abro os olhos
sento
a sola dos pés no assoalho
levanto
os ossos das pernas, das juntas estalam
vou até a cozinha
abro a geladeira
a saliva árida cola-se no gargalo da garrafa
à espera do líquido.
ouço o ponteiro dos segundos do relógio.
a luz da geladeira me perpassa e
ilumina a parede às minhas costas,
onde está pendurado o calendário
no mês de fevereiro;
estamos em setembro
vejo um vulto mais escuro
do que a escuridão habitual da madrugada
me diz que o calendário está atrasado
digo que me falta tempo para acompanhar o tempo
me pergunta porque eu faço tudo em silêncio
por que eu sofro em silêncio
por que eu sou feliz em silêncio
digo que toda tentativa de contado com a realidade
que fiz foi um desastre
tenho uma vontade íntima de gritar
o vulto diz que me conhece
e sabe que eu tenho vontade de gritar
mas eu me sinto submerso em uma piscina
onde não há grito
não há eco
onde o desespero é mudo
e os vivos continuam demasiado vivos
gozando de sua condição
e eu à busca do eterno
no transitório
enquanto o vulto me julga com suas mãos
entrelaçadas e dedos inquietos
droga,
não sei por que comecei esse maldito poema














Vicente,
O silêncio é sublime, os devaneios e reflexões que ele produz são extasiantes quando bem apreciado. Como também nos permite ser espectadores da vida,nos olhos como que uma tela wide screem de um eterno filme do qual não participamos.Só conseguimos, no entanto, nos vê através das ações, quebrar o silêncio é deixar de ser espectador é a forma melhor de pelo menos buscar respostas.
Desculpe se parecer pseudo-intelectual, como diz Rick, mas o eterno é o transitório, quando apanhamos os fatos transitórios como eternos ou eternamente repetidos eles passam a ter outra dimensão. É como se um sol iluminasse a escuridão em que as coisas estão imersas. Não existe eternidade fora de nós.