
De onde surgem os personagens? O escritor Osman Lins dedicou um livro inteiro ao processo de criação deles. Em Avalovara, por meio de perguntas ao leitor e respostas, eles vêm à tona da imaginação, da experiência, de lugares misteriosos até ganharem corpo (ou seriam palavras?) na narrativa do escritor. Em outras obras, no entanto, a origem tem nome e endereço. É o caso do genial Dr. House, protagonista da série norte-americana homônima House, M.D. Muitos fãs do programa, exibido pela primeira vez há sete anos, sequer imaginam que o médico rabugento foi inspirado em um personagem secular da literatura: Sherlock Holmes.
Pouco depois da estreia, o próprio escritor e roteirista do programa de TV, David Shore, admitiu que o investigador de Sir Arthur Conan Doyle foi o ponto de partida para chegar ao médico interpretado há sete anos pelo agora charmoso ator Hugh Laurie. Para os fãs do detetive, no entanto, a confissão de Shore é praticamente desnecessária: há vários aspectos semelhantes entre os dois personagens. “Elementar, meu caro Watson”, diria Sherlock.
O decifrador de crimes britânico não para de sair das páginas dos livros para outras mídias. Quando o cinema foi inventado, Conan Doyle tinha 36 anos e já era famoso. As inúmeras narrativas do escritor, que viveu entre 1859 e 1930, foram adaptadas cerca de 200 vezes para meios audiovisuais. Só para citar exemplos atuais, há a franquia de cinema Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr. e Jude Law, com o segundo filme em cartaz, e ainda a ótima série Sherlock, cuja segunda temporada terminou recentemente.
Diante desse leque de opções da adaptação, que caminhos terá escolhido o roteirista da série Dr. House para moldar um personagem a partir de um clássico como Sherlock Holmes? É possível encontrar pontos de convergência entre os personagens em questão, com base na comparação de amostras dos dois produtos culturais e usufruindo do apoio de alguns teóricos. No caso, as três primeiras temporadas da série para TV e os 11 contos do livro Memórias de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.
Talvez Shore estivesse lendo o conto O Tratado Naval ao decidir criar o médico responsável por atrair recordes de audiência na TV. No texto, Holmes conversa com o médico Watson, seu amigo e único companheiro, e num determinado momento, compara a investigação médica à investigação criminal:
“(…) Mas hoje deve ser um dia de interrogatórios. – Minha clínica… – comecei. Oh, se você acha seus casos mais interessantes do que os meus… – disse Holmes, com aspereza. Estava para dizer que minha clínica pode prosseguir sem mim muito bem por mais um ou dois dias, já que esta é a época mais calma do ano.”

Especulações à parte, o seriado é, antes de tudo, uma homenagem às histórias de Doyle, vide uma série de referências ao detetive na trama. A começar pelo nome dos personagens: enquanto o sobrenome do investigador lembra a palavra “home”, que significa “lar” em português; o segundo nome do médico Gregory House é a versão inglesa para a palavra de significado similar “casa”. O primeiro nome, provavelmente, foi tirado do inspetor britânico Gregory, que aparece em algumas histórias de Sherlock como um representante da polícia oficial da Inglaterra, a quem ele respeita.
Uma das ligações entre os personagens que os fãs mais gostam de citar é o número do apartamento de House: 221B; o mesmo que acompanha o famoso endereço do mestre da investigação dos livros: 221, Baker Street. A diferença é que o primeiro fica nos Estados Unidos, enquanto o segundo se encontra na Inglaterra. Outra característica em comum, certamente uma das principais, é a dificuldade de socialização: o detetive “raramente ia a algum lugar exceto por questões profissionais” (Conan Doyle) e considerava o médico Watson o único homem digno de confiança. No seriado, a primeira cena em que House aparece, no episódio piloto, é justamente ao lado do melhor amigo e conselheiro, Wilson – cujo nome faz referência ao parceiro de Holmes.
As palavras do próprio Watson poderiam descrever o médico House. No início do conto O intérprete grego, ele conta que Holmes produzia um efeito “a ponto de algumas vezes eu me descobrir tratando-o como um fenômeno, um cérebro sem coração, tão deficiente em simpatia humana quanto proeminente em inteligência. Sua aversão pelas mulheres e seu desinteresse em fazer novas amizades eram típicos do seu caráter emotivo”. A origem familiar do médico da TV é cercada em mistério e são raras as vezes em que ele se envolve com mulheres nas primeiras temporadas, embora faça constantemente piadas sobre sexualidade.

