Arte: Christina Machado
Eu passo sem banheiro limpo, eu passo sem leite com chocolate de manhã, eu passo até meses sem comprar nada incrível se tiver economizando em nome de uma causa maior, mas eu não passo sem paixão. E quando eu falo de paixão, não é de estar necessariamente envolvido com alguém, qualquer alguém. Não falo de, em um ato de desespero, saquear o primeiro caminhão da humanidade que vire só pra não ficar sozinha. Falo da condição de acordar flutuando, virada pelo avesso, de ter por quem se desconcentrar. Enfim, eu falo da paixão, o sentimento, aquilo que tira o cidadão dos eixos.
Tem graça nenhuma botar a cabeça no travesseiro e não ter em quem pensar. Não ter motivo pra fazer cara de paisagem em uma reunião chata, pra levar algo diferente do supermercado, pra ter coragem de malhar, pra cantar bem alto, de olhos fechados e com as mãos pra cima, a música mais linda de Roberto Carlos num show do Del Rey.
Eu gosto tanto de estar gostando de alguém, que quando eu era pequena, na falta de uma figura interessante por perto, eu inventava uma paixão de bem longe, só pra não ficar com o coração sem graça, sabor chuchu. Isso quando deveria ser eu, o quê? Uma menina de seis anos, mais ou menos. Nessa idade, eu fiquei apaixonada pelo Daniel San do Karate Kid. Qual é o problema? Poderia ter sido pelo mestre, o Sr. Miyagi.
Tempos depois, foi a vez do Change Griffon, pra quem não sabe, um herói de seriado japonês dos anos 80. Mais platônico, impossível, mas naquela época eu acreditava que pra ser feliz bastavam os nossos encontros às quatro da tarde, em frente à tv. Não tinha lógica, nem havia grandes questionamentos. Eu apenas gostava dele e pronto. E por meu japonesinho carregaria uma bazuca gigante, venceria monstros e usaria uma roupa ridícula de super-herói toda trabalhada em lycra coladinha no corpo inteiro, em pleno calor infernal que faz em Recife (o que, por si só e pensando bem, anularia qualquer possibilidade de conseguir carregar uma bazuca gigante, vencer monstros e ainda sobreviver pra amar). Mas eu amava. Ou achava que amava. E como era bom. Simplesmente bom.
É, porque se apaixonar quando se é criança é bem menos complicado. Você gosta porque sim. Não tem previsão do horóscopo. Não tem relógio biológico. Não tem checklist. Idade? Trabalho? Inteligência? Beleza? Personalidade? Planos? Preferência musical? Coitada da paixão. No mundo adulto às vezes são tantas interrogações que ela fica tontinha e nem consegue florescer. Talvez porque depois de algum tempo de estrada, depois de algumas decepções, a gente começa a, sem querer, medir o retorno do que poderia ter de investimento do sentimento, quando o sentimento em si deveria ser o bastante, vir primeiro do que qualquer pergunta.
Ai se fosse, ou, como diria o poeta Zé da Luz, “ai se sêsse” mais simples o querer, leve e espontâneo como bate o coração de uma menina. Se bem que hoje que já sou uma mocinha, não vou ficar me apaixonando de repente por qualquer cara que apareça na tv, embora toda vez que eu veja Cauã Reymond pense em mudar de ideia. Mas quando olho diferente pra alguém, tomo como exercício calar o pensamento e dar ouvidos apenas ao que vem de dentro, ao que realmente importa. Saudade, desejo, admiração, bem-estar, amor – de cada um desses sabores é que é feito um coração “Apaixocólico”, que nem o nome de uma certa música de um cara que eu aposto que se apresenta assim: “ meu nome é Erasmo Carlos e estou há menos de um dia sem me apaixonar”.














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