
Onde você esteve entre 1998 e 2006? Ou melhor, o que você experimentou, descobriu e vivenciou durante a sua adolescência? Dos 10 aos 18 anos para ser mais específica? Festas, namoros, romances, amigos, brigas, escola, vestibular, planejamento, viagens… Uma infinidade de experiências que contribuíram para a formação de quem você é hoje. Como seria ter todo esse tempo – o seu tempo – privado de você? E se a sua própria vida e a possibilidade de passar por experiências comuns e até mesmo banais para a maioria das pessoas fosse simplesmente negada a você? Pode-se imaginar e refletir a respeito, mas a jovem austríaca Natascha Kampusch, foi obrigada a descobrir tais respostas.
Aos 10 anos Natascha percorria o caminho da sua casa até a escola sozinha pela primeira vez, vivenciando um misto de emoções. Estava chateada por ter discutido com a mãe no dia anterior e, por isso, havia saído de casa sem se despedir. Também estava aterrorizada e insegura com a novidade de decidir que caminho seguir até o colégio e com a possibilidade de assumir tal controle. Mas, apesar de tudo, Natascha tinha certeza de que precisava vencer o medo e dar esse passo para que, no futuro, conseguisse chegar à plena e tão almejada independência. Foi justamente nesse momento de vulnerabilidade e emoção que a garota foi arrastada para uma van branca pelo desconhecido Wolfgang Priklopil que viria a aprisiona-la, durante quase uma década, como uma escrava particular, submetendo-a a torturas físicas e psicológicas até a sua fuga, oito anos depois, durante um breve momento de distração do sequestrador, em 23 de agosto de 2006.

O que leva alguém a ler uma obra como essa? A resposta mais provável a essa pergunta é a necessidade de saber o que verdadeiramente aconteceu, o desejo de descobrir como um ser humano é capaz de passar por tudo isso e ainda sair lúcido de uma situação tão absurda e, principalmente, a vontade de compreender – ou pelo menos tentar entender – como um indivíduo é capaz de brutalizar outra pessoa dessa maneira. Aviso de antemão: essa compreensão não será completamente esclarecida, mas questões serão levantadas.
Enquanto obra literária 3096 dias deixa a desejar. A narrativa é demasiadamente simples e por vezes repetitiva na necessidade de explicar e frisar questões relevantes para a autora. No entanto, isso não é tão importante no caso em questão já que a provável motivação do leitor vai além da literatura. Trata-se do relato de uma sobrevivente realizado por suas próprias mãos. Além da memória, Natascha recorreu a anotações e diários que manteve durante o tempo em que foi mantida em cativeiro.
Dividido em 10 capítulos, a autora inicia a narração em um período de sua infância em que foi muito feliz. Fala ainda sobre os problemas familiares despertados pela separação dos pais, seus traumas pessoais, suas dificuldades com a família e, em seguida, aborda o sequestro e o período em que esteve aprisionada. Fala sobre a relação que precisou desenvolver com o sequestrador, sobre as torturas a que foi submetida e a prisão psicológica que foi ainda mais forte do que a física. Isso fica evidente quando ela narra ocasiões em que esteve fora de casa com o sequestrador. Temos acesso a muitas informações, mas o que chama mais atenção é o fato de Natascha conseguir permanecer firme. Durante o cativeiro chegou a tentar suicídio, mas na maior parte do tempo soube se manter sã, ainda que tenha sido espancada, psicologicamente torturada e forçada a realizar trabalhos pesados. A garra extraordinária de Natascha começa a se evidenciar desde muito cedo. Ainda no início do cativeiro foi capaz de dizer ao sequestrador que o perdoava. Também soube planejar e refletir sobre seu futuro, a partir do momento que resolveu se dedicar aos estudos com o pensamento de que não queria estar totalmente perdida quando finalmente saísse daquele pesadelo.
Natascha escreve como se falasse a um amigo. Seu relato transparece a necessidade de esclarecer o que realmente aconteceu durante o período mais obscuro de sua vida. Reflete a vontade de assumir o controle do seu próprio passado e mostrar como nem tudo é absoluto e que até mesmo ações e pessoas cruéis (e também as solidárias) são repletas de nuances. Mostra ainda o desejo de uma jovem de falar a verdade. Falar essa verdade mais alto do que as mentiras difundidas por uma parte da mídia que chegou a deturpar informações sobre o sequestro, a fim de pintar um monstro ainda mais asqueroso para a sociedade. O livro mostra ainda a necessidade de Natascha de se firmar como ser humano e não apenas como uma vítima “coitadinha” que não entende o que aconteceu. Natascha precisa falar mais uma vez na esperança de chegar a um ponto final. Isso acontece de maneira natural, por meio de relatos e descrições necessárias, mas sem exageros ou sensacionalismo.

Wolfgang Priklopil cometeu suicídio logo após a fuga da jovem. Sua versão nunca será ouvida. Mas Natascha segue lidando com seus fantasmas e assumindo o controle do seu presente e, principalmente, do seu passado. Tenta pôr um fim ao sofrimento que extrapolou os anos de cativeiro e que se expandiu até à exploração midiática do seu caso.
225 páginas que absorvem completamente o leitor do início ao fim. Páginas que nos transportam ao cativeiro no subsolo, completamente afastado e escondido do mundo e que nos expõem ao sofrimento interminável a que a jovem foi submetida durante a adolescência. 225 páginas que provocam e fazem pensar, mas que ainda assim, não são capazes de traduzir com exatidão os 3096 dias infernais vivenciados pela autora. Resta torcer para que a página seja virada.














Tu sabes que vai me emprestar esse livro, né?