
Há exatos dois anos morria um dos melhores atores de sua geração e com certeza um dos mais promissores: Heath Ledger. O seu poder interpretativo a cada filme ia se tornando maior, a sua mensagem comecava a ultrapassar as barreiras de Hollywood, mas infelizmente aos 28 anos uma overdose acidental lhe tirou a vida.
Se perguntar ao querido amigo e colunista d’A Prancheta, Vicente Masip, qual o personagem mais impactante do cinema recente, a resposta com certeza seria Sonny Grotowski (Heath Ledger) em A Última Ceia (Monster’s Ball, 2001). Aqueles 15-20 minutos em que Heath se encontra na tela é puro cinema.
O post de hoje é uma lembrança do ator australiano que deixou e deixa muita saudade. Um texto antigo que foi escrito na época de Brokeback Mountain:

Que John Wayne que nada!!
Desde que o mundo é mundo a homossexualidade existe. Desde a Grécia antiga há registros, e são vários, de comportamentos em padrões de normalidade. Infelizmente, na cultura contemporânea a homossexualidade tem sido, até então, a marca de um estigma. Sempre sendo tratados com certa marginalização aqueles que não possuem preferências sexuais de acordo com determinados padrões da moralidade. Como se isso pudesse ser controlado e colocado dentro de um “padrão normal”. Mas afinal, por que isso incomoda tanto as pessoas? Na Inglaterra, até há pouco tempo tal preferência sexual era considerada crime. E o interessante e positivo é que hoje a Inglaterra é um dos primeiros países que legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Por que identificar socialmente as pessoas por suas preferências sexuais? Por que nos interessamos tanto pela preferência sexual das pessoas, a ponto de julgarmos muito importante identificá-las sociomoralmente por este predicado? O interessante é ter consciência disso, e tentar de uma forma inteligente, possivelmente pela cultura, modificar a visão das pessoas sobre essa temática. Embora a cultura norte-americana insista em provar que o homossexualismo seja uma doença, as sociedades mais avançadas culturalmente têm tentado derrubar essa tese através da melhor forma possível.
E eu acredito que esta forma esteja presente na melhor arma contra a discriminação: a ironia, o sarcasmo, a crítica, o descrédito, a surpresa e o desprezo por tudo aquilo que lhe dá suporte. E o principal, o tratamento igualitário, a vida cotidiana, o simples e velho costume. Enquanto, os homossexuais sentirem que têm algo a provar, nada conseguirão. Ou mesmo, ao tentarem a todo custo uma demonstração de superioridade inexistente, já que no final das contas o que eles querem é sentirem inclusos e iguais, sem terem que ser taxados disso ou daquilo.

E Ang Lee, em “O Segredo de Brokeback Mountain”, acerta quando trata a história numa ótica de amor proibido, e não de uma forma esquemática, ou publicitária. Entre eles, a única coisa que importa é a vontade de estarem juntos, o amor que sentem um pelo outro e a dor de não poderem viver este amor como gostariam. Por que este amor é reprovável?
É aí que o roteiro, adaptado do conto de E. Annie Proulx é formidável. Esse amor é reprovável porque Ennis e Jack e vivem em pleno centurião bíblico norte-americano e são nada mais nada menos que cowboys. Figura mais masculina impossível. São então contratados para cuidar de um rebanho de ovelhas na tal Brokeback Mountain. Com isso, começam a se conhecer melhor, lamentarem as suas vidas e vão assim criando laços, mesmo que quase imperceptíveis. Ang Lee juntamente com seus roteiristas, toma um caminho muito acertado, a figura masculina não é quebrada. O filme destigmatiza essa idéia de gays = mulheres. Ambos brigam como homens, trabalham como homens, bebem como homens e fazem sexo como homens. A escolha sexual nada tem a ver com seus comportamentos. Essa foi a primeira genialidade da película.
O outro ponto positivo reside na delicadeza e sutileza que o relacionamento é mostrado de acordo como o tempo vai passando. Depois da 1° experiência na montanha, o espectador só percebe que ambos continuam se comunicando, quando Ennis ao receber um postal ler que Jack recebeu sua carta e que está chegando. Que por sinal, outro momento formidável é esse reencontro, que nada beira o clichê e demonstra a intensidade do relacionamento.

As atuações são absolutamente impecáveis. Jack Gyllenhaal, nada parece com o deprimente Donnie Darko. A sua paixão por Ennis e a vontade de encarar a sociedade, de declarar o seu amor é evidente. Já Heath Ledger, sempre mais calado, aposta num Ennis completamente cowboy. Quase não abre a boca, possui um sotaque bem mais acentuado, e diferentemente de Jack Twist (personagem de Jack Gyllenhaal), não consegue encarar e se libertar dessa sociedade discriminatória. Heath surpreende todo mundo não criando uma atmosfera tão dramática, deixando o personagem muito mais real. Os desejos de viver ao lado desse grande amor e a certeza que esse desejo nunca irá ser realizado é algo presente na sua interpretação. Heath, que já tinha encantado a todos em A Última Ceia (Monsters Ball), cria, sem dúvida alguma, um dos personagens mais bonitos do cinema atual. A sua capacidade de dizer muito ficando apenas calado é uma característica que poucos atores possuem, se tornando valiosíssima em filmes singulares como esse.

Outra abordagem muito discutida pelos espectadores e críticos é a idéia que, enquanto Jack é obviamente gay, Ennis não possui elementos que o classificam como sendo homossexual. Claro que isso depende do seu conceito de homossexualidade. Se o simples contato sexual com pessoas do mesmo sexo é ser gay, tudo bem, mas se for o fato de sentir atração por pessoas do mesmo sexo, Ennis não é homossexual. Enquanto Jack que possui outros relacionamentos, chega até a procurar casas de prostituição, Ennis só possui atração por Jack, e não se envolve com mais ninguém. O amor de Ennis por Jack independe do sexo. Homem ou mulher, o amor existiria.
Ang Lee faz um favor a essa sociedade mendiga, que precisa urgentemente ser feliz, mas faz de tudo para passar a perna em si mesmo. Essa obra prima merece todos os prêmios que conseguir, mas quem sairá ganhando mesmo, seremos nós.
















O que mais impressiona nesse filme
sãos os pequenos gestos de amor,
sutis olhares cúmplices,silenciosos
momentos de um sentimento real que
só se encontra em grandes amores.
Que importa quem são?