Jean Pierre e Luc Dardenne são dois cineastas belgas que sempre procuram respostas para o sofrimento das pessoas mundanas. Buscam reações adversas à realidade social que se encontram. Os valores morais são a principal arma da dupla para encarar a complexidade dos seus personagens.

Depois de serem reverenciados na Bélgica em 1996 pelo filme “A Promessa” (La Promesse), foi a vez do mundo ficar diante da genialidade e humanismo dos irmãos pelo maravilhoso e doloroso “Rosetta”; o filme foi vencedor da Palma de Ouro (Palme d´Or) no Festival de Cannes em 1999, desbancando consagrados cineastas como David Lynch (A Historia Real) e Takeshi Kitano (Verão Feliz). A Bélgica assim teria pela primeira vez o prêmio tão cobiçado do cinema. Seis anos depois, os irmãos Dardenne foram novamente agraciados com a Palma de Ouro pelo extraordinário “A Criança” (L´Enfant).

Mas foi mesmo em “Rosetta” que os irmãos Dardenne determinaram suas identidades cinematográficas e criaram uma proposta de implementar na forma e conteúdo dos seus filmes um realismo social brilhante. Os seus filmes seguintes, “O Filho” e o já citado “A Criança”, são exemplos dignos de uma maestria atrás das câmeras.
Rosetta é uma jovem que mora em um acampamento de trailers e não consegue se fixar em um emprego por muito tempo. Enquanto isso divide seu tempo em criar saídas para se sustentar e deixar a sua mãe longe das bebidas. Emilie Dequenne (prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes), em sua estréia como atriz, personifica a ambigüidade da personagem oscilando as atitudes entre o jeito ainda adolescente de se viver e as responsabilidades de um adulto imposta pelas circunstâncias. Esta oscilação é mostrada pela forma infantil que reage ao descobrir que foi demitida. Não entende ela como pôde ser demitida se trabalha tão bem. É como se uma criança estivesse sendo castigada por ter feito o dever de casa. Ela se deita no chão, foge dos seguranças – não quer sair. Em contraponto, é determinada ao colocar comida em casa, pagar o aluguel e ficar de olho na mãe, praticamente expulsando de sua casa um homem que arrumava para sua mãe bebida em troca de sexo.

A personalidade de Rosetta é determinante para que a história seja contada. Ela é dona de si e não leva desaforo pra casa. É mal humorada, não dá um sorriso qualquer. Como todo adolescente que é forçada a ser independente. Rosetta quer apenas ter uma vida normal. Ela não quer apenas sobreviver, quer ter uma vida de verdade. Enquanto alguns buscam aventuras, Rosetta busca a rotina de uma vida satisfatória, onde assim, possa ter tempo e espaço para outros pensamentos, quem sabe sonhos. E para alcançar isso, coloca na cabeça que a única forma para conseguir é arrumando um emprego, mesmo que tenha que passar por cima dos outros, trair aqueles que apenas queriam ajudá-la.

O mais brilhante na forma que os irmãos Dardenne filmam é a proximidade da história com o espectador. A câmera na mão passeia dentre aquelas pessoas como se personagens desta fossem. Esse realismo é alcançado pela ausência dos elementos que compõe o cinema atual: a montagem mais dinâmica cheia de cortes, a fotografia composta por planos mais criativos e iluminações mais trabalhadas, com intuitos mais artísticos. Jean Pierre e Luc Dardenne querem contar uma história real mesmo que esta não seja. Ao menos objetivam essa identificação do cinema mais simples e cru. Por isso da escolha de atores iniciantes ou mesmo que nunca trabalharam na profissão. Em “O Filho”, o mesmo acontece, o até então desconhecido Olivier Gourmet, nunca tinha feito um personagem principal – ele faz uma ponta como o chefe de Rosetta.

No filme em questão, os irmãos vão além, ele nos coloca não só dentro do filme, passeando por aqueles cenários e personagens, mas vivendo intensamente tudo aquilo que a garota passa. O cinematógrafo faz escolhas bastante interessantes. Sempre que pode coloca a câmera junto de Rosetta, quase como uma tentativa se tornar um plano subjetivo, querendo claramente que enxerguemos tudo o que está passando com a personagem. Nós não somos apenas participantes do filme e sim sua sombra, suas angustias, suas dores.
Esse realismo nos deixa surpreso por estarmos tão acostumados com o cinema atual e suas mirabolantes histórias e formas de serem contadas. Seguindo uma lógica cinematográfica parecida com a de outros dois cineastas (já descritas nesse outro texto), os ingleses Michael Winterbottom (“Caminho para Guantanamo” e “Neste Mundo”) e Paul Greengrass (“Domingo Sangrento” e “Vôo United 93), os irmãos Dardenne procuram documentar um momento de uma vida ordinária, sendo esta o elemento mais importante da sua historia. E nos fazer parte disso é o objetivo a ser alcançado. Esta reapresentação fiel e direta da realidade nos faz lembrar o Neo-Realismo Italiano de Vittorio de Sica, Roberto Rosselini e Luchino Visconti.
No final das contas, Rosetta continua perdida, tentando equilibrar os seus desejos com a sua realidade e sempre buscando uma solução para seus problemas.
“Rosetta” é um filme emocionalmente devastador sobre dor, decepções e sofrimento e que às vezes uma jovem tão sobrecarregada merece apenas poder chorar.
*Texto originariamente escrito para o Concurso de Críticas Cinematográficas da Alliance Française Recife.














magão,
faltou vc dizer que o texto não é inédito e que é ganhador de prêmio.
Abração.