Em cima da mesinha da sala de estar encontra-se aberto um álbum repleto de recortes de jornais e revistas, e todos eles falavam da relação conturbada dos mesmos personagens. Os anos iam se passando e os personagens continuavam figurando na primeira capa dos periódicos.
Bárbara relembra o quanto tinha medo das histórias que seu pai contava. E ali estava ele, sentindo o peso da idade, mas cortando mais uma noticia e completando aquele álbum empoeirado. Gordon suspira, como se também fosse personagem principal de toda aquela história. E óbvio que a imprensa estreitava a linha limítrofe que os separavam.
Nesse meio termo, a campainha toca e, enquanto Gordon rastreia dentre as suas memórias sentimentos escondidos que parecem adormecidos, Bárbara vai prontamente atendê-la. “Deve ser a Colleen, nós temos aula de ioga hoje à noite”, fala. A porta se abre, e Bárbara imediatamente reconhece aquele sorriso amarelado e os olhos repletos de loucura. “Quem é?”, exclama Gordon, e o som de um tiro é apenas o que ouvimos. Ele e seus capangas adentram o apartamento e de imediato acertam Gordon fazendo-o cair no chão sem poder respirar. Bárbara com um buraco na barriga feito pelo revolver 38, não agüenta de dor. Como se isso não fosse o suficiente, pegam a garota e praticam atrocidades quem nem eu mesmo as consigo descrevê-las.
Seu plano: Deixar Gordon, comissário de Gotham City, tão sedento por vingança que então sua sanidade suma perante todas aquelas ferocidades.
Motivo: Ser o responsável por fazer com que as pessoas aflorem os seus sentimentos mais escusos. Ou melhor, ser ele mesmo, O Coringa.
Essa passagem é descrita em “A Piada Mortal”, graphic novel escrita por Alan Moore e publicada em 1988. E mesmo que a história seja distinta, foi daqui que Christopher Nolan retirou a essência para o seu Coringa. O Vilanismo do Coringa não se concentra no dinheiro e nem mesmo na extinção dos seus inimigos, e sim na criação do mais puro e completo Caos. E através deste aflorar nas pessoas uma maldade que para o Coringa é apenas a base de toda nossa sociedade. Utilizando a essência deste personagem tão bem retratado por Alan Moore, Heath Ledger dá vida a um Coringa que é a expressão de um medo um tanto incógnito, mas que deixa sua marca impregnada em cada frame da película. Durante todo o filme somos transportados a um universo tão aterrorizante e frenético que a única brecha para um suspiro é ao final dos créditos. Mas a ambientação de terror aqui utilizada não possui influências na Gotham sombria, suja e fantasiosa de Tim Burton, e sim na idéia de uma Gotham crível e real, podendo ser qualquer metrópole do mundo. E essa estrutura é determinante para que a história seja sentida por completo.
“Batman – O Cavaleiro das Trevas” atinge um nível de maturidade que é pouco vista no cinema, especialmente em Blockbusters americanos. O ideal do Cavaleiro Branco é contrastado com a essência do seu próprio personagem principal, um vigilante noturno que usa as próprias mãos para atingir a vingança exata. E sentir esse conflito moral do Batman é a estrutura narrativa ideal para que a história seja contada. Essa busca é a grande motivadora do Cavaleiro das Trevas, o entendimento que sua missão já foi cumprida e que Gotham necessita de um legítimo “vingador”, alguém sem máscaras, que seja transvestido de esperança. E enquanto analisamos atentamente o Homem Morcego e suas aflições psicológicas somos apresentados a um personagem que ilumina a tela sempre que aparece, que nos dá ânsia a cada tique ou olhar. Igualmente ao graphic novel, não sabemos ao certo sua origem e logo após percebemos que esta procura não nos dará uma sequer resposta. O filme nos mostra o primeiro contato entre os dois, e deixa claro que a relação beira um entendimento mútuo mesmo que mascarado por rivalidade. O Coringa necessita do Batman, e este, mesmo que não assuma, se sente tão perseguido quanto o seu inimigo.
O Coringa cria o Caos simplesmente porque não agüenta a hipocrisia e as mentiras espalhadas pela sociedade. Ele sente a necessidade de libertar as pessoas desse falso bem estar, e colocá-las em Xeque, esperando que alguém apenas dê o Mate. Para que assim a sua piada tenha graça.

















Ainda deve existir em algum canto guardado na casa dos meus pais o meu exemplar de “A piada mortal” =D muito foda