
Cinza não é, definitivamente, mais bonito ou excitante que azul, mas um céu nublado também tem o seu charme. Alivia a luz direta e agonizante. Traz aconchego. Limita o suor e torna infinita a capacidade de autoclemência em casos de atraso matutino. Faz pensar: por que logo eu, que sou doida por praia, gosto tanto de chuva assim?
Gosto do som da água e da resposta da terra, em forma de perfume, como se agradecesse a batucada aquática que chegou de repente. Gosto de sentir o clima mudando e ficando delicadamente mais ameno. Gosto de botar um jazz de leve e fazer tudo no mesmo compasso das gotinhas escorrendo na janela. Gosto do conforto que vem do céu, junto com uma sensação de proteção.
Primeiro, porque me faz lembrar com saudade de Vovó Dorinha, que está cuidando de mim lá de cima. Era Dona Doralice que, quando eu era bem pequenininha, antes do primeiro trovão me chamava pra perto e me aquecia lá, entre o colo macio dela e uma colcha de chenile. Depois, porque, pense comigo: qual é o ladrão que vai querer levar um monte de eletrodomésticos na cabeça debaixo de um toró? Chuva é pra quem tem mais o que fazer.
Chuva é o convite para um abraço, um beijo, um cheiro, um dengo em forma de frio no aumentativo só pra ganhar um calorzinho do outro. É também a desculpa perfeita para puxar o cobertor do par sem piedade e sem o desprazer (ou com o prazer, pra quem é sadômasô) de levar um safanão.
A chuva atrai, a chuva acolhe, a chuva basta. É o tempero preferido dos amantes, que podem até dispensar o ar-condicionado e o som. Olha, toca, alisa, lambe, mexe, enrosca, vem pra cá, fica aqui no quentinho, meu amor. De conchinha, até nem perceber que o céu já mudou de cor.














Texto maravilhoso, realmente você tem O DOM,
A chuva atrai, a chuva acolhe, a chuva basta. É o tempero preferido dos amantes, que podem até dispensar o ar-condicionado e o som. Olha, toca, alisa, lambe, mexe, enrosca, vem pra cá, fica aqui no quentinho, meu amor. Adorei…