A linha que divide a narrativa ficcional com a documental vem se estreitando durante o passar do tempo. Essa divisão até pouco era bem definida – os filmes buscavam contar uma história, até mesmo biográficas, mas sempre com intuitos de levar o espectador a uma fugacidade da vida real; enquanto o documentário, em sua estrutura um tanto já determinada, buscava a aproximação do espectador com a história ali contada. Esses conceitos foram perdendo força e exemplos bem recentes estão aí para provar: são os filmes “Entre os Muros da Escola” e o documentário “Valsa com Bashir” (comentado aqui por Eduardo Rocha). Enquanto o primeiro cria uma atmosfera totalmente documental, o segundo faz um documentário utilizando técnicas de animação. As opiniões dos críticos sobre esse tipo de reformulação narrativa são bastante contrastantes. Enquanto alguns entendem como uma mudança natural, uma evolução do gênero; outros viram a cara. Obviamente, o que diz respeito aos filmes ficcionais que buscam um cinema-verdade - já que isso é feito desde o Neo-realismo italiano - não há o que discutir. Mas se referindo a estrutura do documentário, sou um tanto conservador. Não me agrada nem um pouco as influências de outros gêneros objetivando criar uma inovação narrativa.

E dois cineastas vêm levando a risca esse cinema que tenta fugir ao máximo da interferência técnica que o cinema adquiriu durante os anos. Deixando apenas a história ser contada pelos seus personagens e os acontecimentos serem os personagens principais, encontrando assim, a naturalidade necessária para compor as imagens e o realismo para se contar essas histórias. São os ingleses Paul Greengrass e Michael Winterbottom, especificamente dois filmes de cada. “O Domingo Sangrento” e o “Vôo United 93” do Paul Greengrass, e “O Caminho para Guantánamo” e “Neste Mundo” do Michael Winterbottom. Todos eles possuem essa similaridade de contar histórias verídicas fugindo de um padrão ficcional e abraçando um caráter documental. Eles apenas colocam a câmera para presenciar os acontecimentos e as histórias dessas pessoas. Tentando alcançar uma maior verossimilhança, não havendo assim uma interferência excessiva da montagem: aquela montagem dinâmica, cheia de cortes, ou até mesmo a cinematografia, com planos mais complexos. A câmera é o personagem principal que acompanha ou mesmo presencia aquelas histórias. Resumindo, o espectador também faz parte da história. Você também presenciou aqueles momentos.

“O Domingo Sangrento” do Paul Greengrass conta a história do lamentável incidente nunca esquecido pelos irlandeses e de grandes repercussões e conseqüências. Neste domingo, 30 de Janeiro de 1970, irlandeses promoveram uma passeata pacífica pela luta dos seus direitos políticos que foram negados pelo governo inglês. O governo não entendendo como pacífica, através do exército, os tratou como simples terroristas. O filme mostra essa manifestação intercalando imagens das pessoas da passeata com a dos soldados, e aí que se encontra a riqueza do filme: os sentimentos de vítima e algoz são equilibrados pelo filme, levando o espectador a se sentir tanto como as vítimas quanto os soldados responsáveis. O mesmo ocorre em “Vôo United 93”. Não há heróis e nem vilões, apenas simples pessoas com diferentes motivações.

O Michael Winterbottom vai além. Ele se aproxima ainda mais desse caráter documental, tentando fugir completamente da narrativa ficcional. Ele não quer apenas contar uma história, e sim fazer com que o espectador se sinta incluído na película, acompanhando todos aqueles acontecimentos. O “Neste Mundo” conta a historia de dois jovens que durante a guerra do Afeganistão resolvem tentar a vida em Londres. O filme mostra a trajetória desse caminho cheio de obstáculos. Do Afeganistão, passando pelo Paquistão, indo para o Irã, até chegar à Inglaterra. A câmera passeia ao lado dos personagens, como se suas sombras fossem. Nós somos as sombras e acompanhamos a esses jovens na tentativa de uma vida melhor. Já em “O Caminho para Guantánamo”, o filme se enquadra nessa nova reformulação narrativa do documentário citado acima, já que o mesmo adquire relatos das vítimas das torturas e injustiças do governo americano e seguidamente encena esses relatos. O filme é bastante poderoso porque mesmo presenciando as vítimas relatando os acontecidos, as encenações não perdem força por causa da incrível capacidade dos atores de absorverem as histórias contadas. As atuações beiram a perfeição.

Os filmes acima são histórias que aconteceram ou poderiam acontecer, e esses cineastas utilizam um estilo próprio que busca a aproximação do espectador com a história ali contada, e faz entender que a importância do cinema não é apenas criar um mundo fantasioso, e sim que a verdade não pode ser ignorada por mero capricho.
















Foda!!!! quero assitir esses ducumentários. Tu tem eles?