
Homenageando o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Zé Celso traz de volta ao Teatro Oficina o espetáculo Macumba Antropófaga, apresentando grandes nomes da história da arte brasileira, entoados por um coro de jovens atores que se reconhecem como “bichos humanos”. Quando me convidaram para assistir à peça, me avisaram que não era para os fracos. E não é, de fato. Não que o nu ou as sugestões sexuais propostos por Zé Celso sejam um grande problema. O choque inicial pode até atingir os mais conservadores, mas essa inquietação não dura muito tempo.
Em termo gerais, a ousadia é um dos aspectos mais associados à figura de José Celso Martinez Corrêa, um dos mais importantes encenadores do Brasil atualmente. A exploração da nudez em suas peças rendeu a sensacionalista alcunha às suas montagens de “teatro pornô”, o que, definitivamente, não é o caso. O sexo está presente na temática de forma natural; talvez sejamos nós, espectadores, que não estejamos habituados a encarar nossa sexualidade naturalmente.



Esse, inclusive, é um dos pontos que Macumba Antropófaga reforça com a plateia (ou pseudoplateia, como discorrerei mais a frente), quando os atores convidam os presentes a tirar a roupa e integrar uma grande ciranda. Todas as nossas inibições perdem um pouco do sentido ao se perceber que as pessoas sem roupas – negras, brancas, gordas, magras, homens, mulheres e demais diferenças corporais – formam uma massa única, na qual é difícil distinguir quem é quem. A nudez, primeiramente escancarada em posições, gestos e palavras, assume o papel de coadjuvante.
Saindo da cansativa polêmica que envolve qualquer produção de Zé Celso, minha principal impressão ao assistir um espetáculo seu pela primeira vez foi a desconstrução total da ideia tradicional de teatro. Não há coxias, bastidores, palcos e plateia propriamente ditos. Todos esses elementos tradicionais estão expostos no galpão do Teatro Oficina. Antes disso, não há, de fato, o “teatro”, uma vez que a peça começa pelas ruas do tradicional bairro do Bexiga, no centro de São Paulo, reunindo atores, espectadores e moradores da região.
Retomando o fato de a peça “não ser para os fracos”, o principal motivo é a dinâmica de representação do conteúdo. Diálogos, intervenções, músicas e projeções acontecem em todos os espaços do Teatro Oficina, obrigando o espectador a ter uma postura ativa em relação à história, não absorvendo-a passivamente como acontece no teatro tradicional. O grande fluxo de informações e as mais de 4 horas de duração do espetáculo fazem com que os visitantes deixem o local exaustos.

Sobre a história em si, não é do tipo que se possa resumir numa crítica. Ela tem que ser vivida, experimentada e compartilhada. Cenografia, figurino, iluminação e trilha sonora são impecáveis e o conteúdo é atual e multiplataforma, incluindo um breve momento em que a plateia é instigada a twittar sobre a ocasião. O simbolismo e o resgate histórico são constantes e os atores executam as cenas aliando precisão e espontaneidade. Zé Celso convida a testemunhar a história da arte brasileira sem pudores, sem amarras e sem protocolos, do jeito que ele gosta.
Ao fim, uma aura que mistura mística e alegria dá o tom do espetáculo, que fica em cartaz até o dia 1º de julho, no Teatro Oficina. Para quem não está em São Paulo, não tem desculpa, pois é possível acompanhar a transmissão ao vivo clicando aqui.



SERVIÇO
Temporada: De 12 de maio a 01 de julho de 2012, sempre aos sábados e domingos.
Horário: 17h.
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia) e R$ 10,00 (moradores do Bixiga, mediante comprovação de residência). Desconto de 50% para clientes do cartão Petrobras e acompanhante.
Local: Estratoporto do Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga. Tel: 11. 3106-2818).
Capacidade: 350 pessoas.
Venda de Ingressos: Através do e-mail ingressosmacumba@teatroficina.com.br ou na bilheteria do Teatro Oficina (no dia das sessões, a partir das 16h).
Indicação etária: 16 anos






















