cidade para ficar três dias. Acabou ficando três meses. Meses de absoluta reclusão para conseguir refazer-se de tudo o que ela o fez passar. E hoje, tudo dela irritava-o. Desde suas repostas reticentes com o único propósito de parecer misteriosa, interessante, até sua maneira de gesticular com as mãos enquanto falava. E se vestia com um bom gosto displicente para forjar uma imagem de intelectual. Mas tinha uma qualidade especial ela: a de fazê-lo sofrer. A angústia que sempre o acompanhou, que nasceu com seu nascimento, parte de seu temperamento natural, adquiriu proporções inéditas nos tempos de convivência. Já não vivia senão para a angústia. A angústia de ser rejeitado, a angústia da solidão, a angústia de não se suportar mais. Era uma angústia autista, que não se sente responsável por nada, por ninguém, cujo único risco é apodrecer-se pelo seu próprio egoísmo. Mas agora, apesar de estar mais só do que nunca, sentia-se revitalizado, novo.
Anoitece. O calor da manhã cede a uma brisa mais fresca durante a noite. Vai até a sacada que dá para a varanda. Observa o céu constelado e limpo. Acende um cigarro, e com a ponta vai queimando as beiradas do bilhete. Pela última vez aquelas palavras aparecem vivas e latejantes: “Por onde você anda, com quem você conversa? Me sinto tão nua e fria como uma gruta de onde saem morcegos”. Sentiu certo prazer quando o papel virou cinzas, um desapego edificante. Mas percebeu que ela nunca ficaria sabendo desse sentimento; era um prazer que morreria com ele. Era preciso fazê-la conhecer, entender. Que o claustro e o silêncio são entidades masculinas. Que ele se sentia orgulhoso por ter a convicção de isolar-se, recuperar a autoestima de outros tempos, de tempos melhores. Que ele não era o fraco que ela conheceu. Era preciso dar-lhe uma resposta. E foi com essa intenção que abriu a gaveta em busca de caneta e papel. E com essa intenção foi à cadeira. E com essa intenção começou a escrever.
De repente sentiu na mão um suar frio seguido de uma cãibra paralisante. E de tão súbita, apenas permitiu-lhe redigir: “me espere na plataforma, tô voltando”.














Vicente,
Como sempre muito bom texto, tava sentindo falta e é sempre bom ler suas palavras causticantes.
O que mais gostei no texto foi como o cara pensa que controla sua vida de sofrimento e reclusão e tenta justificar esse estilo de vida como escolhas maduras e consciênte pelo sofrer, mas que na verdade a causa do seu sofrimento é externa e fora do controle dele. No final quando ele descobre isso, continua sofrendo mas se sente vivo. A atmosfera rarefeita do plano é massa.