Se tivesse de classificar meu gosto musical, não evitaria o clichê e me chamaria de eclético. Tenho minhas preferências, mas são poucas as músicas que não escutaria em situação alguma. Sei curtir o pagode no churrasco, já tive CD pirata de funk e não dispenso um pop de qualidade (cada vez mais raro hoje em dia). Isso não quer dizer que eu aguento tudo. O sertanejo universitário, por exemplo, ainda não desceu pela garganta.
Com a internet como catálogo, fui criando uma zona de conforto e passei a controlar totalmente o que chegava aos meus ouvidos. Durante anos não faltaram discos interessantes para aguentar o trânsito do Recife ou uma agradável viagem pelas nossas esburacadas estradas. Eis que tudo isso veio por água abaixo quando meu sonzinho decidiu que já era hora de pifar e que tocar CD era coisa do passado. Enrolado para consertar as coisas como sou, achei que viveria uns meses de agonia. O que não esperava foi justamente o que aconteceu: redescobri o prazer de ouvir rádio.

Pode parecer besteira, mas é impressionante como uma mudança tão simples pode transformar o dia-a-dia. Começando pelo elemento mais óbvio, a música se torna uma experiência diferente. Nunca sei o que vai tocar e faixa após faixa fico numa expectativa boa. Isso porque achei uma rádio que me agrada quase todo o tempo. A Oi FM passa boa parte do dia avisando que é diferente das outras, livre, que toca as mais pedidas e as menos pedidas. Quem diria, a propaganda é verdadeira. A seleção musical surpreende mesmo pela qualidade e pela originalidade. Gosto muito de ouvir o que não conheço e preciso deixar meu iPhone com o SoundHound sempre a postos para registrar e lembrar o que quero ouvir mais vezes. Boa parte dessas descobertas deu corpo a nossa Mixtape #2.
Mesmo durante raras músicas estranhas demais até pra mim, não sinto vontade alguma de zapear pelas outras rádios e assim fui conhecendo e me familiarizando com Claudio N, Cardoso, Gustavo Mini e a sempre positiva Júlia Carvalho, que me faz chegar animado ao trabalho com seu Rádio Café. Ainda tenho o prazer de ouvir o amigo Nicola Sultanum, que me permite voltar pra casa ouvindo Tom Waits. Simplesmente não consigo desligar o som e descer do carro enquanto eles estão falando.

Ouvinte fiel que sou, fico ligado até nas propagandas, que são um mundo à parte. É muito interessante ouvir os spots e jingles, até mesmo para rir de alguns. Surpreendente, por exemplo, a cara de pau da Levi’s com os trocadilhos mais cretinos que a gente não teria coragem de contar na mesa de bar. Tá chovendo canivetes lá fora? Então corre pra se abrigar na loja que são os preços que estão caindo. E assim vai. E se jingle bom é o que gruda na cabeça, sucesso total pra Hyundai Caoa, que me deixa o dia inteiro passando vergonha por cantarolar em voz alta. Exceto, claro, quando encontro um companheiro fiel do rádio, que então entoa o jingle comigo. A sensação é similar a de usar bigode e encontrar um senhor bigodudo no elevador que balança a cabeça em aprovação. Você não está sozinho.
Fechando o pacote, saio do trabalho por volta das 19h e aí, meu amigo, não tem pra onde correr: é A Voz do Brasil. Na primeira vez achei que ia ter um troço. Até dirigi em silêncio por uns dias. Puro preconceito. Hoje ligo o rádio e aumento o volume para ouvir bem tudo que está rolando nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Logo eu, que não queria nem papo sobre política, agora ando interessado em tudo.

Depois de alguns meses, continuo sem pressa alguma de voltar aos meus CDs. Na era da internet e TV digital, novidade mesmo pra mim foi o rádio.













