
Hoje é domingo. Eu bato na madeira três vezes. Tarde demais pra evitar. Ou cedo, já que, pra boêmio, dez da matina é madrugada. E lá vem a tv – despertador, gritando outra coisa igual. Pra me lembrar que hoje é sempre a mesma história: não tem farra, nem conversa, encontro ou surpresa que dure sem culpa até o outro dia chegar.
Sexta-feira é diferente. Dentistas saem mais cedo e os guardas de trânsito ficam distraídos, sonhando com a gandaia. Pura festa. É o habeas-corpus da extravagância. É a premissa para extrapolar o prazo, estar ausente, atrasar a vida. E como aquilo que foi planejado ainda vai acontecer, tem aquele mistério de livro fechado, que excita. Comum ao calor das preliminares.
Bom mesmo é viver o sábado, com seus churrascos, parques, beijos e comemorações. Pode ligar o som no último, que o síndico viajou. Relaxa, vai cortar o cabelo, fazer a unha, escolher praia e festa pra ir. Roupa nova é a cara do sábado. Chinelo velho também. Muito provavelmente, foi esparramado numa rede nesse dia que alguém inventou que sete é o número da perfeição.
Mas é só a madrugada cair, que eu acompanho o desfalecer. Vem na memória, brigando por espaço na frente, tudo o que minha alma hedonista insiste em adiar. Se parar pra pensar é pior, porque vêm então, em fila dupla, as contas e os horários, o médico e o trabalho, o vestido e o disco que não lembrei de entregar. Perturbam os recados e as tarefas, o computador e a pia aberta, nada que se possa procrastinar ao amanhecer.
Aí o dia fica assim, um fim faltando coragem de começo. Zero sal. Zero gás. Preto-e-preto. Branco-e-branco. Tem gente que logo cedo vai pra missa e reza só pra espantar essa assombração. O domingo deve ser triste porque é um sábado sem personalidade, com inveja da segunda, que lhe roubou seu status de primeiro lugar. Ainda bem que só aparece uma vez por semana.














Parabéns 02 vezes…