Com notável poder de observação, ambos são especialistas em suas áreas e se destacam pelo brilhantismo em relação aos outros profissionais. Antes de uma pessoa abrir a boca, Sherlock é capaz de deduzir uma série de informações sobre ela. O mesmo acontece quando House está diante de um paciente, pois poucas palavras e alguns indícios podem fazê-lo formular um diagnóstico certeiro. De certa forma, os dois fogem das atitudes convencionais, agem à margem da lei: Holmes por ser um investigador com métodos próprios a quem a polícia oficial recorre; House, um médico pouco apegado aos limites éticos da profissão, mas procurado por resolver casos que nenhum outro conseguiu.
O personagem de Doyle fica profundamente entediado quando não está desvendando um assassinato ou coisa parecida, momentos em que costuma cheirar cocaína. Na TV, House é viciado em um analgésico à base de morfina, o Vicodin, por causa da dor na perna adquirida num acidente. Pela fatalidade, ele também é manco e dificilmente aparece em cena sem a sua bengala. Ora, se há objetos que representam Sherlock Holmes, esses são a bengala e o cachimbo.
O gosto pela música é mais um aspecto que os une, apreço descrito no conto O Ritual Musgrave:
“(…) as explosões de energia apaixonada que ocorriam quando ele realizava as notáveis façanhas às quais seu nome estava associado eram seguidas por reações de letargia, durante as quais ele se recolhia com seu violino e seus livros, raramente se movendo exceto do sofá para a mesa.”
Enquanto Holmes cultiva o hábito de tocar violino, inúmeros episódios de House terminam com o médico dedilhando com maestria o piano, depois de mais um caso inusitado chegar ao fim (Hugh Laurie, inclusive, lançou um disco). Em outros momentos, um disco na vitrola do “Sherlock da medicina” conduz sua mente ao encontro da solução para restaurar a saúde de algum paciente. Os dois personagens são bem educados e apreciam a alta cultura.
Não seria justo esquecer outra referência forte que David Shore fez questão de colocar no seriado de TV: o vilão professor Moriarty. No texto de Arthur Conan Doyle chamado O problema final, o próprio Sherlock Holmes assim descreve o seu arqui-inimigo:
“Sua carreira é extraordinária. Ele é um homem de berço e educação excelentes, dotado de uma capacidade fenomenal para a matemática. (…) Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o organizador de metade do que está mal e de quase tudo que não é resolvido nesta grande cidade.”
O personagem é um verdadeiro antagonista que Holmes dedica-se arduamente a capturar. Então não é à toa que, no final da segunda temporada de Dr. House, no episódio chamado No Reason, um paciente raivoso que atira no médico tem o nome de Jack Moriarty. Para os espectadores da série, a cena tem um alto impacto, até então Gregory House raras vezes havia sido contrariado, muito menos agredido, apesar das mentiras e do jeito hostil com que costuma tratar os pacientes.

Inúmeras teorias debatem os caminhos percorridos na adaptação de uma obra literária para outro meio. Na falta da intenção de transpor toda a narrativa para o formato audiovisual, a relação das duas criações em questão passa pela margem dessa discussão. Talvez a melhor definição do que aconteça no caso Holmes x House seja a elaborada pelo roteirista Doc Comparato. Ele divide o processo em três tipos, sendo o inspirado em o mais adequado à situação, aquele em que “o roteirista aproveita um personagem ou situação para desenvolver uma nova obra”. As outras duas formas de adaptação seriam a recriação, quando a nova produção usa o argumento principal com liberdade, e a adaptação livre, que mantém a história, porém focando apenas um dos aspectos da fonte.
Há uma certa unanimidade na defesa de que a obra adaptada de um texto literário deve apresentar uma autonomia fílmica, como ressalta Ana Maria Balogh. Ou seja, antes de ser analisada como adaptação, ela deve ter vida própria. Não é uma tarefa fácil, os roteiristas ficam entre a expectativa de fidelidade ao livro do público e o compromisso com a crítica de trazer algo novo. Diante dessa tensão, Silvano Santiago acredita que a segunda obra conquista autonomia justo pelo que tem de divergente da obra original. Ainda assim, o crítico diagnostica a independência total como impossível, uma limitação que ele descreveu no conceito de forma-prisão.
No caso do seriado de TV Dr. House, há uma ligação clara, porém superficial com as histórias de Sherlock Holmes: apenas as características de alguns personagens serviram de inspiração para a criação de outros. Todos os elementos restantes que compõem a narrativa são diferentes: o contexto sócio-político, as histórias pessoais, o ambiente onde a trama se desenrola, a época, etc. Portanto, pode-se afirmar que a série é uma espécie de adaptação bem-sucedida da obra de Conan Doyle por ser um produto cultural independente. Pelos meios tradicionais de se avaliar um programa televisivo, a produção também é um sucesso: além de estar sendo exibida há quase oito anos, ganhou importantes prêmios como quatro Emmy Awars, dois Screen Actors Guild Awards e dois Globos de Ouro para Laurie.
*Texto apresentado na disciplina Crítica e Cultura de TV, com a Profa. Ma. Adriana Santana, no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.