
“Rien ne distingue les souvenirs des autres moments: ce n’est que plus tard qu’ils se font reconnaître, à leurs cicatrices.”
Embora a princípio não pareça, a ficção científica é um gênero extremamente humano da arte. Por trás do choque com tecnologias avançadas, viagens no tempo, inteligência artificial e alienígenas, existe quase sempre um pedido de socorro à humanidade, uma tentativa de despertar a consciência de todos para os caminhos que podemos e devemos tomar. Frequentemente, este caminho é dado através de uma visão distópica e apocalíptica do futuro. De livros como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a blockbusters como Blade Runner, Matrix e A.I. – Inteligência Artificial, a ficção retrata numa humanidade destroçada um resquício da grandiosidade perdida pelo homem e que jamais será recuperada em sua totalidade.
Como parte desse universo, porém tão rico em suas peculiaridades que distancia-se de todas as outras obras do gênero, destaca-se o documentário de ficção La Jetée, realizado em 1962 pelo francês Chris Marker. O curta-metragem, com 28 minutos de duração, foi quase totalmente montado com fotografias estáticas, que passam em poucos segundos ao ritmo pausado da narração. Apenas um breve momento do filme apresenta movimento captado pela câmera, um abrir de olhos.
Plasticamente, as fotografias são um espetáculo à parte. Mesmo se retiradas do contexto do filme, as imagens tem grande valor estético e em 1996 foram lançadas em livro pela editora Zone Books, esgotando-se rapidamente. Uma segunda edição foi então lançada em 2008.

Contando a história de um homem que ainda criança fixa-se na lembrança do rosto de uma mulher no instante em que presencia a morte de um homem num píer do Aeroporto de Orly, o filme passeia por uma fictícia Terceira Guerra Mundial, que destroi Paris e deixa a maior parte da superfície do planeta inabitável em decorrência dos altos níveis de radioatividade. Num futuro não muito distante, os vencedores da guerra realizam experimentos de viagem no tempo com os prisioneiros, na tentativa de encontrar auxílio no passado ou no futuro para a sobrevivência do presente. Após inúmeras tentativas fracassadas, que resultam em morte ou loucura, os cientistas alemães localizam este homem dentre milhares, justamente por sua fixação numa imagem do passado, e o enviam ao tempo de sua infância, onde tenta localizar a mulher que nunca esqueceu.
A partir daí o filme foca nas sutilezas da memória e do sentimento humano. Reconhece-se o lugar. É o mesmo, porém diferente. Encontra-se então o familiar rosto do passado, que é o mesmo, porém diferente. A relação que se estabelece entre o casal é tão estranha quanto a facilidade com que ela o aceita como seu espectro, sem duvidar ou procurar entender, porém é tão profunda e real quanto o amor pode ser. O passado, a lembrança, o sonho, torna-se a vida e o presente não existe mais.
Uma vez estável em sua relação com a viagem no tempo, o homem é então enviado ao futuro, onde enfim encontra os meios necessários para salvar a humanidade de sua própria desgraça. A partir daí ele torna-se descartável para os que salvou e em uma tentativa passional de escapar do tempo, encontra seu próprio fim no momento que jamais esquecera.

Assim como nas outras obras citadas, em maior ou menor escala, o futuro apocalíptico de La Jetée é apenas o plano de fundo de uma análise da verdadeira essência humana. Não é um filme de guerra, violência, morte ou destruição. É um filme de sentidos e sensações, de percepções e amor. Mais do que isso, é uma tentativa de nos fazer entender e valorizar essas riquezas, que, quando ignoradas, trazem a perspectiva de um futuro nada promissor.
Como parte do enorme legado de La Jetée para o cinema, em 1995, o diretor Terry Gilliam adaptou o curta para o longa-metragem de ficção Os 12 Macacos, creditando Chris Marker como roteirista. O filme, que conta com os atores Bruce Willis, Madeleine Stowe e Brad Pitt, é bem mais confuso em sua falta de linearidade temporal e perde um pouco do foco, dando espaço para tramas paralelas. Ainda assim, a mensagem sublime de Marker está presente e mostra que a memória deixa cicatrizes que não podem se esconder no tempo.
*Texto apresentado na disciplina Crítica e Cultura Contemporânea, com a Profa. Dra. Ângela Prysthon, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.













