
Belo dia pra ir à costureira. O dia azul e amarelo dava certinho com o vestido novo em que acordei pensando. E lá me fui rebolando pelo bairro até a loja de tecidos. Uma que existe desde o final do século passado, imagine. Entro nas Casas José Araújo e aquele cheiro todo de pano recém-nascido me leva automaticamente à minha infância, final do século passado, imagine 2. Mais precisamente ao pé da máquina de costura da minha avó, onde eu gostava de brincar entre retalhos, restos de linha, chuva de babados, bordados, cianinhas, viéses, fitas, galões, botões e demais passamanarias. Um vendedor, com cara de que trabalhava ali desde que Michael Jackson era negro, Faustão era gordo e Xuxa tinha outra opinião sobre abuso infantil, me recebe com um sorriso. Eu retribuo com o meu, entregando a ele uma sacolinha. Dentro dela, um vestido bem velhinho, pra por favor, moço, tirar a medida enquanto escolho a estampa pra mandar fazer outro igual. E eram tantos desenhos que fiquei viajando entre um grafismo e outro. O que no caso de uma pisciana se traduz em um transe individual catatônico, efeito Mandrake. Lá longe ecoava a voz do vendedor: “Senhora…” Eu lá: xadrez? Listrado? Floral? Geométrico? Abstrato? Retrô? Eita! Tem de bolinha! “Senhora…” Eu em outro planeta, me lembrando de quando circulava na mesma loja com minha avó quando era pequena, brincava de esconde-esconde com minhas irmãs entre os tabuleiros, corria alisando os tecidos, pegava os bastões de metragem escondido e fazia de conta que era um cavaleiro Jedi. “Senhora…” E quanto mais “ Senhora” ele falava, mais eu, paralisada, só escutava e cantarolava o jingle do comercial daquela loja em homenagem a uma santa que passava antigamente no intervalo do Vale a Pena Ver de Novo: “Senhora da Conceição, minha mãe, minha rainha… As Casas Zé Araújo fazem essa louvação…” Até que o vendedor decidiu ser mais enfático e se aproximou com o meu vestido velho e uma calcinha idem na mão: “Senhora? Isso aqui, por acaso, também lhe pertence?”. Nossa Senhora, me faça sumir.

Flavinha Marques é redatora, mochileira, pisciana, rubro-negra e ambiciosa. Nasceu em Pernambuco, mas sonha em ser dançarina no Pará.














EHEHEHEHEEHEHEHEHE, Flavinha q vacilo. eheheheheheehhe